O ‘protagonismo invisível’ de um bibliotecário paulista pioneiro

Oficina Cultural Oswald de Andrade, no centro de SP, recebe exposição da Unesp sobre Rubens Borba de Moraes. Evento integra o festival Centenários e vai até o mês de abril.

A trajetória de um bibliotecário brasileiro que participou de articulações políticas importantes em São Paulo e ocupou alguns dos cargos mais cobiçados de sua ocupação, com contribuições decisivas para a profissionalização da área da biblioteconomia no país, está sendo resgatada pela exposição “Rubens Borba de Moraes: um protagonista invisível”, organizada pela Unesp, por meio de uma articulação entre a Pró-Reitoria de Extensão Universitária e Cultura (Proec) e Coordenadoria Geral de Bibliotecas (CGB).

Amigo do poeta Mário de Andrade, Rubens Borba de Moraes participou da organização da Semana de Arte Moderna em 1922, trabalhou com Mário na criação do Departamento de Cultura da Prefeitura de São Paulo, instância que abriu caminho para a política de instalação de bibliotecas públicas, foi diretor da atual Biblioteca Municipal Mário de Andrade, da Biblioteca Nacional, no Rio, da Biblioteca da ONU, em Nova York e professor na área de biblioteconomia da Universidade de Brasília (UnB). Apesar da jornada notória e vanguardista, pensando a cultura como política pública e elemento fundamental para o Estado na primeira metade do século passado, a história de Borba de Moraes, que era também bibliófilo e bibliógrafo, ainda não havia sido contada de forma a expressar seu protagonismo. 

Daí os curadores terem escolhido o excerto aparentemente paradoxal “o protagonista invisível” para dar nome à exposição, que começa nesta segunda-feira, 6 de março, e vai até 5 de abril na Oficina Cultural Oswald de Andrade, localizada na região central da capital paulista. A entrada é gratuita. A exposição faz parte do Festival Centenários, extensa programação acadêmica, cultural e artística iniciada em 2022 e organizada pela Unesp para promover reflexões sobre o bicentenário da Independência do Brasil e o centenário da Semana de Arte Moderna, marcos históricos em que se debateu um projeto de nação.

“Nos anos de 1930, Rubens Borba de Moraes fez parte de um grupo de intelectuais e políticos paulistas empenhados na construção do estado e que entenderam a cultura como uma dimensão importante desse processo. É uma pessoa que teve uma trajetória importantíssima, fundamental, e que não é muito lembrada fora dos círculos acadêmicos”, afirma o professor Paulo Celso Moura, docente do Instituto de Artes do câmpus de São Paulo e coordenador de cultura da Pró-Reitoria de Extensão Universitária e Cultura da Unesp.

Pioneiro na área de biblioteconomia no país, Borba de Moraes difundiu alguns dos conceitos que até hoje influenciam na concepção e organização de acervos bibliográficos Brasil afora, como a preocupação com espaços de leitura e convivência, com a iluminação e com o paisagismo. Boa parte de suas ideias foram aplicadas no icônico prédio da Biblioteca Municipal Mário de Andrade (antiga Biblioteca Municipal de São Paulo), localizada no início da Rua da Consolação, região central de São Paulo. “Ele para mim era um visionário”, diz Flávia Bastos, coordenadora geral das bibliotecas da Unesp.

“Alguns dos projetos relacionados à formação de leitores e o acesso à cultura e ao conhecimento também eram trabalhados fortemente pelo Rubens Borba de Moraes, pensamentos hoje muito em sintonia com alguns projetos da nossa Universidade, como a revitalização dos espaços das bibliotecas e a inclusão da biblioteca em diversas ações culturais”, lembra Flávia Bastos, doutora em ciência da informação pela Unesp.

Graduado em letras na Universidade de Genebra em 1919, Rubens Borba de Moraes foi diretor do Centro de Informações da ONU em Paris pouco tempo após o final da Segunda Guerra Mundial. Antes disso, havia estudado biblioteconomia nos Estados Unidos. “Ao longo da sua vida, ele continuou trocando correspondências com bibliotecários de fora do Brasil e sempre defendeu a importância da formação do profissional e de se ter uma regulamentação da profissão”, afirma a Lúcia Parra, bibliotecária da Coordenadoria Geral das Bibliotecas da Unesp que fez as primeiras pesquisas para a exposição.

A exposição reúne materiais que fazem parte de acervos de diversas instituições, tais como o Instituto de Estudos Brasileiros da USP, o Instituto Hercule Florence e a Fundação Padre Anchieta. Rubens Borba de Moraes, que ajudou a fundar em São Paulo a Escola de Sociologia e Política (atual Fundação Escola de Sociologia e Política), doou parte de seu acervo para o bibliófilo José Mindlin, material que faz parte hoje da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, da USP. Nascido em Araraquara (SP) em 1899, o bibliotecário não teve filhos e morreu em Bragança Paulista (SP) em 1986, aos 87 anos. Os responsáveis pela curadoria da exposição são Silvana Arduini e Nicholas Betoni. 

SERVIÇO

  • Exposição – “Rubens Borba de Moraes: um protagonista invisível”
  • Curadoria – Silvana Arduini e Nicholas Betoni
  • Local – Oficina Cultural Oswald de Andrade
  • Endereço – Rua Três Rios, 363, bairro do Bom Retiro, São Paulo/SP
  • Datas – De 6 de março a 5 de abril de 2023
  • Dias e horários – De segunda-feira a sexta-feira, das 10h às 20h; sábados, das 12h às 18h
  • Entrada gratuita
  • Mais informações: https://www.exposicaorbm.org/
  • Realização: Unesp – Pró-reitoria de Extensão Universitária e Cultura e Coordenadoria Geral das Bibliotecas