Atropelamentos são uma das maiores ameaças à preservação da fauna nativa no Brasil. O Centro Brasileiro de Estudos em Ecologia de Estradas (CBEE) estima que morrem 450 milhões de animais por ano nas estradas do país, equivalente a 15 por segundo. Mais de 90% desses eventos envolve vertebrados de pequeno porte, como anfíbios, cobras e pássaros, mas a conta inclui 2,1 milhões de animais maiores. Dentre estes, a vítima mais comum é o cachorro-do-mato, seguido pelo tamanduá-mirim e pelo tatu.
As rodovias representam um perigo desproporcional no estado de São Paulo, que, com seus 31,2 mil km de vias asfaltadas, detém a maior malha rodoviária pavimentada do país. Segundo estudo de pesquisadores da USP publicado no periódico Heliyon, 39,6 mil mamíferos de médio e grande porte são atropelados por ano só nas rodovias paulistas; a análise se baseia em dados de 18 concessionárias privadas responsáveis por operar essas estradas.
No Centro de Medicina e Pesquisa em Animais Selvagens (Cempas), parte da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ) no câmpus de Botucatu (SP), esses números são parte do dia a dia. Em 2024, o Centro recebeu 103 animais vítimas de colisões com veículos, número maior em relação a 2023 (97) e 2022 (57). A tabela abaixo mostra o número de espécimes atropelados que deram entrada no Cempas ao longo do ano passado, separados por espécie. Do total de 103, 71 indivíduos acabaram morrendo.

Anualmente o Cempas recebe cerca de 2 mil animais por ano. Nem todos são encaminhados para lá devido a acidentes rodoviários; a triagem de aves traficadas apreendidas e sua destinação é outra importante frente de atividades. “A maioria é composta por aves. Em seguida vêm os mamíferos e, por último, os répteis”, conta a médica veterinária Paolla Nicole Franco, uma das responsáveis pelo atendimento de emergência. “Há muitos animais atacados por cachorros. Dependendo da época, recebemos vítimas de queimadas também. E chegam muitas aves que colidiram com vidros”, diz ela.
Além de Paolla, a equipe conta com mais um veterinário e quatro residentes, todos trabalhando sob o comando da professora e chefe de serviço Sheila Canevese Rahal. Esse pequeno time não tem recursos para resgatar os animais no local em que ocorrem os acidentes. Em geral, as vítimas chegam à Unesp de carona com bombeiros, policiais militares ambientais, guardas civis ou funcionários das concessionárias que operam as rodovias.
Como diminuir os atropelamentos
Paola diz que as concessionárias das rodovias vêm demonstrando um comprometimento crescente com a redução de atropelamentos. Ela cita como exemplos desse comprometimento a preocupação expressada pelos funcionários das empresas com a recuperação dos animais, e o apoio logístico que proporcionam para as solturas. “Algumas já buscam implementar diversas medidas preventivas, o que evidencia a preocupação com a segurança dos usuários e com a proteção da fauna”, diz ela.
Radares, lombadas eletrônicas, lombadas tradicionais, tachões refletivos (as famosas “tartarugas”) são algumas das medidas de redução de velocidade que, dependendo das características de cada trecho das estradas, ajudam a evitar atropelamentos. Uma solução mais cara e mais eficaz são as passagens subterrâneas ou viadutos em trechos críticos, revestidos de mata nativa para camuflar a disrupção no habitat.
O primeiro — e até agora, único — viaduto vegetado em uma rodovia federal brasileira foi inaugurado em 2020 na cidade fluminense de Silva Jardim, e serve para a fauna atravessar um trecho da BR-101, conectando a Reserva Biológica Poço das Antas à Área de Proteção Ambiental Mico-Leão-Dourado. Há mais três em funcionamento, que são obras privadas. Dois ficam no Pará e foram construídos pela mineradora Vale para transpor uma ferrovia que corta a Amazônia; um terceiro localiza-se na rodovia dos Tamoios, que liga o Litoral Norte de São Paulo ao Vale do Paraíba e é administrada por uma concessionária.
Para a professora Rahal, porém, intervenções na infraestrutura só funcionam se acompanhadas de um trabalho de conscientização, especialmente junto às crianças. “Educação ambiental é a base para criar pessoas que vão, no futuro, cobrar políticas públicas que beneficiem os animais. Não tem como a pessoa querer conservar algo que não conhece”, diz ela.
Esse esforço didático não é direcionado só aos pequenos: o Cempas fornece um treinamento especificamente para PMs, resgatistas e outros profissionais que trabalham nas margens das estradas e se interessam por ajudar espécimes feridos. “A gente ensina o que fazer ao encontrar um animal. Eu tenho que pegar ou tenho que esperar? Como eu faço para pegar uma ave ou uma serpente?”, conta o veterinário Gabriel de Camargo, que entrou na Unesp de Botucatu na graduação, fez carreira no Centro e hoje faz dupla com Paolla. “Esse curso teórico-prático acontece pelo menos duas vezes por ano”, conta ele.

Retorno à natureza depende de gravidade dos ferimentos e da idade do animal
Segundo Paolla, a taxa de sobrevivência de animais que são atendidos é de aproximadamente 25%. Apenas 10% conseguem retornar à natureza. É comum que, por causa da gravidade dos ferimentos, muitos bichos fiquem cegos, surdos ou amputados e não consigam mais forragear, caçar ou escapar de predadores por conta própria. A solução é enviá-los a zoológicos ou às instituições mantenedoras que se costuma denominar “santuários” (esse termo, porém, não tem status legal no Brasil, o que gera problemas de fiscalização).
Órfãos também são um problema. É comum que filhotes percam seus pais em acidentes e acabem passando etapas importantes de seu crescimento nas instalações do próprio Cempas ou de outros recintos especializados em vida selvagem. “Hoje, temos aqui quatro animais que chegaram no ano passado”, diz Paolla. “Esses são os mais delicados, porque acabam ficando acostumados com a nossa presença. Isso dificulta a reabilitação, poque exige cortar o vínculo”, conta.
A vida em cativeiro impede o filhote de adquirir habilidades importantes para sobreviver na natureza, e a convivência agradável com os veterinários e cuidadores pode levá-lo a decisões ruins no futuro. Por exemplo: uma onça adolescente que se acostumou a pedir comida para seres humanos, em vez de obtê-la por conta própria, pode acabar baleada ou atacada por cães de guarda ao se aproximar de uma propriedade rural em busca de alimento. Por isso, o mais seguro é que esses animais passem a viver em zoológicos e outras instituições adequadas.
Mediar encontros potencialmente perigosos entre humanos e animais selvagens é outra linha de atuação importante do Cempas. “Às vezes, somos chamados para resgatar uma onça num galinheiro, por exemplo”, conta Camargo. “Vamos com a polícia, anestesiamos o animal com uso de zarabatana e dardos. Então fazemos coleta sangue, vemos os dentes, as garras, se estão machucados, se têm ectoparasitas. Se o animal está bem é solto imediatamente, nem vai para o Cempas”, diz o veterinário.
Transfusão de sangue entre tamanduás
Historicamente, pets e animais de produção como vacas e galinhas recebem a maior parte do tempo e dinheiro dedicado à pesquisa em veterinária. “No caso de cachorros, por exemplo, conhecemos quais são as doenças mais comuns em cada raça e faixa etária, e há consensos de tratamento publicados anualmente”, explica Camargo. Não há uma literatura científica tão abrangente para o tipo de demanda do Cempas. “Mas, nos últimos dez ou vinte anos, muita coisa avançou na área de animais silvestres”, avalia ele.
Um bom exemplo desses avanços é o próprio Programa de Pós-graduação em Animais Selvagens da Unesp, que opera lado a lado com o Cempas em Botucatu e forma mestres e doutores concentrados em diferentes aspectos anatômicos e fisiológicos dos animais atendidos: há trabalhos sobre ortopedia, cirurgias em tecidos moles e até oftalmologia de diferentes espécies. Atualmente já é possível, por exemplo, fazer uma transfusão de sangue entre dois tamanduás. Muitos desses procedimentos nascem como adaptações de protocolos de tratamento pensados originalmente para bichos domésticos.
Os cadáveres dos animais que não sobrevivem aos acidentes tornam-se importantes objetos de estudo importante para expandir os conhecimentos dos veterinários sobre as diferentes formas da vida silvestre. Sheila Rahal cita o exemplo do joelho das onças: “Embora seja um gatão, a onça tem um joelho com algumas particularidades diferentes do gato doméstico”, diz. O estudo dos felinos mortos foi uma fonte importante de informação que capacitou os médicos a tratar corretamente outras onças com problemas ortopédicos. “Todo animal que passa por aqui fornece informações que nos ajudam a ter mais conhecimento nas áreas de pesquisa do programa. Acaba sendo um banco de dados”, diz a professora.
Os profissionais do Cempas se mantêm em contato constante com veterinários de outros hospitais Brasil afora que também atendem a fauna silvestre, de modo a trocar conhecimentos úteis sobre protocolos de tratamento, entender a melhor forma de alimentar de animais em cativeiro e até decidir o destino de animais que não poderão voltar à natureza — uma tarefa que conta com apoio da Semil.

Começo como anexo do hospital veterinário
A história do Cempas começa em 1993, com uma pequena sala dedicada a animais selvagens dentro do Hospital Veterinário da Unesp de Botucatu. Até então, a instituição só lidava com pets e animais de fazenda de grande porte, como vacas, ovelhas e porcos. A iniciativa coube a Carlos Roberto Teixeira, professor e cirurgião que dedicou a carreira aos cuidados com a fauna silvestre. Ele formou gerações de pupilos para lidar com espécies como tamanduás e gambás: orientou 20 mestrados, 6 doutorados e 22 veterinários residentes.
Em 2005, o Cempas saiu do prédio do hospital e ganhou sua primeira construção própria. Em 2007, Teixeira se dedicou à incorporação de edifícios que pertenciam originalmente ao Centro de Estudos de Venenos e Animais Peçonhentos (Cevap), e pôde expandir as operações nesses novos espaços — o que incluiu a instalação dos primeiros recintos para abrigar animais. Em 2015, veio o Programa de Pós-graduação em Animais Selvagens, que já formou mais de 70 mestres e doutores.
Novo Centro de Ciência para o Desenvolvimento
Mais recentemente, em junho de 2024, o Cempas passou a ser reconhecido pela Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística (Semil) como um Centro de Triagem e Reabilitação (Cetras) — uma licença que habilita o local a receber, identificar, avaliar, reabilitar e dar um destino adequado a espécimes da fauna silvestre e pets exóticos.
Na prática, essa é a formalização burocrática de um trabalho que já era realizado informalmente há duas décadas. “De imediato, não mudou muita coisa. A gente continua fazendo o que sempre fizemos, que é o recebimento, o tratamento e a reabilitação de animais silvestres”, explica Camargo. “Mas a regularização facilitou o fechamento de parcerias, a busca por patrocinadores, convênios etc. Esse reconhecimento ajudou a nos regularizar como instituição. Antes, éramos um setor do hospital veterinário”, diz o veterinário.
O reconhecimento das atuações como centro de triagem já trouxe frutos. Em 30 de setembro, houve o anúncio de que o Cempas passará a integrar o programa dos Centros de Ciência para o Desenvolvimento (CCDs), com direito a financiamento de R$ 1,8 milhão pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Além do Cempas, outros três projetos selecionados para o programa pertencem à Unesp.
O status de CCD vai assegurar o custeio de bolsas para o Programa de Pós-Graduação em Animais Selvagens, que é o primeiro do país focado na veterinária de fauna silvestre. Essas pesquisas, que podem se debruçar sobre temas tão específicos quanto a melhor maneira de imobilizar um determinado osso, se converterão futuramente em um atendimento mais eficaz para os animais. “Essas bolsas vão se reverter depois em um benefício para a parte clínica”, diz Sheila. “Precisamos primeiro conhecer para depois aplicar.”
Imagem acima: atendimento no Cempas. Crédito: Gabriel de Camargo
