No início dos anos 1970, aos poucos, o Brasil e o mundo despertavam para a temática ambiental. Em 1972, ocorreu na Suécia a Conferência da Organização das Nações Unidas sobre o Homem e o Meio Ambiente. Em 1970, os Estados Unidos criaram sua Agência de Proteção Ambiental e, em 1973, surgiu no Brasil a Secretaria Especial do Meio Ambiente. Antenado ao novo debate que surgia, o biólogo Antônio Buschinelli, então diretor na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Rio Claro, passou a defender a criação de um curso de graduação em Ecologia, algo inédito no país até então.
A Secretaria Estadual de Educação autorizou a criação do curso em 1975. E, no ano seguinte, a partir de janeiro, a Faculdade foi incorporada à Unesp, que então se formava. O curso foi assumido pelo recém-formado Instituto de Biociências (IB) da Unesp de Rio Claro, e as aulas se iniciaram em março de 1976.
As primeiras disciplinas eram ministradas por professores de outras áreas que não a ecologia. Porém, não havia no novo câmpus docentes com formação necessária para ensinar as matérias mais específicas. O professor Alcides Serzedello era diretor do (IB), e escolheu uma antiga orientanda de doutorado, a professora Sâmia Maria Tauk Tornisielo, para conduzir a estruturação do novo curso e contratar os primeiros docentes para as disciplinas específicas.
Sâmia era docente na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Presidente Prudente, que também fora incorporada à Unesp. “Esse processo [de formação da Unesp] não foi nada calmo. Houve extinção de cursos e, como consequência, foi preciso transferir docentes”, recorda.
Exército de uma mulher só
Sâmia era natural de Rio Claro, mas não pensava em retornar à cidade. “Eu já era efetiva no Estado, no ensino médio, e meu cargo foi transferido para a Universidade. Eles me queriam pelo cargo que eu tinha, o de professora doutora, que era raro. Então, em setembro de 1977, recebi a notícia de que estavam me transferindo para Rio Claro”, conta Sâmia.
Inicialmente a docente foi instalada em uma pequena sala no Horto Florestal. Trabalhava em meio à floresta. Só em 1978 mudou-se para o primeiro prédio erguido no câmpus. De lá, tomou decisões importantes que abarcavam desde a infraestrutura do departamento até a composição das dezoito disciplinas específicas que integraram a primeira grade curricular. Fez as opções sozinha, como um exército de uma mulher só, porque simplesmente não havia colegas no departamento com quem conversar. “Até a potência em watts das tomadas a serem instaladas para colocar equipamentos tive que decidir sozinha”, diz a professora.

Ela relata que nos Estados Unidos já existiam universidades que ofereciam uma formação semelhante. “Mas lá a estrutura era diferente, melhor. Tive que fazer grandes esforços, lutar muito, enfrentar muitas divergências. Mas o departamento se desenvolveu”, relembra.
Sâmia foi a primeira chefe do Departamento de Ecologia e se manteve na gestão até 1983, período em que novos professores foram contratados para o curso. Maria Inez Pagani fez parte dessas primeiras contratações.
Um curso voltado à prática da conservação ambiental
Recém-formada em Ciências Biológicas, Maria Inez Pagani ainda cursava o mestrado na Universidade Federal de São Carlos quando soube do concurso no Departamento de Ecologia. “O que me estimulou a vir para Rio Claro foi que eu acreditava na época, e ainda tenho a convicção, de que esse é um curso que pode dar muitas respostas práticas no que diz respeito à conservação e à preservação ambiental. E eu queria ter essa atuação voltada à prática”, recorda.
A docente chegou ao câmpus no início de 1979. Vivia-se uma grande greve das universidades estaduais paulistas, fomentada pelo contexto de abertura política e paralisações em setores produtivos. Maria Inez foi para a sala de aula mesmo sem assinar contrato, o que só ocorreria ao fim do primeiro semestre daquele ano.
A chegada turbulenta era um anúncio dos muitos desafios que ainda estavam por vir. O Departamento e o curso haviam sido criados, mas ainda era preciso consolidá-los junto à comunidade univesitária, onde havia resistências.
“Havia no câmpus de Rio Claro muitas pessoas que não acreditavam no curso. Achavam que deveria haver apenas uma especialização em Ciências Biológicas, ou até mesmo que o curso não deveria existir. Não é simples consolidar um departamento nessas condições, foi realmente um desafio”, afirma Maria Inez.

Por sorte do curso, Maria Inez, assim como Sâmia, não se curvou às adversidades. A docente chegou a ministrar sete disciplinas diferentes no início da carreira. O alívio vinha da boa relação com os estudantes. “Um fato curioso é que eu era mais nova do que muitos deles. Tínhamos uma comunicação diferente entre professor e aluno. A gente sentia alegria em conversar, bater papo, e trocar experiências”, conta.
Trabalho de campo para os estudantes é um diferencial
Desde o início, o curso de Ecologia foi concebido para ser interdisciplinar, integrando as diferentes áreas de conhecimento do câmpus. Essa característica, apesar de exigir diálogo entre os departamentos e docentes e um esforço da gestão para mediar divergências, tornou-se o seu diferencial. Em 1992, uma reestruturação curricular foi responsável por estabelecer outra diretriz importante na formação dos ecólogos: as aulas e trabalhos em campo. A vivência fora da sala de aula passou a ser entendida como a chave para um aprendizado efetivo.
E Maria Inez levou à risca essa recomendação. Na disciplina de Manejo de Áreas Silvestres, promoveu diversas excursões para áreas de conservação ambiental com as turmas do último ano do curso. Passava até sete dias fora, para oferecer a vivência que os alunos tanto ansiavam. A professora lembra que os estudantes de Ecologia sempre tiveram um perfil diferente dos demais estudantes do câmpus. “Eles eram mais engajados. Não hesitavam em trancar um semestre ou um ano para ir para a Amazônia, fazer estágio e ter experiências novas. Como eram bons alunos, o curso começou a ficar conhecido.”

A luta pela regulamentação da profissão de ecólogo
Como primeira coordenadora do curso a partir de 1989, após o cargo ser instituído na universidade, a docente iniciou outra batalha: a regulamentação da profissão de ecólogo. Maria Inez lembra que a promulgação da Constituição em 1988, com um capítulo destinado ao meio ambiente, foi decisiva para o início das discussões. Mas elas se arrastaram nas décadas seguintes.
Somente em 2025, quatro anos após a aposentadoria da docente, uma resolução do Conselho Federal de Biologia oficializou a regulamentação da categoria de ecólogo junto ao seu sistema. Antes disso, quatro projetos de lei para regulamentar a profissão foram apresentados, mas não foram adiante. Apesar dessa conquista, o reconhecimento profissional previsto em lei ainda é um objetivo almejado. Mas o que já se alcançou, diz Maria Inez, veio como “merecimento por tudo o que foi construído nesses 50 anos.”
E não foi pouco. De sua criação até 2025, o curso de Ecologia da Unesp em Rio Claro formou 866 profissionais. Eles estão inseridos em instituições governamentais relacionadas ao meio ambiente, organizações não governamentais, institutos de pesquisa, universidades e na iniciativa privada.
O curso da Unesp foi referência para outras instituições de ensino na criação de graduações em Ecologia. Os docentes do curso, além do ensino, da pesquisa e da extensão, atuaram ativamente em órgãos municipais e estaduais de meio ambiente e deixaram sua marca em ações voltadas à preservação e conservação ambiental.

Mesmo já aposentada, Maria Inez segue recebendo convites para participar de atividades da instituição. E segue entusiasta do curso, que, a seu ver, é mais necessário do que nunca. “Continuo acreditando no curso, considerando-o uma ótima formação curricular. Ninguém nega a importância do desenvolvimento econômico, mas tem que haver um equilíbrio. É aí que precisamos dos ecólogos. O curso é atual, precisa continuar, e há espaço para isso”, pontua.

Imagens acima: acervo pessoal
