Trocas culturais entre Brasil e China são tema do segundo dia do Fórum Unesp 50 anos

Mesas contaram com a participação do escritor Milton Hatoun e do chinês Mo Yan, prêmio Nobel de Literatura. Debates abordaram paralelos e confluências literárias entre os dois países e ideias para disseminar a cultura do Leste Asiático por meio da educação.

Ontem, quinta-feira, 14, o Fórum Unesp 50 Anos chegou ao seu segundo dia. Na parte da manhã, os debates envolveram o futuro energético mundial e a nova literatura chinesa. No período da tarde, a pauta literária foi retomada e a mesa contou com a presença ilustre do autor chinês Mo Yan, Prêmio Nobel de Literatura em 2012.

O Fórum continua até a sexta-feira (15) e pode ser acessado pelo público geral mediante inscrição. As palestras estão sendo sediadas no Auditório da Secretaria de Estado dos Direitos da Pessoa com Deficiência (SEDPcD), dentro do Memorial da América Latina.

Presença da China no mundo cultural brasileiro

A primeira mesa do período da tarde discutiu a presença da China no mundo cultural brasileiro. Participaram da discussão o sinólogo Giorgio Sinedino, a cineasta especializada no mercado chinês Milena Moura e o tradutor literário Amilton Reis, que atuou como mediador.

Moura iniciou a discussão olhando para o presente e futuro das relações entre Brasil e China. Ela analisou as mudanças dentro do cenário digital, antes amplamente dominado pelos aplicativos de empresas norte-americanas e que cada vez mais se abre para a presença de plataformas chinesas. A cineasta também destacou as mudanças no setor de streaming e de produção cultural, e apontou paralelos com as mudanças observadas nos padrões de consumo automobilístico.

“Cada vez surgem mais carros de marcas que nunca ouvimos falar e que vamos conhecendo aos poucos. Isso também muda o modo como a gente transita pela cidade, o modo como a gente se relaciona com o deslocamento, com a produção de energia e por aí vai”, comenta a especialista. “A China é o maior parceiro comercial do Brasil, hoje temos rotas comerciais e cadeias de valor transnacionais que conectam os nossos países desde os rincões mais profundos.”

Da esquerda para a direita, Milena Moura, Amilton Reis e Giorgio Sinedino. Créditos: Rafael Romero Lopes.

Sinedino, por sua vez, lançou um olhar retrospectivo e assinalou uma parceria longínqua e pouco notada. Sua fala remontou ao ano de 1808, quando o Rio de Janeiro se tornou a capital do Império Português. Quando da abertura dos portos do Brasil às nações amigas, naquele ano, o chá, comercializado entre Portugal e China, chegou ao Brasil, adentrando a cultura luso-brasileira antes mesmo de se popularizar na Inglaterra. No momento em que Dom João VI chegou a Rio de Janeiro supostamente já havia plantadores de chá chineses em atividade por aqui. Outro exemplo levantado por Sinedino é a questão da seda, tecido apreciado no país há séculos.

“O que é a China para o Brasil? A China para o Brasil é um espelho manchado. Manchado porque a presença da cultura chinesa no Brasil é imperfeita, ela é um referencial falho. Se nós somos exóticos dentro da cultura ocidental, a China é o nosso exótico. Então, é o exótico do exótico”, reflete o sinólogo.

E como fazer a China deixar de ser exótica e promover uma abertura à sua cultura? Segundo os palestrantes, o principal passo é a promoção do conhecimento sobre o país. Para Sinedino, “precisamos de mais cursos sobre a China no Brasil. Precisamos que as universidades invistam e que nós tenhamos mais cooperação direta com o país asiático”.

Moura traz uma visão esperançosa sobre os primeiros passos que estão sendo tomados para melhorar esse relacionamento no campo cultural: “A presença do Mo Yan e da delegação de jovens escritores chineses nesse fórum é reflexo de que o intercâmbio entre os nossos países está avançando cada vez mais. Ele pode não ter os passos rápidos e largos da economia, mas os intercâmbios culturais, eles vão avançando. Nesse sentido, a atuação da Unesp, do Instituto Confúcio e a criação do novo curso é reflexo desse avanço.” O novo curso referido é a graduação em Língua e Cultura Chinesas do Brasil, que será oferecida a partir do segundo semestre de 2026 na Faculdade de Ciências e Letras da Unesp, câmpus de Assis.

A literatura sem fronteiras: paralelos e confluências

A mesa final do dia debateu as literaturas brasileira e chinesa a partir das lentes dos escritores Mo Yan e Milton Hatoum, com mediação do jornalista e crítico literário Manuel da Costa Pinto. Mo Yan participou também de uma entrevista coletiva ao lado de Suonan Kairang e Yang Zhihan, jovens escritores chineses que palestraram no período da manhã.

Ainda durante a coletiva, Mo Yan reforçou a importância de olhar a China para além dos estereótipos. O escritor explica que a China é um país com 5 mil anos de história, e que não deve ser resumida às lanternas vermelhas, kung-fu e comidas chinesas. Refletindo sobre os seus livros, ele diz que “é muito difícil apresentar toda a cultura a partir de uma única obra. As obras literárias apenas conseguem transmitir uma fração da história da China, consequentemente, um único ponto de vista. Precisamos de mais traduções de livros literários e outros meios artísticos para trazer uma China de forma integral para o mundo.”

De costas, da esquerda para a direita, Manuel da Costa Pinto, Mo Yan e Milton Hatoum.

Em sua fala, o Nobel de Literatura abordou o tema das fronteiras, relatando um episódio pessoal que serviu de inspiração para um de seus contos mais recentes. O autor estava com um colega em uma cidade chinesa na fronteira com a Rússia e passou os dedos através de uma grade que dividia as nações. Questionou o amigo se o ato de passar a mão para o outro lado implicava infringir a lei, e se surpreendeu ao ouvir que sim.

Embora a China possua fronteiras físicas e imaginárias separando-a do resto do mundo, Mo Yan ressaltou que as fronteiras literárias são diferentes: “Conscientemente ou inconscientemente, uma pessoa, de vez em quando, vai ultrapassar as fronteiras. Como escritor, mesmo sabendo que a fronteira está ali, precisa-se ter a ousadia de atravessar para se aventurar e explorar mais esse imaginário da literatura”.

Mo Yan

Hatoum também tratou de mapas, e relatou que a leitura dos livros de Mo Yan lhe proporcionou uma sensação de redução das distâncias. “Apesar da distância enorme entre o Brasil e a China, não apenas geográfica, mas também cultural, linguística e econômica, vi que a literatura nos aproxima muito. Aproxima os leitores, aproxima os escritores e dá à nossa imaginação e aos nossos sentimentos algo que converge para uma coisa comum”, explica o escritor que tomou posse como imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL) em 2026.

Por fim, Mo Yan falou sobre a importância dos tradutores para a disseminação da cultura ao redor do globo, dialogando com a primeira mesa do período da tarde. “O trabalho de tradutor é também um trabalho de criação. Sem as pontes construídas pela tradução, não teríamos o conceito de literatura mundial”, explicou o Nobel, aduzindo que uma obra comporta também fatores como cultura, emoção, estilo e outros. Tudo isso torna o exercício da tradução ainda mais complexo. “Futuramente, por meio do avanço tecnológico, teremos ferramentas mais poderosas para auxiliar o trabalho dos colegas tradutores”, concluiu num tom de esperança.

Fórum Unesp 50 Anos

Nesta sexta-feira (15), ocorre o fechamento do Fórum Unesp 50 anos. Durante a manhã, serão mediadas duas mesas com a temática “O papel do Estado para um crescimento econômico sólido”. Durante a tarde, o tema político volta ao auditório com a mesa “Contornos da Crise geopolítica contemporânea: o caos é inevitável?”. Para encerrar, o líder indígena e filósofo Ailton Krenak se junta aos escritores Antônio Carlos Secchin, Ana Maria Machado e Manuel da Costa Pinto para discutir “Cultura, Arte e Guerras Culturais”. Confira a programação completa. 

Além do Fórum, o Memorial da América Latina também está sediando a 8ª Feira do Livro da Unesp, considerada um dos principais espaços de democratização do acesso ao livro no Brasil. Leitores vorazes poderão garantir diversos títulos com desconto mínimo de 50%. A feira teve início nesta quarta-feira (13) e segue até o domingo (17).

Veja abaixo a íntegra das mesas do dia.

Imagens: Rafael Romero Lopes

Séries Jornal da Unesp

Este artigo faz parte da série Fórum Unesp 50 anos do Jornal Unesp. Série registra as apresentações durante o Fórum Unesp 50 anos

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