Do interior de São Paulo à Suíça, a cantora e compositora Da Cruz vem construindo uma ponte sonora conectando a cultura brasileira ao mundo, combinando as raízes do samba e do afrobeat com elementos da música eletrônica urbana. A originalidade do seu trabalho forçou a crítica musical a conceber um novo termo para descrevê-lo: afro-brasileiro futurista.
Nascida em Paranapanema como Mariana Da Cruz, a artista há duas décadas vive em Berna, capital da Suíça. Em janeiro, ela lançou o seu sétimo álbum de estúdio. Intitulado Som Sistema, trata dos efeitos de longo prazo do colonialismo, das mudanças sociais que estão fervilhando hoje, da apropriação de terras dos povos indígenas no Brasil e também do desafio de buscar amor e redenção em tempos tão tensos.
Em sua música, Da Cruz explora suas raízes africanas e brasileiras, mas para isso não se limita a revisitar os elementos mais tradicionais destas vertentes musicais. Seu olhar privilegia os mais recentes desenvolvimentos da moderna música negra. Seu espectro de referências sonoras vai do Amapiano sul-africano ao baile Funk brasileiro, passando pelo Shatta caribenho e por vários estilos de nova música africana de boate com direito a traços do Kuduro angolano e do Trap nacional.
O resultado desta fusão é uma música brasileira autônoma e contemporânea, com caráter de canção e mensagem marcante. O trabalho com onze faixas já está disponível nas plataformas digitais.
“A concepção do álbum traz uma série de nuances culturais. Eu carrego ainda essa dúvida, quanto a de onde vieram os meus antepassados. O que fiz foi me jogar na cena africana e viajar por países de lá. Por onde passei, busquei ouvir cada batida, entender que tipo de som fazem por lá. Pela música, pela pesquisa sobre a musicalidade, fui me orientando em cada país que a gente visitou”, conta a cantora.
“Nesse Som Sistema, a gente quer realmente falar sobre coisas urgentes, e de uma forma bem alta, que seja ouvida de longe. Foi esse o pensamento em torno desse novo álbum.”
Desde o ano passado, o novo trabalho vem lentamente vindo à tona, no formato de singles. As canções lançadas foram Chata, Uma Hora Mais, Rolexxx, Tudo Bem Mais Complicado e Nosso País. As faixas ganharam repercussão e estão sendo tocadas em rádios internacionais de expressão, como KEXP, KCRW, Radio France International e muitas outras.
Liderando a banda, que também leva o nome Da Cruz, Mariana conquistou um público fiel em toda a Europa. Suas apresentações são conhecidas pela energia contagiante e pela fusão de idiomas e ritmos, levando a cultura das “quebradas” brasileiras para os palcos internacionais.
Ela se apresenta cantando em português, mas isso não limita o alcance do seu trabalho. “Desde o começo eu sempre tive em mente essa junção do público. Não faço um trabalho direcionado só para a nossa comunidade. Sou brasileira, vou cantar em português, trazer as minhas raízes e tal, mas quero que o público seja essa junção. Acho que a música não tem barreira para a linguagem”, diz.
“Quando a gente está no show, eu cantando em português, dou só um spoiler, um pouco do que a música está dizendo. Aí eles já entram na vibe. Eu falo: “Olha, a música fala sobre isso, a gente está defendendo essa bandeira, essa ideia”. E eles: “Ah, então tá, vamos juntos”, explica.
Mariana Da Cruz é a sétima filha de um cozinheiro e uma colhedora de algodão. Cresceu em condições humildes, mas seus pais eram amantes da música brasileira. Aos 17 anos, deixou o interior, formou-se professora e financiou seus estudos cantando na cidade de Campinas. Suas ambições artísticas miravam bem além do Brasil. Por isso, decidiu se mudar para viver em Lisboa, em Portugal.
“Venho de uma família simples, de Paranapanema. Meus pais não tinham condições de comprar CDs ou vinil, a gente ouvia muita música pelo rádio. Comecei a cantar e a descobrir os primeiros acordes na igreja. Meu pai gostava muito de MPB e de samba raiz. A gente também ouvia muito Elza Soares, Cassiano, Jorge Bem, Tim Maia e até Miles Davis”, lembra.
Em 1999, teve oportunidade de se mudar para Portugal. Na época, relembra, não havia tantos brasileiros morando por lá. Viveu em Lisboa três anos. Na fase lisboeta, deu vazão a sua curiosidade e se jogou na cena africana que fervilhava na cidade. Após uma apresentação em Portugal, conheceu Ane Hebeisen, ex-vocalista e programadora da banda suíça de estilo electro-industrial Swamp Terrorists. Com ele, fundou a banda Da Cruz. Isso levou à mudança para Berna e o início de uma nova etapa artística.
Desde 2008, Da Cruz já lançou sete álbuns de estúdio. Dentre os seus trabalhos, um dos destaque é o álbum Sistema Subversiva”, de 2011, lançado pela gravadora americana Six Degrees Records (a mesma das cantoras Bebel Gilberto e CéU).
“Eu defino a obra da [banda] Da Cruz como ousada, resistente e curiosa demais. Fazemos uma música contemporânea negra que não deixa desligar o cérebro. Mesmo quando as pessoas estão dançando, podem refletir sobre a letra. A gente está sempre olhando para o futuro, sem medo de arriscar e explorar”, diz.
Confira abaixo a entrevista completa no Podcast MPB Unesp.
Imagem acima: crédito de Ane Heibsen
