Estudantes foram os primeiros a acreditar no projeto da Unesp, avalia docente que testemunhou criação da Universidade

Em entrevista ao podcast Prato do Dia, o presidente da Comissão Organizadora dos 50 anos, José Paes de Almeida Nogueira Pinto, relembra sua trajetória como unespiano desde a primeira turma de alunos de graduação e comenta os eventos que marcaram meio século de desenvolvimento da Instituição.

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Em 30 de janeiro de 1976, o governo do estado de São Paulo promulgou a lei que criou da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”. A Unesp surgiu com o objetivo de reunir, sob uma única estrutura administrativa, institutos de ensino superior localizados no interior do estado.

Ao todo, 15 unidades, distribuídas em 14 câmpus — Araçatuba, Araraquara, Assis, Botucatu, Franca, Guaratinguetá, Ilha Solteira, Jaboticabal, Marília, Presidente Prudente, Rio Claro, São Bernardo do Campo, São José do Rio Preto e São José dos Campos — integraram-se na nova Universidade.

 Neste ano, a Unesp celebra meio século de existência contando com 34 unidades universitárias e 24 câmpus espalhados por todo o território paulista. Ao longo dessas décadas, a trajetória da Instituição foi marcada pela construção de sua identidade, por lutas pela democratização, interna e externa, e pela consolidação de sua atuação nas esferas científica, acadêmica e social.

Para celebrar essa história, o podcast Prato do Dia entrevistou o professor da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia de Botucatu, coordenador da Coordenadoria de Ação Cultural (CoAC) e presidente da comissão organizadora dos 50 anos da Unesp, José Paes de Almeida Nogueira Pinto, conhecido como professor Paes.

Sua trajetória na universidade teve início nos bancos da então Faculdade de Ciências Médicas e Biológicas de Botucatu, onde ingressou em 1976. Foi como estudante que acompanhou a integração da FMB à Unesp. Anos depois, retornaria à Instituição, na condição de professor. Nos últimos anos, vem desempenhando funções ligadas à administração central da Universidade.

Paes conta que, inicialmente, o processo de criação da Unesp foi recebido com desconfiança por todos os lados. Docentes, servidores e estudantes não sabiam, ao certo, quais impactos a mudança acarretaria para o futuro. E o contexto da ditadura militar acentuava esse sentimento, pois havia uma desconfiança generalizada — e justificada — de decisões vindas do poder Executivo, tanto Estadual como Federal.

Com o passar do tempo, a comunidade universitária passou a compreender e aceitar o novo arranjo institucional. E quem saiu na frente dessa aceitação foi o corpo discente. “Para mim é muito claro que o primeiro segmento a enxergar a Unesp como universidade, os primeiros a acreditar nesse projeto, foram os estudantes. Principalmente porque, conforme as turmas ingressavam, a ideia se espalhava”, afirma Paes.

Um sinal desta adesão primeva é o fato de que aqueles alunos que ingressaram na Universidade durante a sua primeira década estabeleceram vínculos duradouros com a Instituição e, posteriormente, chegaram a posições de liderança. Aliás, desde 2017 o posto máximo da universidade vem sendo ocupado por oriundos da graduação na Unesp: o farmacêutico-bioquímico Sandro Valentini (2017 –  2021), o médico Pasqual Barretti (2021 – 2025) e a química Maysa Furlan, atual Reitora.

“Para cidades do interior, como Botucatu, a criação da Universidade marca um antes e um depois. É difícil mensurar sua importância para a formação de milhares de pessoas ao longo desses 50 anos”, destaca Paes. “Hoje, existe um sentimento mais claro de pertencimento a uma única Unesp, em que todo o território paulista é o nosso câmpus”, afirma.

As lutas pela democratização e a construção da identidade institucional

O processo de construção de uma identidade institucional própria levou alguns anos para engrenar, e caminhou em paralelo às lutas mais amplas pela redemocratização.

“O ano de 1977 foi muito importante, pois marcou o renascimento do movimento estudantil em São Paulo” diz Paes. “Lembro bem que começou na capital do estado, obviamente. Mas várias unidades da Unesp entraram na luta. Botucatu foi uma delas, mas também Araraquara, São José do Rio Preto e Marília”, recorda.

Naquele ano de 1977, estudantes da Unesp foram às ruas em defesa da redemocratização e participaram ativamente da reconstrução da União Estadual dos Estudantes. Alunos do câmpus de Botucatu inclusive integraram a direção da entidade. A repressão, entretanto, ainda era intensa.

 “Lembro de um acontecimento trágico, em que os pertences dos alunos que estavam no Centro Acadêmico foram retirados e as salas, lacradas pela direção da unidade. Fizemos uma assembleia, retomamos os espaços, mas houve uma resposta dura a essa ação. O Reitor se deslocou até Botucatu e determinou que os alunos se retirassem, sob ameaça de chamar a Polícia Militar. Nós não saímos, e ele acionou o Batalhão da Polícia Militar de Sorocaba”, relata.

As primeiras consultas públicas para Reitor

Mesmo com a repressão, o movimento estudantil permaneceu ativo, e as lutas pela democracia na Unesp estavam apenas começando. Em 1982, ocorreram as primeiras eleições diretas para governador desde 1966 nos estados de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Esse contexto político motivou docentes do Instituto de Letras, História e Psicologia de Assis a realizarem uma votação direta para a escolha da direção da unidade.

 O processo, apoiado pela Associação de Docentes da Unesp (Adunesp), foi ignorado pelo então Reitor Armando Octávio Ramos. À época, cabia ao Reitor a nomeação dos diretores das unidades. A decisão gerou protestos no câmpus, que foram reprimidos pela Polícia Militar. Mas, apesar de não ter sido bem-sucedida, a iniciativa impulsionou a Adunesp a organizar, ainda em 1982, uma consulta popular para a escolha do Reitor da Universidade.

Foram realizadas duas consultas públicas, uma organizada pela Adunesp e outra pelo Conselho Universitário, ambas com o mesmo resultado: William Saad Hossne, docente da Faculdade de Ciências Médicas e Biológicas de Botucatu, foi o mais votado, seguido por Nilo Odália, ex-presidente da Adunesp e ex-diretor do câmpus de Araraquara. No entanto, quando a lista foi encaminhada ao governador para apreciação, os nomes dos mais votados foram retirados.

 Esse movimento provocou forte reação da comunidade acadêmica. Em 1984, estudantes dos 15 câmpus ocuparam o prédio da reitoria, então localizado na Praça da Sé, em São Paulo. O impasse se estendeu por meses e resultou na nomeação, pelo governador, de um Reitor temporário, Jorge Nagle, de Araraquara.

Em janeiro de 1985, após um período de maior diálogo, o Colégio Eleitoral enviou uma nova lista sextupla (na época, eram seis os indicados a reitor) e Nagle foi o escolhido pelo governador Franco Montoro. William Saad Hossne, novamente, era preterido. (Anos depois, em conversa por telefone com um dos jornalistas que assinam esta reportagem, Saad Hossne revelou que Montoro o chamou ao Palácio dos Bandeirantes para justificar a decisão. Era um pedido de desculpas, que foi aceito sem ressentimentos, afirmou Hossne à época.)

Na gestão Nagle, que se caracterizou por encaminhar o processo de transição democrática, ocorreu a primeira consulta pública oficial para o cargo de Reitor da Unesp. O eleito foi Paulo Landim, do câmpus de Rio Claro. Esse processo – detalhado na série de reportagens do Jornal da Unesp – foi fundamental para a construção da identidade institucional e o fortalecimento do sentimento de pertencimento, especialmente entre estudantes e servidores que participaram daquele momento.

Da autonomia universitária ao destaque nacional e internacional

Outro marco destacado por José Paes na entrevista ao Prato do Dia foi a conquista da autonomia universitária, em 1989, pelas universidades estaduais paulistas. A autonomia, viabilizada em decreto assinado pelo governador Orestes Quércia, permitiu à Unesp maior liberdade na gestão de seus recursos.

“Todo ano era uma batalha, porque não sabíamos o que iria acontecer do ponto de vista burocrático. Isso dificultava muito o trabalho”, relembra. Ele enfatiza o quanto as instituições de ensino superior de outros estados se ressentem por não disporem de um mecanismo semelhante. “Quando converso com representantes de outras universidades, percebo um desejo enorme por alcançarem o que conquistamos em 1989.”  

O período da gestão do Reitor Marcos Macari e do vice-reitor Herman Voorwald, entre 2005 e 2009, assinalou uma importante inflexão administrativa. “Eles assumiram em um momento de crise econômica muito intensa”, explica. Apesar das dificuldades, as decisões tomadas resultaram em uma reorganização bem-sucedida da Instituição. “Foi uma época muito difícil, mas com uma reitoria marcante. Quando Macari deixou o cargo, já estávamos em uma situação muito melhor, fruto de um trabalho interno bem-feito”, comenta.

A Unesp foi a primeira universidade pública paulista a adotar o sistema de reserva de vagas para estudantes oriundos da escola pública e para candidatos pretos, pardos e indígenas. “É um processo riquíssimo e absolutamente necessário. Mas traz grandes desafios, especialmente relacionados à permanência estudantil. Não basta fazer a pessoa entrar, ela tem que ter condições de se manter”, ressalta Paes.

Com a criação, em 2025, da Pró-Reitoria de Ações Afirmativas, Diversidade e Equidade, na gestão da reitora Maysa Furlan, essas pautas ganharam ainda mais centralidade. “A permanência precisa se ampliar e se sofisticar, porque envolve múltiplas dimensões, como gênero e outras vulnerabilidades. Temos trabalhado bem, mas devemos evoluir”, afirma.            

O episódio completo do Prato do Dia, que integra as comemorações pelos 50 anos da Unesp e contou com a participação do professor José Carlos Marques, assessor-chefe de Comunicação e Imprensa da Universidade, pode ser ouvido no player abaixo, e também está disponível no site do Podcast Unesp e nas principais plataformas de áudio.