Historiador da Unesp mapeia contatos e influências entre o movimento de independência dos EUA e a Inconfidência Mineira

No ano em que se celebra o 250º aniversário da Revolução Americana, pesquisa reconstrói os influxos entre os dois grupos, que incluíram uma visita a Thomas Jefferson em busca de apoio após uma eventual vitória sobre o Império Português. O movimento separatista do Brasil Colônia foi o primeiro das Américas a se inspirar na luta e nos valores dos norte-americanos e sonhou com uma república em Minas Gerais.

Dois séculos e meio atrás, em 4 de julho de 1776, um grupo de intelectuais e de lideranças políticas reunia-se na cidade de Filadélfia, na costa leste da América do Norte, para assinar aquele que se consolidaria como um dos documentos políticos mais importantes da história: a Declaração de Independência dos Estados Unidos. O texto descrevia os principais abusos praticados pela Grã-Bretanha sobre as 13 colônias que possuía naquela região, listava os princípios fundamentais do movimento separatista e explicava os motivos pelos quais os colonos buscavam a independência. A vitória ainda estava distante: na verdade, a guerra pela independência, que se tornaria conhecida como Revolução Americana, perduraria por mais meia década. Porém, a tradição política dos EUA escolheu a data de 4 de julho como referencial para comemorar o nascimento do país.

Ao longo de 2026, estão previstas dezenas de iniciativas nos EUA, incluindo desfiles, festas e até competições esportivas, para celebrar a data. Mas, para além dos festejos, a efeméride traz também uma oportunidade para que historiadores e pesquisadores possam analisar o impacto que as ideias e feitos dos norte-americanos exerceram sobre as outras sociedades coloniais do continente, que ficaram eletrizadas pelo surgimento da primeira nação independente, e também, da primeira república, das Américas.

A historiografia latino-americana há muito reconhece a poderosa inspiração que a chamada Revolução Americana exerceu sobre os processos de independência na América Espanhola durante o século 19. Entretanto, o livro A Independência dos Estados Unidos e a Conjuração Mineira, lançado em 2025 pelo docente da Faculdade de Ciências e Letras da Unesp em Assis, André Figueiredo Rodrigues, afirma que, ao contrário do que se acreditava, o primeiro movimento separatista a apresentar uma influência direta do movimento separatista dos EUA foi a Inconfidência Mineira, ocorrida no século 18.

Este é o quinto livro que o historiador dedica à Inconfidência Mineira, que vem sendo objeto de suas pesquisas desde o início dos anos 2000. A nova obra reúne uma série de evidências históricas, como cartas, documentos e estudos de outros historiadores, para mostrar que a influência dos independentistas do norte ultrapassou o plano conceitual ou ideológico, e envolveu até um contato direto entre os dois grupos com um pedido de apoio político e institucional para uma eventual vitória por parte dos inconfidentes.

 “Até recentemente, a maior parte dos historiadores pensava que os processos independentistas na América Espanhola tinham sido os primeiros a tomar os Estados Unidos por modelo. Mas isso ocorreu já nos anos 1800. Foi para os participantes da Inconfidência Mineira, ainda no século 18, que a Revolução Americana começou a aparecer, pela primeira vez, como exemplo a ser seguido por outros revolucionários nas Américas”, diz o historiador. “Essa é uma perspectiva totalmente inovadora, em termos da pesquisa histórica”, explica.

O contexto da Inconfidência Mineira

Durante o século 18, o Brasil, sob o domínio da Coroa Portuguesa, vivenciava o ciclo aurífero. Nesse período, milhares de pessoas se deslocaram do litoral açucareiro e de outras regiões do interior da Colônia para áreas que hoje correspondem aos estados de Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso, em busca de ouro e outros metais preciosos. A abundância desses recursos atraía tanto a população mais pobre, em busca de enriquecimento rápido, quanto a própria metrópole, que estava endividada com a Inglaterra.

Essa dívida teve origem no Tratado de Methuen, também conhecido como Tratado dos Panos e Vinhos. O acordo comercial reduziu a incidência de impostos sobre tecidos ingleses comercializados em Portugal e sobre vinhos portugueses vendidos na Inglaterra. A medida, porém, prejudicou a economia portuguesa, que passou a importar bem mais do que exportava. O resultado foi um grande déficit na balança comercial, que demandava a extração de ouro brasileiro em grandes quantidades para que o país luso pudesse manter seus pagamentos em dia.

Entre os impostos criados pela Coroa Portuguesa para ampliar a arrecadação e quitar sua dívida estava o Quinto. Este estipulava que 20% do ouro extraído na Colônia fosse entregue ao Estado português, por meio das casas de fundição. A cobrança ocasionava alto impacto econômico na sociedade colonial, especialmente nas regiões extrativistas, e por isso era amplamente rejeitada pela população local.

Porém, com a intensificação da exploração e o esgotamento gradual das jazidas, a produção de ouro começou a cair a partir da década de 1760. Ainda assim, Portugal manteve a cobrança do Quinto e instituiu a Derrama, um mecanismo extremo de arrecadação que era acionado quando a meta anual de 100 arrobas de ouro (cerca de 1.500 quilos) não era atingida. Nesses casos, o valor restante era cobrado à força da população.

A Derrama foi decretada apenas uma vez. Mas a ameaça de invasões domiciliares e do confisco de bens gerava medo constante e grande insatisfação entre os habitantes da região mineradora.

Além dos impostos, o custo de vida aumentou de forma significativa, ao mesmo tempo em que a produção aurífera diminuía. Essa combinação resultou em um quadro de endividamento da população junto aos comerciantes, agricultores e traficantes de pessoas escravizadas. A crise se agravou com o Alvará de 1785, que proibia a produção de manufaturas no Brasil. Isso obrigou os habitantes da Colônia a consumir apenas produtos importados, que eram mais caros.

Nesse contexto de insatisfação, setores mais abastados da sociedade colonial passaram a ter contato com as ideias do Iluminismo europeu, que defendia a liberdade, criticava o absolutismo e pregava limites ao poder monárquico. Esse contato ocorria principalmente quando os moradores da elite colonial viajavam à Europa para cursar o ensino superior, já que a América Portuguesa, ao contrário de sua contraparte espanhola, não possuía universidades. Ao regressar de viagem, esses brasileiros traziam informações sobre o que acontecia na Europa, além de livros, muitos deles proibidos pelo Império Português. Para driblar a censura, desmontavam os livros em partes que eram divididas entre os viajantes e recompostas novamente, ou simplesmente trocavam a capa do exemplar.

A Revolução Americana veio a somar-se ao ideário iluminista como inspiração para os inconfidentes. “As discussões sobre a Revolução Americana chegaram ao território mineiro por volta de 1781. Há relatos de que o cônego Luís Vieira da Silva, um dos mais importantes letrados da capitania de Minas Gerais, já comentava os acontecimentos da América Setentrional”, diz Rodrigues. Esses relatos foram reforçados com a chegada, em 1787, de dois exemplares da Coleção das Leis Constitutivas dos Estados Unidos da América. A obra reunia a Declaração de Independência e as leis instituídas após a separação. “O livro gestava a ideia de que era possível romper com os laços coloniais”, destaca o historiador.

Esse documento foi tido como uma inspiração de emancipação contra a metrópole e um método de como organizar e instaurar um governo republicano, nos moldes do que as treze colônias fizeram. “Os Estados Unidos servem de exemplo porque fazem uma declaração de independência que deixa claros todos os abusos da metrópole e os motivos que levaram ao rompimento do processo de exploração imposto pela Inglaterra”, explica o docente.

Mesmo escritos majoritariamente em inglês ou francês, os documentos foram traduzidos e difundidos entre os inconfidentes. Muitas pessoas sabiam citar trechos desses textos de cor, conheciam a cronologia e os argumentos, porque, antes de tudo, eles representavam uma crítica profunda ao sistema colonial. Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, teve papel central nesse processo de tradução e difusão das ideias revolucionárias. “Esse contato direto com a população foi o que fez Tiradentes se tornar um grande revolucionário”, comenta o pesquisador.

O contato entre os inconfidentes e os revolucionários americanos

Além de estudarem os documentos, os inconfidentes estabeleceram contato direto com membros do recém-criado governo dos Estados Unidos, com o objetivo de obter apoio institucional para a independência do Brasil.

O suporte internacional era essencial em um processo de emancipação. Por exemplo, durante o processo de ruptura com a Inglaterra, os Estados Unidos buscaram reconhecimento internacional, especialmente junto à França e à Espanha. Isso exigiu o envio de secretários e ministros às cortes europeias para negociar acordos financeiros e evitar eventuais represálias. As principais nações rivais dos ingleses viram nesse apoio uma oportunidade de minar o poderio inglês.

Inspirados por essa estratégia, os inconfidentes tentaram estabelecer diálogo com o governo estadunidense. O propósito era garantir que eles reconhecessem o Brasil como nação independente de Portugal quando chegasse o momento. Esperava-se que a proximidade ideológica entre os movimentos facilitasse o contato e o apoio.

Esse contato foi estabelecido por jovens estudantes do Rio de Janeiro e Minas Gerais. “Em 1781, sabemos que 12 brasileiros, radicados em Portugal ou na França, juraram em Coimbra dedicar-se ao processo de independência do Brasil e ao rompimento com Portugal”, diz o historiador.

Entre os jovens estava José Joaquim da Maia, um estudante de medicina da Universidade de Montpellier, na França. Em outubro de 1786, utilizando o codinome Vendek, Maia escreveu uma carta ao embaixador dos Estados Unidos na França, Thomas Jefferson, solicitando um encontro para discutir a revolta brasileira. Para driblar a censura portuguesa, que estava presente até mesmo na Europa, a correspondência foi entregue por um professor da universidade de Maia.

O contato foi estabelecido com sucesso e o encontro foi marcado para abril de 1787 em Nimes, uma antiga cidade romana no sul da França. A escolha foi orientada para evitar os espiões da Coroa Portuguesa, presentes em sua maior parte em Paris. Na ocasião, Maia apresentou a proposta da Inconfidência e pediu o apoio institucional dos Estados Unidos. Jefferson afirmou que precisaria consultar as autoridades do governo estadunidense antes de qualquer decisão.

Uma eventual independência da América Portuguesa seria muito benéfica para os Estados Unidos, que tinham muito interesse em comercializar com o país. A população da colônia produzia mais de 240 produtos, reconhecidos como muito valiosos na Europa. O mais importante deles era o óleo de baleia, extraído por meio da caça, que era utilizado para iluminação, lubrificação de maquinários e fabricação de argamassa. Porém, devido ao pacto colonial, toda a atividade comercial se limitava à metrópole.

Animado pelas perspectivas comerciais, Jefferson contatou John Jay, o primeiro chefe de Justiça dos Estados Unidos e responsável pela política externa. Este respondeu que o país precisava se consolidar como nação antes que pudesse auxiliar outros processos de independência. “Os Estados Unidos eram uma jovem república, com menos de dez anos de independência. Ainda necessitavam do apoio de outras nações europeias para evitar que os britânicos empreendessem ações contra eles. Vale lembrar que, naquela época, os britânicos detinham o maior poderio de guerra marítima”, ressalta o historiador.

Nesse mesmo período, os Estados Unidos e Portugal firmaram acordos comerciais, que fortaleceram a dependência de Portugal em relação ao trigo e ao arroz produzidos no estado da Virgínia. Esse contrato era mais favorável ao país americano, que mais exportava do que importava. Portanto, não havia interesse em romper acordos e se aliar com um país que era um grande comprador dos produtos estadunidenses.

“Ao longo do final do século 18 e início do 19, os Estados Unidos estavam mais interessados em consolidar o seu território e evitar a armada inglesa do que em acompanhar o que acontecia nas colônias americanas”, diz o historiador.

Uma república em Minas Gerais

Como contam os livros de história, os inconfidentes haviam combinado de deflagrar a rebelião no dia da Derrama. Mas a conjura foi delatada às autoridades portuguesas por três de seus participantes: o coronel Joaquim Silvério dos Reis, o tenente-coronel Basílio de Brito Malheiro do Lago e o mestre de campo Inácio Correia Pamplona. Os líderes do movimento foram presos e passaram três anos sob julgamento. A maioria foi perdoada ou exilada. A única exceção foi Tiradentes, condenado à morte e executado em 21 de abril de 1792, no Rio de Janeiro.

Em 1788, depois do contato entre o estudante José Joaquim da Maia e Thomas Jefferson na França, ocorreram as reuniões mais importantes entre os inconfidentes, que puderam estabelecer um programa, caso o movimento fosse bem-sucedido. Desse planejamento constavam a abolição do monopólio de comércio com a metrópole, a criação de indústrias e universidades, a adoção do serviço militar obrigatório e a opção pelo regime republicano. “Foi naquele momento que se formulou a ideia de estabelecer uma república em Minas Gerais, cujo modelo viria dos Estados Unidos”, comenta Fernandes.

Imagem acima: ACI/Unesp