Em 1750, encarregado de traduzir a Cyclopaedia de Ephraim Chambers, o filósofo Denis Diderot defendeu um projeto muito mais ambicioso do que uma simples tradução: o francês propôs-se a “traçar um quadro geral dos esforços da mente humana, em todos os gêneros, em todos os tempos”. Dessa ideia nasceria a Enciclopédia, obra que se tornaria um dos grandes marcos do Iluminismo. Ao longo da segunda metade do século 18, a publicação foi ganhando forma, reunindo contribuições de alguns dos principais nomes das artes, das ciências e das humanidades, todos unidos pela crença na universalização do conhecimento.
Mais de duzentos anos depois, a um oceano de distância, a recém-criada Editora Unesp encontraria inspiração nesse projeto intelectual para anunciar ao Brasil que tipo de editora estava nascendo e como ela se alinhava com a visão de uma universidade sob uma reitoria que defendia o estímulo a novas colaborações, em um momento de reabertura democrática do país. Assim, em 1988, decorrido apenas um ano desde a sua fundação, a Editora Unesp decidiu traduzir e publicar a Enciclopédia de Denis Diderot e Jean le Rond d’Alembert. Essa empreitada resultaria, em 1990, na primeira conquista de um prêmio Jabuti pela editora.
Lançamento para celebrar a Revolução Francesa
A ideia da tradução para o português foi sugerida por José Castilho Marques Neto, que então ocupava o cargo de coordenador da Editora Unesp, e prontamente foi abraçada pelos seus colegas. Ali estava a oportunidade de celebrar os 200 anos da Revolução Francesa e, ao mesmo tempo, consolidar os pilares da instituição com a elaboração de um grande projeto gráfico. Apesar da enorme influência intelectual do enciclopedismo no mundo moderno, a obra nunca havia sido publicada em português no Brasil, o que aumentava o potencial da empreitada.
“Essa era uma editora universitária nova. Com a Enciclopédia, tínhamos a pretensão de apresentar, por meio de uma grande edição, qual era o projeto da Editora da Unesp e o projeto da própria universidade”, lembra Marques Neto, que, mais tarde, dirigiu a Editora Unesp por 27 anos. “Queríamos uma editora que conversasse com a sociedade, não apenas com seus pares acadêmicos.”
A intenção era produzir uma obra exemplar, com alta qualidade gráfica e rigor acadêmico, que funcionasse como referência para a academia e também para a sociedade. Castilho lembra que, à época, editoras universitárias não adotavam projetos gráficos elaborados. O lançamento marcou, assim, um diferencial por parte da Editora Unesp. O livro contava com uma sobrecapa azul, que protegia uma capa em tecido. Em seu interior, as folhas receberam um tratamento especial para fugir do branco e apresentar uma coloração mais suave, facilitando a leitura.


Crédito: José Castilho Marques Neto
Os designers Isabel Carballo e Edmundo França, que assinaram o projeto gráfico, ficaram responsáveis por retirar as ilustrações da obra original, de 1751, e submetê-las a tratamento, para serem incorporadas à versão brasileira. Somado a isso, cuidados técnicos como o tamanho do espaçamento entre linhas, o tipo de fonte e o tamanho das letras garantiram ao projeto um visual único. “Essa era uma edição primorosa. Hoje, estamos acostumados a projetos gráficos elaborados. Na época, porém, foi um grande diferencial entre as editoras universitárias”, lembra Castilho.
Exemplares prontos apenas na última hora
Mesmo com tanta dedicação, o desenrolar do projeto nada teve de tranquilo. A editora contava com uma equipe reduzida, e havia poucas pessoas que, de fato, dominavam o processo editorial. Para tornar real uma edição daquela envergadura, com alto nível de exigência gráfica, Castilho e o produtor gráfico passaram a se deslocar pessoalmente à gráfica para acompanhar a produção. “A partir do momento em que o material foi para a gráfica, praticamente comecei a morar lá”, recorda o ex-diretor da Editora. Entre atrasos técnicos e dificuldades operacionais, os prazos foram se acumulando.
O problema é que a data de lançamento, marcada para dezembro de 1989, já estava definida, com direito a uma grande cerimônia. A Editora havia preparado um evento na sala semi-oval da Biblioteca Mário de Andrade, um marco da cidade de São Paulo, com a participação do Conjunto de Instrumentos Antigos do Instituto de Artes, que executou apresentações musicais típicas do século 18. Dentre os 150 convidados para o evento estavam nomes como o reitor Paulo Milton Barbosa Landim e o ex-reitor Jorge Nagle, que ocupava então a posição de diretor da Fundação para o Desenvolvimento da UNESP. Porém, na manhã da cerimônia, os livros ainda não estavam prontos.
Castilho passou o dia na gráfica ajudando a finalizar a produção e organizar os pacotes, enquanto o então diretor Marco Aurélio Nogueira aguardava apreensivo o início da cerimônia. Apenas no começo da noite foi possível reunir cerca de cem exemplares, que seguiram em uma Kombi rumo à biblioteca.
“Cheguei do lado de fora, de camiseta branca suja de tinta e completamente suado”, recorda Castilho. Ao espiar pela janela, viu o auditório lotado, com Marco Aurélio Nogueira visivelmente nervoso ao lado de Jorge Nagle. Decidiu não entrar naquele estado. Pediu então ao produtor gráfico que levasse alguns exemplares para serem entregues às autoridades e à equipe de divulgação, enquanto voltava para casa para se arrumar. Quando finalmente retornou, a cerimônia já estava em andamento. “Perdi metade da festa, mas ainda consegui aproveitar algumas sonatas”, conta.

Crédito: Leonardo Carneiro
Um manifesto em forma de lançamento
Além do esmero com o aspecto gráfico, outro ponto de destaque do projeto estava na equipe de colaboradores especializados. Assim como no caso da Enciclopédia original, a edição brasileira apostou em reunir uma equipe de consultores oriundos de diferentes instituições. No caso, aos especialistas em filosofia francesa do século 18 da Unesp juntaram-se também estudiosos da USP e da Unicamp.
“A Enciclopédia conseguiu mobilizar esse projeto editorial abrangente e, ao mesmo tempo, inaugurou um diálogo aberto entre intelectuais e autores de dentro e de fora da Unesp. Recusamos a endogenia como prática, algo que era usual e tradicional nas editoras universitárias brasileiras”, diz Castilho. “De maneira geral, foi quase um manifesto da editora para dizer a que viemos.”
Esse posicionamento se alinhava com dois momentos políticos importantes que a universidade vivia à época. O primeiro era a reabertura do Brasil para novas cooperações científicas, após o período da ditadura militar. Naquele momento, as universidades brasileiras passaram a buscar novas correspondências científicas para encabeçar grandes projetos dentro e fora do país. Ao mesmo tempo, as agências nacionais de fomento à pesquisa começaram a valorizar as instituições que mantivessem colaborações com profissionais do mundo inteiro. E, na Unesp, a gestão do reitor Jorge Nagle tinha como objetivo construir uma universidade atuante e capaz de fazer contribuições socialmente relevantes nos campos científico, cultural e educacional. “Com todo esse contexto, não podíamos ter uma editora que ficasse fechada, restrita aos próprios professores”, afirma Castilho.

Crédito: Hélcio Toth
Prêmio vai para a… USP?
Em meio a tantas expectativas, o anúncio de que a edição da Enciclopédia fora indicada ao Prêmio Jabuti de 1990, na categoria de melhor produção editorial de livro de texto, foi recebida com grande alegria. A cerimônia de premiação, realizada no Teatro Sérgio Cardoso, em São Paulo, no dia 23 de outubro, também não foi isenta de surpresas. Castilho relembra o momento em que estava sentado ao lado de Marco Aurélio Nogueira, então diretor da Editora, aguardando o anúncio do vencedor.
“Éramos entre 10 e 15 finalistas, sentados no auditório, quando o locutor anunciou: ‘o Prêmio Editorial Jabuti vai para a… Enciclopédia, da editora da USP’”, conta Castilho, em meio a risadas.
A confusão suscitada pelo erro no anúncio paralisou Marco Aurélio, o diretor, que se viu dividido entre permanecer sentado ou levantar-se e caminhar até o palco. “Falei para ele subir lá e desmentir o anúncio. E foi o que aconteceu: Marco Aurélio recebeu o prêmio e, em sua fala, anunciou: ‘a Enciclopédia é da Editora Unesp. É a jovem Editora Unesp, da Universidade Estadual Paulista’”.
Para Castilho, a confusão refletiu a pouca projeção de que a universidade e, por consequência, a editora ainda desfrutavam naquela época. Porém, reconhece com satisfação que essa pouca projeção nunca foi um empecilho para que a instituição assumisse projetos ousados e de longo prazo.
Como era de se esperar, a premiação serviu para projetar o trabalho da Editora, ampliando seu alcance e validando o caminho que vinha sendo construído. Para Castilho, a Enciclopédia estabeleceu um marco do qual nem a Unesp, nem as outras editoras universitárias puderam se afastar posteriormente. A publicação forçou a indústria das editoras universitárias no Brasil a dar um passo à frente, que foi reconhecido e celebrado com a premiação do Jabuti. “E esse passo foi irreversível”, avalia. “Para usarmos uma linguagem esportiva, podemos dizer que elevamos o sarrafo.”
