O professor Leonardo Fernandes Fraceto, da Unesp, é o primeiro brasileiro indicado ao ACS Fellows, programa da American Chemical Society (ACS). O programa reconhece pesquisadores por contribuições de destaque no desenvolvimento científico aliado à atuação na construção e no fortalecimento da comunidade internacional da ACS. Com isso, a indicação destaca duas frentes que marcaram a trajetória do pesquisador: 20 anos de pesquisas no campo da nanotecnologia aplicada à agricultura e uma década de participação em atividades de liderança e voluntariado na ACS.
Criado em 2009 pelo Conselho de Administração da American Chemical Society, o ACS Fellows surgiu como forma de caminhar rumo a um dos objetivos da sociedade, que é assegurar que a ACS seja “a comunidade científica global mais eficaz para envolver seus membros e outros profissionais da área científica no avanço da educação científica, da pesquisa, do conhecimento, da interação e da colaboração”. Passados 17 anos desde sua criação, em 2026 o programa chegou à marca de 1.501 homenageados.
Completando 150 anos em 2026, a ACS está entre as maiores sociedades científicas do mundo, reunindo mais de 260 mil membros distribuídos internacionalmente.
“Eu acho que ter um reconhecimento é sempre importante na carreira do pesquisador. São pares que estão te avaliando, pessoas que muitas vezes você não conhece, então isso é uma validação do trabalho que estamos fazendo no dia a dia”, diz Fraceto que é docente do Instituto de Ciência e Tecnologia, câmpus de Sorocaba.
Segundo a carta de indicação assinada por Michael B. McGinnis, Chair do ACS International Activities Committee, o trabalho do professor tem produzido impactos que ultrapassam o ambiente acadêmico. McGinnis destaca a colaboração de Fraceto com mais de dez startups de agrotecnologia e empresas multinacionais do setor agroquímico, em esforços para transformar resultados de pesquisa em aplicações práticas. Entre os resultados estão formulações de pesticidas baseadas em nanocarreadores, produtos respaldados por patentes e pesquisas voltadas ao desenvolvimento de herbicidas e biopesticidas mais eficientes e ambientalmente responsáveis.
“Por mais de duas décadas, sua pesquisa inovadora em nanopartículas moldou a indústria de herbicidas e biopesticidas ao melhorar a eficácia, reduzir o impacto ambiental e apoiar a segurança alimentar”, escreve McGinnis. Para ele, a trajetória de Fraceto traduz exatamente a proposta do ACS Fellows: associar excelência científica a um compromisso consistente com a comunidade da sociedade.
Um dos trabalhos destacados na indicação é a pesquisa com nanoencapsulação do glifosato utilizando polímeros naturais. A estratégia busca aumentar a eficiência do herbicida e reduzir seu impacto no ambiente. Já no campo de contribuições à sociedade, Fraceto conta com uma trajetória de aproximadamente dez anos de participação ativa em iniciativas da ACS, incluindo sua atuação no International Chapter for Brazil e no International Activities Committee (IAC), onde é membro atualmente.

Fraceto relata que, ao longo dessa década de engajamento, teve a oportunidade de se aproximar de uma cultura de voluntariado, ação que é muito incentivada dentro da ACS. Essa experiência reverteu tanto em contribuições para a comunidade quanto em aprendizado e desenvolvimento profissional, gerando impactos na forma como ele encara seu trabalho enquanto pesquisador e professor.
“Isso é uma das coisas que eu aprendi com a ACS, a importância do voluntariado. E é algo que me chama a atenção, porque quanto mais eu me voluntario na ACS, mais oportunidades aparecem”, diz. “Não é uma ação de mão única. Eu faço voluntariado, mas, com isso, tenho acesso a treinamentos, cursos e atividades dos quais tive a oportunidade de participar como membro da ACS. Aprendi muito com isso. Essa experiência também, com certeza, teve um grande impacto na minha vida pessoal e profissional, especialmente no âmbito da pesquisa”, diz.
Como membro do International Activities Committee, Fraceto participou de discussões de políticas globais e contribuiu para o desenvolvimento do Strategic Plan do comitê para 2023, defendendo ações voltadas à ampliação do acesso e ao desenvolvimento de lideranças de comunidades sub-representadas. Já no período em que presidiu o Brazil International Chemical Sciences Chapter, o pesquisador contribuiu para ampliar o alcance das iniciativas da ACS no país.
De acordo com a carta de recomendação, sua liderança transformou o capítulo em um espaço mais ativo para profissionais e estudantes, com ampliação de atividades de divulgação, parcerias e participação estudantil. Entre as iniciativas estão o International Mentorship Pilot Program, que aproximou pesquisadores do Brasil e da Costa Rica, e a organização do encontro ACADEMIND, reconhecido por sua atuação em temas como formação profissional e equidade de gênero.
Já na Unesp, Fraceto coordena o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Nanotecnologia para Agricultura Sustentável (INCT NanoAgro), onde são desenvolvidas soluções em nanoescala para tornar a produção agrícola mais sustentável, eficiente e limpa, com investimentos de órgãos como CNPq, Capes e Fapesp. Também atua como coordenador de inovação do CEPID Bioclima, onde são desenvolvidos estudos sobre os impactos das mudanças climáticas na biodiversidade tropical e a busca por soluções sustentáveis.
Atualmente, Fraceto considera que um dos principais desafios em sua carreira é fazer com que os resultados produzidos em laboratório cheguem de maneira mais eficiente à sociedade. Para isso, o pesquisador defende que a transferência de tecnologia por meio de parcerias com empresas e iniciativas de inovação é um dos caminhos para transformar resultados acadêmicos em soluções concretas.
“Essa é minha maior motivação, como fazer com que os problemas não fiquem no paper, não fiquem em uma dissertação. Que essa produção seja uma qualificação para pessoas que vão ser absorvidas no mercado, pessoas que vão ser qualificadas e abrir seu negócio, que uma empresa venha e transfira a tecnologia para gerar um produto”, diz.
Quando questionado sobre a indicação, Fraceto destaca que não estava esperando a honraria e que ela serve como forma de validação de todo o trabalho que vem sendo realizado ao longo das décadas. Para o pesquisador, porém, o reconhecimento não pode ser dissociado das pessoas que participaram da construção de sua trajetória.
“Eu estou muito feliz em receber esse reconhecimento, mas é importante destacar que estou à frente de um grupo de pessoas que trabalham comigo. O reconhecimento é nominal, mas atrás do Leonardo há infinitas pessoas que também colaboraram. Não construí nada disso sozinho. A construção é sempre coletiva”, reforça.
Crédito da imagem: Emerson José
