Ativo desde 2013, o Programa de Pós-graduação em Desenvolvimento Territorial na América Latina e no Caribe está dando um passo importante para a sua consolidação, com a participação pioneira de sua primeira turma de doutorandos em um Programa de Doutorado-sanduíche no Exterior (PDSE).
Destinado a estudos e pesquisas no campo da geografia agrária, o Programa de Pós-graduação em Desenvolvimento Territorial na América Latina e no Caribe, parceria com a Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF), é vinculado à Reitoria da UNESP e conta com o apoio da Cátedra da UNESCO de Educação no Campo e Desenvolvimento Territorial. Um de seus diferenciais está no público ao qual se destina: principalmente pesquisadores de países latino-americanos e estudantes ligados a movimentos sociais do campo. Entre seus coordenadores, docentes e discentes, o programa é conhecido como TerritoriAL.
Os cursos oferecidos pelo programa possuem caráter interdisciplinar e são desenvolvidos seguindo a chamada pedagogia da alternância, combinando atividades presenciais em sua sede, no Instituto de Políticas Públicas e Relações Internacionais (IPPRI), em São Paulo, e nos territórios de origem dos estudantes.
Hoje, o TerritoriAL conta com 28 professores de dez universidades de diversos estados do Brasil e de uma instituição do México. “É um grupo grande de docentes, com diferentes projetos”, explica a coordenadora do programa, Silvia Fernandes. “Mas todos se integram a partir dessa preocupação em trabalhar e estudar os movimentos socioterritoriais e socioespaciais.”
Surgido inicialmente apenas como um programa de mestrado, o TerritoriAL deu um novo passo em 2024, quando começou a receber também estudantes de doutorado. Agora, três desses alunos estão trazendo para o programa a experiência do Doutorado-sanduíche. Um deles é o chileno Osvaldo Miguel Sepúlveda, graduado em História e Ciências Sociais pela Universidade ARCIS, em Santiago. Sepúlveda atuou como professor na educação básica na Província de Llanquihue, Região de Los Lagos, local com forte presença da cultura Mapuche.
Educação de indígenas
Os Mapuche são um povo indígena numeroso que ocupa a região centro-sul do Chile e parte da Argentina. Sepúlveda trabalhou em uma escola intercultural, e a experiência despertou o interesse por pesquisar a educação neste contexto. Uma amiga que havia cursado o TerritoriAL chamou sua atenção para o programa e ajudou-o a navegar pelo processo seletivo. Ele ingressou no mestrado em 2019. Naquela etapa, investigou o ensino de história e geografia nos territórios de Wallmapu a partir de uma visão decolonial. A orientadora foi a própria Silvia Fernandes, que também é docente no curso de Ciências Sociais na Faculdade de Filosofia e Ciências, no campus de Marília.
Enquanto escrevia sua dissertação, Sepúlveda começou a se interessar pela educação indígena no Brasil e visitou comunidades no Rio de Janeiro e na Paraíba. Os paralelos entre os povos indígenas chilenos e brasileiros viriam a se tornar tema de sua nova pesquisa, na primeira turma de doutorado do programa, também sob orientação de Fernandes.
Em janeiro deste ano, Sepúlveda desembarcou na Universidade de Valência, na Espanha, e deve permanecer na instituição até maio próximo. Durante o período, o pesquisador deve se dedicar à escrita de capítulos de livros e de artigos, aprofundar o desenvolvimento de sua tese e participar de outras atividades envolvendo intercâmbio cultural e educacional. Em Valência, contará com o apoio do geógrafo e pesquisador espanhol Diego García Monteagudo.
Sepúlveda integra o grupo acadêmico Gea-Clío, uma organização europeia com mais de 30 anos de experiência na educação geográfica. Na universidade espanhola, o professor tem a oportunidade de ministrar aulas sobre o povo Mapuche, mostrando, por exemplo, a rogativa Llellipun – cerimônia que objetiva cultivar o respeito e as relações com a natureza.

Ritual como experiência pedagógica
O chileno apresentou a cerimônia em sala de aula, de forma adaptada ao contexto de formação de professores em Valência. “Foi a primeira vez que essas pessoas escutaram alguém do povo Mapuche e participaram de uma aula em que não precisavam ficar sentados o tempo todo. Eles tiveram que fazer um ritual: dar uma volta ao redor de um totem e depois ficar em silêncio para refletir internamente. Pude ver suas expressões de tranquilidade e contentamento”, conta o pesquisador.
Durante os meses de março e abril, Sepúlveda deve ir a escolas públicas de Valência para repassar os conhecimentos indígenas aos alunos. “Uma coisa comum à educação indígena no Chile e no Brasil é que o conhecimento vem da natureza, da terra e transcende especulações imobiliárias e econômicas. Essa perspectiva nos mostra a importância da natureza e de conhecê-la melhor, assuntos essenciais para este momento em que observamos uma escassez de recursos naturais”, analisa.
Após o PDSE, o professor terá ainda 30 dias para viajar pela Europa. Ele pretende aproveitar para visitar comunidades nativas na Noruega e na Suécia. “Observei que a pedagogia indígena da América do Sul apresenta uma característica particular, a ligação com a natureza. Agora, quero investigar isso em um contexto global”, comenta.
Neste breve período na Espanha, Sepúlveda pôde observar que a educação rural do país também fortalece o conceito da relação com a natureza. Em sua avaliação, essa constatação pode ser um primeiro indício de que tal relação não se limite à América Latina e seus povos, sendo encontrada em outras regiões do planeta.
Além de Sepúlveda, há outro doutorando do TerritoriAL fazendo doutorado-sanduíche na Espanha, e um estudante sediado em Cuba. Um quarto está em vias de ir para o México.
Origem em um curso de graduação
Fernandes explica que o perfil do TerritoriAL atrai, sobretudo, profissionais que visam voltar para a academia. “Em 2024, tivemos uma média etária dos discentes entre 35 e 39 anos, com cinco estudantes acima dos 60 anos, seis entre 55 e 59 anos e dez com idades entre 50 e 54 anos”, diz. Além de se dedicarem à pesquisa, os pós-graduandos também atuam como militantes de grupos sociais, trazendo assim a experiência individual para o meio acadêmico.
As raízes do TerritoriAL remontam ao Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (PRONERA). Em 2007, o PRONERA apoiou a criação de um curso especial de graduação em Geografia na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Unesp, em Presidente Prudente, destinado a atender trabalhadores rurais residentes em assentamentos. Os primeiros 46 assentados receberam seus diplomas em 2011 e retornaram às suas comunidades e movimentos socioterritoriais com novos aprendizados. Em 2009, a Unesp e a UNESCO assinaram um acordo de cooperação que resultou na criação da Cátedra UNESCO de Educação no Campo e Desenvolvimento Territorial. Essa Cátedra, que está sediada no IPPRI, é atualmente apoiadora do Programa de Pós-Graduação.
A criação do TerritoriAL foi aprovada pela Fundação Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) e pelo Conselho Universitário da UNESP em 2013, embora alguns estudantes vinculados às comunidades camponesas brasileiras tenham realizado pesquisas na área ainda em 2011. O PRONERA apoiou o programa entre 2013 e 2016, reforçando o objetivo de formar pessoas oriundas dos territórios camponeses, quilombolas, indígenas e de outras populações tradicionais. Depois de 2016, o financiamento cessou.
Felizmente, o aporte voltou em 2026, possibilitando o lançamento de um edital de mestrado que teve como público-alvo assentados da reforma agrária, acampados, quilombolas, educadores do campo e demais beneficiários do PRONERA (Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária), tendo um convênio com o INCRA, superintendência de São Paulo, pra realização da turma especial. Foram abertas também, para este ano, as inscrições para a terceira turma de doutorado do programa.
Imagem acima: Osvaldo Sepúlveda apresenta cerimônia mapuche adequada para o contexto de formação de professores na Universidade de Valência, na Espanha. Créditos: Diego Garcia Monteagudo/Arquivo Pessoal
