A recente criação de um Conselho da Paz pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, reacendeu o debate sobre os rumos da diplomacia internacional e os limites do multilateralismo. Apresentada como uma iniciativa para lidar com conflitos armados em diferentes regiões do mundo, a proposta chamou atenção ao se colocar como alternativa às instâncias internacionais já consolidadas, levantando questionamentos sobre seus impactos para a ordem global e para os mecanismos tradicionais de mediação e negociação entre os Estados.
Esse cenário é analisado por Neusa Maria Pereira Bojikian, especialista em política econômica e internacional dos Estados Unidos e vinculada a um Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia dedicado exclusivamente ao estudo do país norte-americano, o INCT-INEU. Para a pesquisadora, compreender a proposta do Conselho feita por Trump exige uma leitura histórica das relações internacionais, já que o conceito de paz nunca foi construído de forma neutra no sistema internacional.
Segundo Neusa Maria Pereira Bojikian, ao longo do tempo, o conceito de paz foi mobilizado para legitimar hierarquias e relações de poder. No século XIX, por exemplo, a chamada “paz europeia” serviu para sustentar impérios coloniais. Após a Segunda Guerra Mundial, a noção de paz passou a ser associada, ao menos no plano normativo, à contenção do uso unilateral da força e à criação de instituições internacionais. “O princípio da reciprocidade foi incorporado a esses acordos, ainda que eles nunca tenham sido aplicados de maneira universal ou simétrica. Entretanto, eles contribuíram para a criação de uma espécie de vocabulário político”, afirma Bojikian, que é doutora pelo programa de pós-graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas, ligado ao Instituto de Políticas Públicas e Relações Internacionais (IPPRI), da Unesp.
Na avaliação da especialista, o Conselho da Paz proposto por Trump rompe com esse arranjo institucional construído no pós-guerra e reforça que a iniciativa nasce com o objetivo de reafirmar hierarquias. “Não há uma negociação horizontal aqui. As únicas opções são a adesão ou a marginalização”, destaca.
Neusa Maria Pereira Bojikian destaca o papel historicamente desempenhado pela Europa na construção da ordem internacional e afirma que a proposta apresentada pelos Estados Unidos esvazia esse legado ao reposicionar atores importantes no cenário político internacional como agentes secundários no novo conselho. “A Europa não foi convidada a ser co-autora desse projeto, e isso rompe com uma tradição que atravessou todo o pós-guerra, inclusive em momentos de grande tensão. Existia a ideia de que a segurança e a ordem no Atlântico Norte eram, de algum modo, co-produzidas. Isso muda agora. Os parceiros históricos deixam de participar das decisões, o que é extremamente preocupante para aqueles que sempre estiveram presentes nessas negociações e que, neste momento, foram dispensados”, explica a especialista.
No caso da América Latina, a proposta do Conselho da Paz reforça, segundo a pesquisadora da Unesp, uma lógica histórica de assimetria nas relações internacionais. “As críticas feitas pelos governos latino-americanos decorrem de uma experiência histórica acumulada. Aqui, a palavra paz nunca foi apenas uma questão normativa. Ao longo do século XX, muitas das operações realizadas em nome da estabilidade produziram exatamente o oposto e isso gera, infelizmente, uma desconfiança”, destaca.
Em relação ao Brasil, a especialista avalia que o cenário impõe desafios diplomáticos relevantes. Ao longo das últimas décadas, o país buscou fortalecer o multilateralismo e ampliar seu espaço no cenário internacional. Diante da criação do Conselho da Paz, o país se vê diante da necessidade de reafirmar sua aposta em mecanismos coletivos e de defender espaços institucionais onde possa exercer maior protagonismo e capacidade de negociação. “Quando o governo brasileiro fala em soberania nos discursos, não é por acaso. Para os países latinos, ainda que de forma imperfeita e muitas vezes frustrada, a ideia de paz sempre esteve associada à soberania, ao desenvolvimento, à capacidade de decisão própria”, explica a pesquisadora.
Ouça a análise completa da professora Neusa Maria Pereira Bojikian:
Imagem acima: Presidente dos EUA Donald Trump anuncia a criação do Conselho da Paz (Crédito: Whitehouse.gov)
