Proibição de redes sociais para menores de 16 anos na Austrália vai impactar debate sobre educação digital, avalia pesquisador da Unesp

Raul Alves de Souza comenta lei inédita que obriga plataformas a restringir o acesso de crianças e adolescentes, e ressalta necessidade de medidas complementares, incluindo educação digital e avanço no registro e na investigação de crimes cibernéticos.

Desde o dia 10 de dezembro, a Austrália tornou-se o primeiro país do mundo a implementar uma lei nacional que proíbe o acesso de menores de 16 anos às redes sociais. A medida estabelece a necessidade de verificação rigorosa de idade a plataformas como Facebook, Instagram, TikTok, YouTube e X. Em caso de descumprimento, elas estão sujeitas a multas de até 49,5 milhões de dólares australianos (cerca de R$ 180 milhões). O governo australiano agiu em resposta a preocupações com cyberbullying, conteúdo prejudicial, vício em algoritmos e riscos de aliciamento. A legislação marca um debate global sobre regulação digital e proteção infantil, e está sendo observada com atenção por nações como Noruega e Reino Unido, e alguns estados americanos como Utah e Califórnia.

Os efeitos e os limites dessa decisão inédita são analisados por Raul Alves de Souza, mestre e doutor em Educação Escolar pela Faculdade de Ciências e Letras da Unesp, campus de Araraquara, e pesquisador associado do Grupo de Estudos e Pesquisa em Educação Moral (GEPEM-Unesp). A partir de pesquisas na área da educação e da formação moral, Souza avalia a medida sob diferentes dimensões, que vão da saúde mental à efetividade regulatória.

Para o pesquisador, a lei é positiva por trazer à tona evidências científicas sobre os malefícios das redes sociais aos adolescentes. Nesse sentido, Souza avalia que a medida deve marcar “um momento histórico atual”, ao evidenciar a necessidade de discutir coletivamente os limites do uso das plataformas digitais por jovens.

Implementar a nova lei promete ser um desafio. “Do ponto de vista procedimental, essa é uma medida que pode ser bastante complexa, já que o uso de redes sociais hoje se encontra bastante inserido na nossa sociedade”, ressalta. O pesquisador enfatiza que, embora as plataformas tenham classificação etária, existem mecanismos eficientes para burlar a idade mínima exigida.

No que se refere aos impactos na saúde mental, o especialista avalia que a restrição tende a produzir efeitos positivos. Segundo ele, há uma relação direta entre o tempo de exposição às telas e o agravamento de problemas psicológicos entre adolescentes, o que reforça a importância de reduzir esse contato. “A internet tem se mostrado como um grande fator de adoecimento, no que se refere às questões mentais, psicológicas e sociais dos nossos jovens”, afirma.

No entanto, a principal preocupação do pesquisador está relacionada ao processo formativo. Souza avalia que a proibição, quando dissociada de educação digital, pode gerar um efeito limitado. “ Com a proibição do acesso, esse jovem perde a possibilidade de aprender a lidar com o seu próprio uso. Isso vai resultar em uma série de questões que continuarão aparecendo após os 16 anos”, destaca.

Essa mesma lógica aparece na análise sobre o combate a crimes cibernéticos e abusos. O pesquisador reconhece que a proibição reduz os riscos enquanto o acesso não ocorre, mas questiona quais serão os efeitos após o período. “Se não houver o movimento formativo vinculado ao movimento regulatório, a eficácia dessas propostas é reduzida de maneira muito drástica”, afirma. Segundo ele, o acesso posterior pode ocorrer de forma desprotegida, mantendo os jovens vulneráveis a situações de risco mesmo após a idade permitida.

Souza defende, finalmente, que a medida australiana seja empregada como parte de uma estratégia mais ampla. E aponta três eixos centrais: educação digital preventiva, fortalecimento dos mecanismos de investigação e do registro de crimes cibernéticos e colaboração entre diferentes setores da sociedade. “Problemas complexos não podem ser pensados a partir de soluções simplistas”, diz. Para uma solução eficiente, o especialista defende que ações articuladas entre Estado, escolas, plataformas digitais e sociedade civil sejam indispensáveis para a proteção de crianças e adolescentes no ambiente digital.

Ouça a íntegra da entrevista de Raul Alves de Souza no Podcast Unesp.