Amilton Godoy, o lendário pianista do Zimbo Trio, uniu forças novamente com o virtuoso gaitista Gabriel Grossi no álbum Os Filhos de Villa, lançado em março deste ano. O novo trabalho é uma sequência do aclamado Villa-Lobos Popular, de 2012. Desta vez, porém, o foco desloca-se da obra do maestro Heitor Villa-Lobos para a vasta influência que ele exerceu sobre as gerações subsequentes da música brasileira.
A obra de Heitor Villa-Lobos (1887–1959) é celebrada, entre outros motivos, por combinar o registro musical popular com o erudito. Em Os Filhos de Villa, o duo explora os elementos da estética villalobiana em peças de gigantes da MPB e do instrumental. O repertório do álbum apresenta releituras de canções de autoria de autoproclamados herdeiros musicais do maestro. O resultado é uma ponte sonora e didática que atravessa estilos.
O repertório de nove faixas inclui clássicos como Chovendo na Roseira e Garota de Ipanema, de Tom Jobim, Loro, de Egberto Gismonti, Rapaz de Bem, de Johnny Alf, Choro pro Zé, de Guinga, Bachianinha nº 1, de Paulinho Nogueira, e Batida Diferente, de Maurício Einhorn e Durval Ferreira. O repertório é complementado por uma composição autoral de Godoy (Choro) e outra de Grossi (De Coração), como uma forma de evidenciar as características estéticas de Villa-Lobos que estão presentes no trabalho da dupla.
Amilton, pilar do histórico Zimbo Trio, é um dos mais conhecidos instrumentistas da música brasileira e renomado internacionalmente. Já gravou mais de 90 álbuns e excursionou por mais de 40 países. Vencedor do Grammy, também se destaca por seu trabalho no campo da docência e da pesquisa musical.
O músico e compositor carioca Gabriel Grossi, apesar da juventude, já contabiliza 17 álbuns em sua discografia, prêmios nacionais e internacionais (inclusive o Grammy) e uma carreira consolidada no circuito mundial da música instrumental. É considerado um dos melhores harmonicistas do mundo e reconhecido como o principal herdeiro musical de Maurício Einhorn, que foi um dos discípulos mais próximos do lendário Toots Thielemans.
O álbum contou com apoio da 8ª edição do Edital de Apoio à Música da cidade de São Paulo. O lançamento oficial ocorreu em 5 de março, data do nascimento de Villa-Lobos (e apenas três dias após o aniversário de 85 anos de Amilton Godoy) e envolveu um show na Sala Jardel Filho do Centro Cultural São Paulo (CCSP). O trabalho está disponível em plataformas digitais e também ganhará uma tiragem limitada no formato LP.
“Este álbum foi uma decorrência natural de Villa-Lobos Popular, o primeiro trabalho que fizemos há quinze anos”, relata Amilton. Ele conta que a ideia de uma formação combinando piano e gaita para tocar música brasileira soava inusitada à época. O apreço de Amilton pelo compositor carioca é antigo. “Há muitos anos, antes do Zimbo Trio, ganhei um concurso aqui em São Paulo como melhor intérprete de Villa-Lobos. Por isso, tinha um conhecimento bastante amplo da obra original dele”, diz o pianista.
Esse conhecimento permitiu à dupla apresentar o repertório de forma única. “O Gabriel teve ideias maravilhosas, coisas que ele criou. Por exemplo, para o Trenzinho do Caipira, que é uma parte de uma das Bachianas, ele preparou um arranjo e trouxe um recitativo de gaita maravilhoso na introdução. O disco ficou muito variado. Colocamos o repertório numa linguagem do jeito que a gente gosta de tocar”, diz Amilton.
Recentemente, a dupla foi contemplada por um edital para custear a gravação de uma continuação. Partiu de Gabriel a ideia de pesquisar a obra dos músicos influenciados pelas obras de Villa-Lobos e selecionar o material que achassem mais significativo. Assim nasceu Os Filhos de Villa. “E nos incluímos no álbum, porque também fomos influenciados pela obra dele”, acrescenta o renomado pianista.
Gabriel Grossi diz que o trabalho de seleção do repertório foi desafiador. “Foi bem difícil. Porque, se a gente pensar de forma mais ampla, olhando para todos os compositores da música popular brasileira, acho que os filhos de Villa são vários. Praticamente todos os bons compositores têm influência de Villa. Mas claro que há uns que têm muito mais do que outros”, pondera.
Tom Jobim, por exemplo, é um dos herdeiros mais explícitos. “Começando por Tom Jobim: a gente não conseguiu escolher uma [música] só. Tivemos que gravar duas”, reconhece o gaitista. “Talvez seja o nome mais direto em relação a essa herança musical. Nas composições de Jobim, os arranjos têm muitos elementos diretos da obra de Villa. Realmente é um legado direto”, diz.
Grossi comenta a experiência de tocar e gravar com um músico do nível de Amilton Godoy. “É uma alegria. Sempre que estou com o Amilton, aprendo muito. Acho que a gente tem uma coisa especial, que é gostar muito do processo de criação, não só focar no lugar onde a gente vai chegar. É claro que queremos chegar ao melhor lugar, mas a gente se diverte com o processo: sentar juntos, tocar, lapidar as músicas. E nesse aspecto venho aprendendo com o Amilton desde o primeiro disco”, diz ele. “Acho que isso resultou em um excelente resultado final.”
Amilton também diz que gravar o álbum com o Gabriel foi “uma honra”. “Ele é um cara que não fala muito de si, mas é respeitado mundialmente”, diz.
A dupla aguarda convites para mostrar o novo trabalho ao vivo. “Inclusive, ficamos à disposição da Unesp”, diz Amilton. Ele ressalta a universalidade da música instrumental. “Ela possui sua própria linguagem. Quando a música instrumental começa a ser tocada em algum lugar e se cria aquele clima, ela se torna uma linguagem universal. Não tem a limitação dos idiomas, pode se comunicar com todo mundo. O mais importante é que a nossa obra toque o coração das pessoas que ouvem as nossas músicas”, finaliza Godoy.
Escute abaixo a entrevista completa no Podcast MPB Unesp, com direito a algumas faixas do álbum Os Filhos de Villa.
Foto: Babi Lorencini
