Em 10 de janeiro de 2026, o mundo do pop-rock completou a primeira década sem a presença de um de seus maiores nomes, o cantor e compositor inglês David Bowie. O eterno “Camaleão do rock” faleceu em 2016, aos 69 anos, na cidade de Nova York, após uma luta de 18 meses contra um câncer de fígado, deixando um legado que continua a redefinir a cultura pop e a influenciar novas gerações.
A despedida de Bowie é lembrada como uma de suas performances mais geniais e planejadas. Seu último álbum de estúdio, Blackstar, foi lançado em 8 de janeiro de 2016, coincidindo com seu 69º aniversário. Porém, apenas dois dias após o lançamento, a notícia de sua morte surpreendeu o público, transformando o disco em uma espécie de testamento artístico e presente de despedida.
David Bowie, nome artístico de David Robert Jones, nasceu em Londres, em 8 de janeiro de 1947. A partir dos anos 1960, construiu uma vitoriosa carreira na música, durante a qual gravou 27 álbuns que trouxeram uma fieira de clássicos do rock e do pop, incluindo Space Oddity, Heroes, Let’s Dance, China Girl e Ziggy Stardust. Entretanto, a criatividade do artista britânico ultrapassou o campo musical. Como ator, protagonizou ou participou de filmes relevantes, nos EUA e na Europa, e desenvolveu projetos expressivos nas áreas de moda, artes visuais, comunicação e tecnologia.
Geração Z está se identificando com obra do britânico
Diversas celebrações estão previstas para ocorrer este ano, incluindo exposições, reedições de álbuns e tributos musicais. Nas redes sociais, fãs e críticos compartilharam memórias sobre onde estavam quando receberam a notícia, reforçando o impacto cultural do músico. Já nas plataformas de streaming, seu nome vem crescendo exponencialmente, impulsionado pela descoberta de sua obra pela geração Z.
Os jovens têm se encantado com composições como Starman e Life on Mars?, e se fascinado pela fluidez de gênero e a liberdade de autoexpressão que Bowie reivindicava para si, décadas antes que tais pautas ganhassem a relevância que têm hoje.
Tanto sucesso e celebração mostram que sua saída da vida para a história foi apenas mais uma dentre as tantas transformações artísticas e pessoais que vivenciou, e que sua obra não é uma relíquia do passado, mas sim uma força contemporânea.
O professor, historiador e especialista em rock inglês José Adriano Fenerick, da Faculdade de Ciências Humanas e Sociais em Franca, é coordenador do Grupo de Estudos Culturais da Unesp. Ele explica que a obra de Bowie segue muito viva enquanto referência do que é, e do que pode ser, a cultura pop.
“A obra do Bowie segue viva, mas não no sentido óbvio de repetição, nostalgia ou mesmo na audição de seus discos e músicas. Penso que ela permanece viva porque Bowie não foi apenas um compositor de canções. Ele redefiniu o que significa ser um artista pop”, diz.
O inglês, diz o historiador, apresentou todo um modo de pensar a arte e antecipou questões que hoje são centrais na cultura contemporânea, tais como a fluidez da identidade, a encenação do eu e o diálogo entre a música, a imagem, a performance, o cinema, a moda e as artes visuais, projetando suas muitas ideias em um caleidoscópio de multimídia.
Porém, sua atuação em muitas mídias e plataformas ocorreu sem que sua produção artística caísse de qualidade, nem se rebaixasse ao mero entretenimento.
“Ele mantém, em larga medida, a autonomia dessas artes e cria aspectos muito específicos para cada uma. Além de músico, Bowie foi showman, ator de cinema, envolveu-se com questões de moda, performance de palco e teatro. Isso evitou que sua obra se tornasse um mero entretenimento. Embora ele também tenha atuado nesse aspecto, seu trabalho foi além”, diz.
Bowie aparece também como um precursor conceitual de um aspecto importantíssimo da cultura contemporânea, tão marcada pela criação de personas para as redes sociais: a manipulação da própria imagem. “Ao longo da carreira, ele criou muitas imagens e personagens. E, de certo modo, sua obra se caracteriza pelos personagens que criou. Tanto que ficou conhecido como Camaleão”, pondera.
Legado combina experimentação e comunicação com o público
Para o historiador da Unesp, o grande legado de Bowie reside em ter mostrado que a música popular pode ser um território de experimentação intelectual e artística, sem que isso prejudicasse sua comunicação com o público.
“Nesse aspecto, ele é um representante do que de melhor o rock dos anos 1960 produziu. Esse rock sempre apontou para o equilíbrio entre a arte e o entretenimento, entre a chamada alta cultura e a cultura pop, entre personagem e pessoa. O estilo combinou radicalidade artística, experimentações ousadas e a introdução de elementos de vanguarda, tudo isso sem perder a viabilidade econômica”, afirma.
“Bowie ensinou que o artista não precisa ser autêntico no sentido romântico, mas pode ser múltiplo, contraditório e teatral. Sua obra legitima a ideia de que mudar não é apenas permitido, mas necessário. Ele deixa como herança a noção de que a arte é um processo contínuo de reinvenção do olhar sobre si e sobre o mundo. Seu legado é o de uma arte que é crítica de si mesma, algo bastante radical”, avalia.
Roqueiro e andrógeno
Bowie foi inicialmente um pioneiro do glam rock, gênero que fundou ao lado do também músico e compositor inglês Marc Bolan. Sua produção musical, durante os anos 1970, consagrou-o como uma das maiores referências culturais da década. Seu estilo lançou novas modas e modos de se vestirintroduzindo figurinos que ainda hoje têm apelo popular. Suas personas andróginas, como Ziggy Stardust e Aladdin Sane, agregaram uma classe de fãs adolescentes, e também contribuíram para o surgimento de movimentos como a luta pelos direitos LGBT.
Sua obra inspirou artistas do quilate de Iggy Pop, Mark Ronson, Marilyn Manson, Boy George, Lady Gaga e muitos outros. O vocalista do U2, Bono Vox, declarou: “O que Elvis foi para os Estados Unidos, Bowie foi para Inglaterra e Irlanda: uma completa mudança de consciência”.
Grupo de Estudos Culturais conduz pesquisas sobre o cantor inglês
O Grupo de Estudos Culturais (GEC), ligado à Faculdade de Ciências Humanas e Sociais do câmpus de Franca, é um coletivo acadêmico dedicado à pesquisa, produção e difusão de conhecimento sobre cultura e saberes populares. Além de estudos, o grupo também realiza eventos, palestras, workshops, exposições, publicações e ações de extensão. Dentre os trabalhos conduzidos por seus integrantes, consta a pesquisa de mestrado intitulada “Um olhar absorto: David Bowie e a Contracultura”.
Elaborada por José César Fernandes Gomes, a dissertação apresentou análises distintas sobre a produção do artista na transição do final dos anos 1960 e início dos 1970. Gomes é membro do GEC e foi aluno de mestrado no Programa de Pós-Graduação em História da Unesp. Agora, conduz uma pesquisa de doutorado sobre o inglês.
“No mestrado, ele investigou a relação com a contracultura, em particular com o underground inglês, que é o caldo de cultura no qual David Bowie surgiu. Para o doutorado, expandiu a pesquisa para entender como o declínio da contracultura, ao longo dos anos 1970, se refletiu na obra de Bowie, que então perdeu aquela conexão”, relata Fenerick, que também é orientador do estudo.
O estudo se debruça sobre o período em que Bowie gravou três discos em sequência, no que ficou conhecido como Trilogia de Berlim. Este período incluiu uma conexão com o experimentalismo e colaboração com nomes da área, como Brian Eno e Robert Fripp. “O José está tentando entender, justamente, a transformação que Bowie experimentou no final dos anos 1970 e início dos anos 1980″, explica Fenerick.
Entre os artistas brasileiros a influência de Bowie também se fez sentir, pondera o professor de história, embora talvez de maneira menos evidente. “Acho que, se fizermos um pente fino, vamos achar muita coisa. Não sou especialista em música brasileira, então tenho uma visão mais superficial. Mas o que posso dizer é que, se há alguém que encarnou bem a perspectiva artística de Bowie, sem, no entanto, copiá-lo, talvez seja Ney Matogrosso. Claro, um artista como Caetano Veloso também apresenta elementos. Mas acho que o Ney é um exemplo muito mais vigoroso”, avalia.
E na música alternativa contemporânea produzida no Brasil é possível encontrar elementos “bowieanos”, argumenta.
“No sentido de que há artistas em atividade que não adotam um compromisso com gêneros puros ou que desenvolvem processos criativos mais abertos. É possível ouvir isso em algumas produções que não estão no mainstream da música brasileira atual. Então, os elementos da presença de Bowie aqui se dão tanto pelo lado sonoro mutante das músicas quanto pelo aspecto da performance, do corpo como linguagem, da ambiguidade identitária, da relação com a moda”, diz.
Na avaliação do historiador, parte do apelo da obra do britânico vem do fato de que ele não teve medo de ousar. “É raro encontrar um artista deste tipo, que não se colocou alguma forma de autocensura. Bowie teve a coragem de trilhar caminhos completamente diferentes ao longo da carreira, e produzir obras bastante distintas. Penso que sua obra vai perdurar enquanto existir a necessidade de coragem na arte, e de artistas sem medo”, afirma.
Confira abaixo a entrevista completa no Podcast MPB Unesp.
