Há pouco mais de um século, em junho de 1815, o destino da Europa passava por uma encruzilhada. Napoleão Bonaparte, um dos generais mais brilhantes de todos os tempos e reinvestido no posto de Imperador da França, jogava sua última cartada. Sob suas ordens, cerca de 70 mil soldados do temido exército francês estavam reunidos em Waterloo, atual Bélgica. Do outro lado do campo de batalha, situado em uma posição mais alta, estava o exército britânico, complementado por militares de nacionalidade holandesa, belga e de diversos estados germânicos. O ataque francês estava previsto para o amanhecer do dia 18. Porém, fortes chuvas que atingiram o campo de batalha na noite anterior levaram o generalíssimo francês a atrasar a investida por algumas horas.
A forte chuva transformou o terreno onde a batalha ocorreria em um lamaçal. Quando o ataque sobreveio, o terreno pastoso dificultava a movimentação dos canhões. As balas que saíam dos canhões não ricocheteavam no terreno: ficavam presas na lama, reduzindo o seu poder destrutivo. Os cavalos lutavam para não atolar, tornando seus cavaleiros alvos fáceis. O exército da Sétima Coligação, que se encontrava em posição defensiva, ganhou tempo para consolidar suas defesas e realocar a artilharia. No fim do dia, os ingleses bloquearam o ataque, o exército francês foi derrotado e o lamaçal de Waterloo se tornou parte da própria história de Napoleão.
A Batalha de Waterloo é apenas um dos mais de 17 mil conflitos analisados em uma pesquisa que combinou história militar e ciências do solo, envolvendo pesquisadores da Unesp.
Muitos estudos anteriores já exploraram o papel do solo em atividades bélicas, mas essa é a primeira vez que cientistas trazem informações aprofundadas sobre a natureza, as características e a classificação do solo dentro desse contexto. No artigo, os pesquisadores levam em conta a textura, drenagem, fertilidade, estabilidade, entre diversos outros pontos que envolvem o solo. A partir da revisão, foi possível mostrar de que forma as propriedades do solo afetam dimensões fundamentais da guerra, como movimentação e abastecimento das tropas, capacidade de alimentar exércitos, engenharia e estabilidade de infraestruturas, camuflagem e também a dinâmica de contaminação e disseminação de doenças. A pesquisa foi publicada na revista Total Environment Advanced.
O estudo adotou uma abordagem interdisciplinar, cruzando dados de satélite, pedologia e história para demonstrar a influência do solo nas guerras históricas ocorridas entre 1468 a.C. e 2003. Os resultados demonstram a importância do solo para o desenvolvimento e o resultado dos conflitos militares, e também a necessidade de protegê-lo e conservá-lo – não apenas por fatores ambientais, mas também por questões políticas.
Gian Franco Capra, professor da Universidade de Sassari e primeiro autor do artigo, explica que a ideia de desenvolver o trabalho surgiu de uma constatação simples, mas persistente. “Na ciência do solo, frequentemente discutimos os modos pelos quais as guerras resultam em danos ao solo. Mas raramente nos questionamos sobre como o próprio solo ajuda a moldar as guerras”, diz.
Ao comentar o caráter interdisciplinar da abordagem, Capra pondera que, no ambiente da sala de aula, as discussões que abordam a degradação do solo são constantemente associadas a temas como segurança alimentar e transição energética. E, cada vez mais, a questão do controle dos solos férteis e dos recursos naturais está influenciando o campo das tensões geopolíticas e conflitos internacionais.

“O mesmo solo que sustenta a agricultura e os assentamentos humanos também influencia a forma como estradas se deterioram sob a chuva, como trincheiras permanecem estáveis, como poluentes se acumulam e como patógenos se proliferam em acampamentos militares”, aponta Capra. “O solo não decide onde as guerras começam, mas ajuda a determinar como elas se desenvolvem e qual será o seu custo humano e ambiental.”
Terra boa para plantar e construir fortes
Rafael Barroca Silva, doutor em Ciência Florestal pela Faculdade de Ciências Agrárias da Unesp, câmpus de Botucatu, e coautor do estudo, explica as diferentes formas pelas quais o solo pode influenciar uma guerra. As tropas de Napoleão que sofreram em Waterloo, por exemplo, tiveram dificuldades para lutar porque se viram refreadas pelas características dos luvissolos, que são ricos em argila, e dos cambissolos, solos minerais em estágio inicial de formação, que acabam formando lama.
Porém, se são péssimos para quem precisa lutar pela própria vida, esses solos são férteis e dotados de boa capacidade de produção de alimentos. Essa fertilidade gera cobiça e, inevitavelmente, conflitos; aliás, segundo os dados do levantamento, os cambissolos estavam envolvidos em quase 20% dos conflitos estudados.
Como exemplo de fertilidade, Silva também destaca os neossolos flúvicos formados nos deltas dos rios Tigre e Eufrates, na Mesopotâmia, durante a Idade do Bronze. O solo fértil e firme permitiu que as muitas civilizações que dominaram aquela região prosperassem graças ao plantio e ao transporte de mercadorias. Mas também se mostrou muito adequado a atividades de caráter militar, como a construção de fortificações, garantindo a expansão e proteção territorial das civilizações que viviam ali. “São solos com boa drenagem, com uma firmeza de terreno bastante interessante. Essa firmeza se mostrou excelente, por exemplo, para dar passagem às carruagens militares usadas em conflitos”, explica.
Ele faz um adendo: se os solos da Mesopotâmia se destacavam por sua fertilidade na Antiguidade, hoje a região é bem mais árida, devido às mudanças climáticas e outros eventos que tornaram o terreno improdutivo. “É importante pontuar que as características dos solos também se transformam com o tempo”, explica o pesquisador, ressaltando que a metodologia do estudo abrangeu também as mudanças ocorridas nos solos ao longo dos séculos.
Solo do Vietnã prejudicou invasores
Contrapondo-se à estabilidade dos neossolos flúvicos, os pesquisadores destacam os solos cujas características concorrem para atrapalhar algumas guerras. É o caso dos argissolos, que representam cerca de 24% da superfície do território brasileiro. “São solos comuns em regiões de floresta tropical úmida, como na Amazônia, no interior de São Paulo e em Minas Gerais”, explica o cientista.
Um exemplo da influência dos argissolos sobre o desenvolvimento de um conflito é o Vietnã, onde as guerras perduraram de forma quase ininterrupta entre as décadas de 1940 e 1970 contra exércitos invasores e ocupantes japoneses, franceses e norte-americanos. “É uma região tropical, cheia de florestas. As tropas americanas chegavam a aplicar aditivos no solo para conferir mais estabilidade ao terreno. Mas os vietnamitas tinham vantagens, graças ao conhecimento que possuíam do terreno”, diz.
Também são problemáticos os criossolos, típicos de regiões polares e subpolares, embora a baixa frequência de guerras nesses terrenos esteja associada não apenas ao clima frio, mas também à população reduzida. Fatores como clima, topografia, entre outros, também foram considerados no estudo, sem apontar o solo como único agente determinante das batalhas.
Os arenossolos, comuns em desertos, também só servem de campo de batalhas em ficções como Duna (2021). “No deserto, como o Saara, você não tem recursos, não tem plantações próximas. As tropas, os caminhões, os tanques iriam todos atolar”, comenta Silva.

Os dados empregados pelos estudiosos dizem respeito, em sua grande maioria, a eventos ocorridos no continente europeu, abrangendo as invasões bárbaras da Antiguidade tardia, os conflitos medievais, as guerras napoleônicas e as duas guerras mundiais. A Ásia vem em um distante segundo lugar, e as informações sobre conflitos nas Américas, África e Oceania, somadas, correspondem apenas a cerca de um terço da base.
Essa concentração reflete, na verdade, o próprio desenvolvimento dos estudos historiográficos da academia. A perspectiva eurocêntrica, reconhecem os pesquisadores, acaba dificultando o aprofundamento sobre conflitos nos demais continentes e seus desdobramentos. “Não sabemos, por exemplo, muitos detalhes sobre os conflitos que aconteceram no Império Inca ou no Império Maia, aqui nas Américas”, exemplifica Silva.
A guerra do Paraguai
Segundo Antonio Ganga, também professor da Universidade de Sassari e coautor do estudo, a Guerra do Paraguai, que durou de 1864 a 1870, oferece uma ilustração clara, dentro do contexto brasileiro, do impacto de variáveis como solo e terreno sobre as estratégias militares, a logística e o sofrimento humano.

“As campanhas ao longo dos rios Paraguai e Paraná foram profundamente condicionadas por solos mal drenados, sujeitos a inundações e áreas alagadiças”, diz. “Essas características dificultavam o deslocamento de tropas, a movimentação da artilharia e das linhas de abastecimento.” Ganga explica que períodos de chuvas intensas transformavam rotas estratégicas em grandes poças de lama, atrasando operações e contribuindo para o espalhamento de doenças e a exaustão dos soldados.
“Ao mesmo tempo, o controle de áreas com solos mais estáveis e férteis, adequados para acampamentos e suprimentos, tornou-se uma importante vantagem estratégica. Tudo somado, a Guerra do Paraguai surge como um exemplo sul-americano marcante de como o solo pode atuar na guerra como um protagonista silencioso, mas decisivo”, diz.
Alastramento de doenças e sustentabilidade
Os solos também podem influenciar os resultados das conflagrações devido às condições mais ou menos favoráveis que podem proporcionar aos microrganismos causadores de doenças. O mero ato de enterrar grandes quantidades de corpos em covas rasas favorece a proliferação de patógenos. E Silva cita como exemplo a Guerra da Crimeia, um conflito entre Rússia, França e Inglaterra no século 19, no qual houve mais de 200 mil mortes causadas por doenças. Boa parte dos soldados tombou não por balas mas sim por tétano, cuja bactéria causadora, a Clostridium tetani, mostrou-se capaz de viver e prosperar no solo russo.

Um exemplo mais contemporâneo vem da Primeira Guerra do Golfo, na década de 1990. Após invadirem o Kuwait, tropas iraquianas derrubaram cerca de 4 milhões de barris de petróleo bruto no Golfo Pérsico, além de incendiar mais de 700 poços kuwaitianos durante a retirada do país. As gigantescas chamas causadas pela queima do petróleo assustaram o planeta na época, e o resultado foi a contaminação de boa parte da área do país. “A contaminação do solo pode tornar áreas inteiras perigosas para a saúde humana e para a mobilidade, complicando operações militares e exigindo enormes esforços de remediação ambiental”, relata Capra. “No caso do Kuwait invadido, o solo tornou-se simultaneamente um alvo estratégico e um repositório duradouro do legado tóxico da guerra.”

Um exemplo extremo da questão da sustentabilidade dos solos e seus impactos sobre a continuidade das sociedades humanas envolve a ocupação da Groenlândia. No século 10, grupos vikings começaram a instalar assentamentos na ilha e se depararam com um ambiente marcado por solos frágeis. No entanto, a necessidade de assegurar o sustento do número crescente de imigrantes que chegavam aos assentamentos resultou em uma atividade agrícola intensa. Com o tempo, os solos foram exauridos. Isso, em combinação com o desmatamento e a variabilidade climática, resultou no comprometimento gradual da produção agrícola, levando ao colapso e ao desaparecimento das comunidades nórdicas.
Os pesquisadores reconhecem que este episódio destoa um pouco dos outros eventos que foram problematizados nas análises do artigo, mas ele é lembrado pelas lições que podem ser extraídas. “Não se trata de uma batalha no sentido tradicional, mas de um conflito entre uma sociedade e os limites de seus recursos ligados ao solo”, diz Capra. “No fim, é o sistema-solo que estabelece a fronteira final.”
Solos estão no centro também do pós-conflito
Mais do que estabelecer uma relação determinística, que consagre os solos como causas para conflitos, dizem os pesquisadores, o estudo evidencia uma associação entre o terreno e variáveis como clima, redes de povoamento e atividades agrícolas, que resultam em uma probabilidade maior de estouro de conflitos.
Por outro lado, é preciso lembrar que as atividades militares que caracterizam as guerras envolvem algumas das formas mais radicais de degradação dos solos, resultando em erosão, compactação, contaminação e destruição dos sistemas de manejo da terra. Por isso, outro objetivo do estudo é conferir à temática dos solos um novo status, apresentando-os como uma infraestrutura dinâmica e frágil que conecta agricultura, cidades, ecossistemas e até mesmo as tragédias da guerra.
Assim, a equipe espera conscientizar sobre a importância dos solos e a necessidade de protegê-los. “Qualquer discussão séria sobre reconstrução, segurança alimentar ou ação climática em áreas que estão em situação de pós-conflito precisa colocar a recuperação dos solos no centro das estratégias, e não tratá-la como uma questão técnica secundária”, diz Capra.
Imagem acima: Panorama da Batalha de f Waterloo, pintura de Louis Dumoulin, 1912. Crédito: Wikimedia.
