Di Melo, o “Imorrível”, vive sua melhor fase

Cantor e compositor pernambucano ganhou destaque como um dos grandes nomes do soul brasileiro nos anos 1970. Pausa nas atividades e acidente de moto fizeram circular boato de que estaria morto. Mas DJs estrangeiros descobriram e se apaixonaram pelo seu primeiro álbum, e sua carreira também driblou a morte para voltar a florescer.

“Imorrível” é o adjetivo que a crítica e o público usam para celebrar o pernambucano Di Melo, uma das figuras capitais da black music e do soul no panorama musical brasileiro. O artista construiu uma trajetória marcada por um sucesso meteórico, seguido por décadas de um misterioso sumiço, capaz de alimentar boatos sobre sua morte. Mas Di Melo estava bem vivo e protagonizou um retorno triunfal que lhe valeu, inclusive internacionalmente, o status de ícone cult.

Nascido no Recife em 22 de abril de 1949, Di Melo também foi um dos que deixaram sua terra natal em busca de mais oportunidades, desembarcando em São Paulo no final da década de 1960. Na capital paulista, começou a cantar na noite e chamou atenção pela potência de sua voz e pela fusão ousada de ritmos em sua música.

Ele relata que, desde criança, era encantado pelas diversas artes. “Fiz um curso de ‘descarado’ para chegar até aqui. Desde muito cedo, me dediquei a essa história das várias artes: cantoria, entalhe, pintura e teatro. Mas me apeguei mais ao violão. Para mim, a arte é a base; não consigo viver sem ela. Aos 13 anos, fiz minha primeira música. Depois veio a segunda, a décima sexta… Íamos para a missa e, quando terminava, a gente se reunia para fazer música. Era um grande barato no núcleo”, relembra.

Ele conta que suas influências eram variadas, de Elvis Presley a Cauby Peixoto e Ângela Maria. Esse bojo sonoro foi formando o seu som, seu balanço e gerando uma sonoridade específica. “Fui para a noite paulistana tocar em lugares como Jogral, Lei Seca, Teleco-Teco, Balacobaco e Igrejinha. Era uma época em que quem subisse no palco tinha que superar quem havia descido; só tinha astros. Conheci Geraldo Vandré no Jogral, por exemplo. O povo gostava muito do que eu tocava, do que eu cantava. Eu fazia pot-pourris de samba.”

A grande chance veio quando a cantora Alaíde Costa o apresentou aos diretores da gravadora EMI-Odeon. Em janeiro de 1975, o cantor lançava o seu álbum de estreia homônimo, Di Melo. Gravado em apenas oito dias, o disco reuniu uma constelação de músicos de peso.

“A Alaíde Costa me apresentou a Moacir Menguini Machado, diretor artístico da EMI Odeon”, relembra. “Foi ele quem me contratou para fazer esse disco épico, que conta com Hermeto Pascoal, Heraldo do Monte, Cláudio Bertrami, Capitão, Bolão, Dirceu Batera, Rafael Romero, o corinho da Eloá, Luiz Melo, Ubirajara (pai do Taiguara) e Geraldo Vespa. Uma loucura. Dei muita sorte de estar com um som elaborado, e esse pessoal topou fazer a gravação. O disco é atualíssimo, feito há 50 anos. É como se tivesse sido feito ontem. Os jovens de todas as idades aderiram ao som.”

O LP trazia canções inesquecíveis, como A Vida em Seus Métodos Diz Calma e o grande sucesso Kilariô. O trabalho fundia, de forma genial, o soul e o funk norte-americanos com a psicodelia, o samba e o balanço brasileiro.

Kilariô eu compus no Japão. Significa ‘clareou’. Me aplicaram um comprimidinho cor de laranja embaixo da língua, e eu apaguei. Fui voltando. O sol saía do mar, enorme e vermelho. Eu gritei: ‘Kilariô!’ A partir daí, saiu a música que, por sinal, toca no mundo inteiro. Essa música está na série sobre Ayrton Senna, na Netflix, no quinto capítulo. Também está no documentário “Pelé e Garrincha” e em um filme de Lázaro Ramos com Paolla Oliveira. Além disso, o Emicida a gravou. Fico lisonjeado com todo esse reconhecimento, é uma honra”, diz.

O desaparecimento e o mito do “Imorrível”

Apesar de ter lançado seu primeiro LP com grande repercussão e de ter canções gravadas por nomes como Jair Rodrigues e Wando, a carreira de Di Melo sofreu um forte declínio comercial no final dos anos 1970. Desiludido com a indústria fonográfica, o músico retornou a Recife e se afastou completamente dos holofotes.

“Eu era muito jovem, não tive capacidade de segurar a onda e me afastei do cenário musical. Eu tinha pimenta no sangue. Dei uns quebra-quebra e pulei fora. Eu era para ser um dos caras mais bem-sucedidos da música brasileira. Saía de uma rádio, estava na outra. Enquanto todo mundo queria ir para as gravadoras, eu pedi a rescisão do contrato e saí fora. Se fosse hoje, eu iria atrás de um advogado para lutar pelos meus direitos. Agiria de maneira diferente”, analisa.

Na década de 1980, Di Melo sofreu um gravíssimo acidente de motocicleta. Ele sobreviveu, mas o isolamento prolongado alimentou um boato, inclusive no meio musical: o de que o cantor havia falecido. Ao retornar a São Paulo anos depois e descobrir que as pessoas lamentavam sua suposta morte, o músico passou a usar a expressão que virou sua marca registrada: “Eu sou imorrível”. Durante esse período de reclusão, ele nunca parou de criar, chegando a compor músicas em parceria com o gigante Geraldo Vandré.

“Eu andava muito de moto. Estava num bar em São Paulo e decidi ir para o sítio de um amigo. Durante o trajeto, eu vi dois caminhões tirando racha. Eu olhei e pensei: ‘Nesse meio, eu não vou ficar.’ Pulei da ponte com a moto e tudo. Entortei a moto e a minha coluna. Como tinha saído da cena artística, começou o boato de que o Di Melo tinha morrido. Morreu nada! Eu sou imorrível!”, relata.

No período de reclusão, morou por algum tempo em Ubatuba. Depois foi para o Rio de Janeiro e, por fim, voltou a São Paulo. Nunca parou de fazer música. “Não juntei dinheiro, mas vivi pra caramba. Acho super válido. Hoje, as pessoas querem o som. A gente não procura ninguém, as pessoas vêm. Organizamos o movimento. Está dando certo. Sou uma máquina sonora caminhante”, diz.

Resgate internacional e renascimento

Enquanto o cantor vivia no anonimato, sua obra ganhava vida própria do outro lado do mundo. Nos anos 1990, a prestigiosa gravadora de jazz Blue Note incluiu A Vida em Seus Métodos Diz Calma na coletânea Blue Brazil 2. DJs europeus e colecionadores de vinil começaram uma busca frenética pelo dono daquele groove irresistível. O vinil original de 1975 tornou-se uma raridade disputada, alcançando valores superiores a R$ 2.500 em sebos. “O disco tem 51 anos. Entretanto, parece que foi gravado ontem, devido à sua sonoridade moderna. Os gringos descobriram o som e zarparam com os discos. Hoje, é raridade para colecionadores”, diz.

O ápice do retorno aconteceu em 2011 com o lançamento do aclamado documentário “Di Melo – O Imorrível”, que rodou festivais de cinema e provou ao mundo que a lenda estava bem viva. Ao lado de sua companheira e produtora, Jô Abade, ele reorganizou a carreira e voltou a fazer turnês nacionais e internacionais.

“Coincidentemente, meu amigo de Pernambuco, Allan Oliveira, foi às secretarias e levantou recursos para fazer um documentário sobre mim. Ao mesmo tempo, Rubens Pássaro, que trabalha com o filho de Washington Olivetto, queria fazer um documentário sério. Coloquei os dois juntos, e daí surgiu o filme “Di Melo – O Imorrível”. Ganhou o Kikito no Festival de Cinema de Gramado e mais 13 prêmios. Aí pensei: ‘Por que não fazer o vinil?’ E foi feito o vinil Imorrível, que está aí. Tem música desse disco tocando nas pistas, como Barulho de Fafá. Depois, gravei o Atemporal, feito na França.”

Melhor fase da carreira

Vivendo uma de suas fases mais produtivas, Di Melo lançou o álbum Imorrível (2015), com participações de Larissa Luz e BNegão, e o disco Atemporal (2019), gravado em parceria com o grupo francês Cotonete. Recentemente, colaborou também com grandes nomes da nova geração, como o rapper Emicida e a cantora e compositora Liniker.

Aos 77 anos, este multiartista, que também se dedicou à pintura, à escultura e à poesia, comemorou os 50 anos de seu clássico disco de estreia lotando casas de show e provando que sua música previu o futuro. O mestre do groove brasileiro mostrou que o tempo não apaga o verdadeiro talento, apenas o torna imortal. E segue firme em atividade.

“Hoje, vendo a minha trajetória, posso dizer que sou por inteiro coração. Tudo o que vem vai me burilando. Meu som é único, alegre e festivo. Está no mar, no ar, nos corações. Estou na melhor fase da vida, festivo, e nunca fui tão feliz. Aos jovens eu digo: ‘Não parem nunca. Acreditem no que vocês fazem, aprimorem-se, não copiem ninguém, façam seus trabalhos de forma específica, honesta e sejam honestos com vocês mesmos’.”

Confira abaixo a entrevista completa do Podcast MPB Unesp.