O Brasil tem uma relação única com a Copa do Mundo. Desde sua primeira participação, em 1930, a seleção marcou presença em todas as edições do torneio e construiu uma história repleta de glórias e emoções. O país sediou a competição pela primeira vez em 1950 e alcançou o topo do futebol mundial em cinco ocasiões — 1958, 1962, 1970, 1994 e 2002. O fato de nossa nação ser a mais vitoriosa na competição ajudou a consolidar a imagem do futebol como parte essencial de nossa identidade cultural. “O Brasil era o único país capaz de reunir, numa mesma seleção, craques de primeiro patamar mundial como nenhum outro”, observa o jornalista esportivo José Carlos Amaral Kfouri, conhecido como Juca Kfouri. Mas faz uma ressalva: “Durante meio século, fomos o país do Beautiful Game, mas nunca fomos o país do futebol”.
A perda de identidade não está apenas nos gramados, mas também na forma como o futebol passou a ser consumido. A elitização dos estádios e o avanço das transmissões pagas transformaram o jogo popular em produto caro. O resultado é um esporte menos acessível e cada vez mais distante das arquibancadas que o consagraram como paixão nacional. “Estamos excluindo os excluídos do pouco entretenimento que ainda têm”, ressalta Kfouri.
Além da elitização do esporte, Kfouri destaca outra ameaça à credibilidade do futebol: o avanço das casas de apostas, popularmente conhecidas como Bets, que hoje patrocinam clubes, programas esportivos e transmissões. “Não tem mais volta”, enfatiza. O jornalista vê o fenômeno como um problema global que coloca em risco tanto a integridade das competições quanto a saúde pública. No Brasil, o setor é regulado pela Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA), órgão vinculado ao Ministério da Fazenda, que fiscaliza as operações de apostas de quota fixa.
Jornalista denunciou fraudes em jogos
O vício em apostas, também chamado de ludopatia, é uma doença reconhecida pela Organização Mundial da Saúde, caracterizada pela perda de controle sobre o impulso de jogar, levando a prejuízos psicológicos e financeiros. O Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (LENAD), publicado pela Unifesp, mostrou que 32,1% dos apostadores participantes utilizaram sites de apostas esportivas. O estudo também revelou que a proporção de indivíduos que apresentam comportamento de risco ou problemas relacionados ao jogo é significativamente maior entre os usuários de plataformas digitais de apostas esportivas. Entre esses apostadores, 66,8% demonstram algum nível de envolvimento em jogos de risco.
A relação entre o futebol e as apostas não é novidade no país. Em 1982, Kfouri participou de uma das mais emblemáticas denúncias da imprensa esportiva brasileira, publicada pela revista Placar, que revelou o escândalo conhecido como Máfia da Loteria Esportiva. O caso expôs uma armação de 13 jogos listados na Loteria Esportiva, modalidade oferecida pela Caixa Econômica Federal. “Denunciamos 125 pessoas entre dirigentes, árbitros, jogadores e apostadores. Aquilo foi feito com lápis e cartão perfurado”, relembra o jornalista. Dos 125 acusados pela reportagem, apenas 20 foram indiciados e nenhum foi preso.
Outro ponto repercutido pelo jornalista é o uso do árbitro de vídeo, o VAR, tecnologia criada para corrigir erros claros e decisivos nas partidas. Para Juca Kfouri, o recurso tem sido mal aplicado no futebol brasileiro. “O VAR é uma bela ferramenta, desde que usada com competência e com uma certa limitação”, avalia. Para ele, seu emprego em excesso vem retirando a espontaneidade e o ritmo do jogo, transformando a busca pela exatidão na inimiga da emoção. “O VAR foi criado para evitar erros clamorosos, não para aumentar o intervencionismo. Aqui, virou muleta para o árbitro”, critica. Na visão do jornalista, o problema está no modo como a ferramenta vem sendo utilizada, dominando o jogo ao invés de servi-lo.
Kfouri também problematiza a atuação da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), afirmando que o futebol nacional é conduzido por uma lógica que ‘explora mal a galinha dos ovos de ouro’, desgastando o esporte semana após semana. O jornalista amplia a discussão ao pontuar que o problema vai além da entidade que comanda o futebol. “Uma das últimas instituições que sofrerão mudanças em direção a um futuro melhor no Brasil é exatamente a superestrutura do esporte brasileiro”, afirma. Kfouri descreve essa estrutura como “profundamente reacionária, corrupta e avessa a qualquer forma de mudança, marcada pela ganância e pela má gestão”.
Ouça a entrevista completa com o jornalista esportivo Juca Kfouri no podcast Prato do Dia, disponível nas principais plataformas de áudio e no player abaixo.
