Com falta de renda, moradores usam lenha para cozinhar em favelas da Grande SP

Afetadas pelo agravamento da crise econômica e a falta de apoio financeiro, comunidades enfrentam situações de insegurança alimentar. Reportagem da Agência Mural de Jornalismo das Periferias

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No chão de terra próximo à sua casa, Tânia Pereira Rocha, 49, ajeita dois blocos de tijolo. Ela coloca uma grade entre eles e separa lenha, que aquece a parte inferior do fogão improvisado. A adaptação foi o único jeito encontrado por ela para cozinhar para a família.

Na panela de metal, prepara arroz e feijão, recebido de doações feitas para a comunidade Porto de Areia, em Carapicuíba, cidade da região oeste da Grande São Paulo.

Assim como Tânia, afetados pelo agravamento da crise econômica e da falta de apoio financeiro, moradores das periferias estão substituindo o gás de cozinha pela lenha e enfrentando situações de insegurança alimentar. 

De acordo com dados da FGV Social, o número de pessoas que vivem abaixo da linha da pobreza no Brasil triplicou durante a pandemia de Covid-19, chegando a 27 milhões de brasileiros, 12,8% da população do país. 

Agência Mural conversou com algumas delas, que carregam os rostos e histórias atrás dos tristes dados causados pela crise econômica gerada pela pandemia.

Quando o gás acaba

A favela Porto de Areia está situada entre os trilhos do trem e uma lagoa poluída. Ela abriga cerca de mil famílias, de acordo com a associação de moradores. No local, havia um lixão a céu aberto, que era o maior da região metropolitana. 

Tânia vive ali há 30 anos. Atualmente divide a casa com três filhos, de 25, 20 e 17 anos, e netas, de 9 e 8 anos. Além dela, demitida do restaurante onde trabalhava como ajudante de cozinha em dezembro, os filhos também estão desempregados. 

Além dos bicos pontuais, a única forma de conseguir comer são as doações feitas à comunidade. Entretanto, comprar o botijão de gás de cozinha, que segundo ela custa em média R$ 90, nem sempre é possível. 

Desde que perdeu o emprego, a família vive uma situação de insegurança alimentar (quando falta comida no dia a dia – no caso mais grave – ou há incerteza sobre a possibilidade de se alimentar no futuro).

Tânia Pereira Rocha no lugar onde costuma cozinhar a lenha na favela Porto de Areia. Foto: Léu Britto/Agência Mural

De acordo com a Escala Brasileira de Medida Direta e Domiciliar da Insegurança Alimentar, adotada pelo IBGE (Instituto Brasileira de Geografia e Estatística), a insegurança pode ser leve, moderada ou grave. 

No último caso, o mais severo, há a redução de alimentos entre as crianças e ou a ruptura nos padrões de alimentação, resultando na fome. 

A pesquisa “Efeitos da pandemia na alimentação e na situação da segurança alimentar no Brasil” revelou que, assim como a família de Tânia, mais de 125 milhões de brasileiros (59,3% da população) sofreram insegurança alimentar durante a pandemia.

O levantamento foi feito pelo Grupo de Pesquisa Alimento para Justiça: Poder, Política e Desigualdades Alimentares na Bioeconomia, sediado no Instituto de Estudos Latino-Americanos da Universidade Livre de Berlim, na Alemanha.

Cozinhando na chuva

A cerca de 30 km da casa de Tânia, no Jardim Damasceno, distrito da Brasilândia, zona norte de São Paulo, a situação é parecida. Também em chão de terra, Rose da Silva, 48, usa uma antiga lata de tinta como suporte improvisado para cozinhar a lenha. 

A costureira, desempregada há anos, tem quatro filhos entre 2 e 12 anos. Nos últimos meses, está impossibilitada de comprar gás, o que a fez improvisar um fogão para a comida das crianças. “Não está dando para comprar o botijão. Tomo remédio, minha cabeça não está boa também”, relata. 

Para cozinhar sem gás, Rose diz demorar de 4 a 5 horas, a depender do alimento. Em dias de chuva, o cenário é pior, pois o fogão improvisado leva mais minutos para esquentar. “Aí peço ajuda para as pessoas [para conseguir alimentos] quando não consigo fazer fogo.” 

O lugar onde dorme com os filhos não é sua casa, já que mora de favor. Para sobreviver, precisa contar com a ajuda dos vizinhos, seja com dinheiro para comprar pão, doação de alimentos ou outras necessidades básicas do dia a dia. 

Sem previsão de uma melhora na qualidade de vida, diz que os serviços públicos não são acessíveis. “Não acesso a tecnologia. É difícil entrar nas coisas da prefeitura.”

Na mesma região, Maria Delfina, 34, juntou alguns blocos, madeira, álcool e fósforo. Dentro de um quarto, onde mora de favor, faz a comida para si e para os filhos. No dia em que a reportagem da Agência Mural falou com ela, estava esquentando água para fazer mingau de fubá. 

Sem o comprometimento dos pais das crianças, todos os dias, ela se preocupa com o que vai oferecer aos filhos e como vai preparar as refeições. Mãe de seis filhos, entre 1 e 14 anos, Maria está desempregada e também diz não contar com a ajuda do poder público para acessar coisas básicas. “Não tenho gás”, afirma.

‘Ataca minha asma’

Depois de juntar muita madeira, o analista de sistemas Fernando Godinho, 39, levantou a casa, que, na verdade, é um barraco improvisado em meio a uma ocupação de moradia em Jundiapeba, em Mogi das Cruzes, na Grande São Paulo. 

No terreno de chão de barro, ele vive com três filhos no espaço improvisado. O lugar é conhecido como Baixo das Torres. 

Para dar conta das necessidades básicas, nos últimos meses, trabalhou em confecções de artesanato, mas recentemente perdeu esta renda. 

O dinheiro que tinha guardado foi usado para comprar medicamentos contra a asma, após sofrer algumas crises. “Ia usar o valor para comprar o gás futuramente, mas foi necessário que eu usasse. E, com isso, infelizmente, meu botijão acabou. Não tive outra opção a não ser cozinhar a lenha, e já estou nisso há uns 15 dias.” 

Além da precariedade para fazer comida, a fumaça gerada pela queima das madeiras piora a situação de saúde dele, o que torna os remédios essenciais. “O contato é direto, e prejudica muito a saúde. De noite dá a crise.”

Para conseguir fazer o fogo, o analista busca madeiras descartadas em lixos e em terrenos baldios da região. Geralmente, começa a cozinhar pela manhã e depois mantêm a brasa acesa para as demais refeições da família. “A rotina é cansativa”, diz. 

Fernando e a cozinha improvisada em Mogi das Cruzes | Renan Omura/Agência Mural

Beneficiado pelo Bolsa Família, Fernando afirma ter passado por “perrengues” desde o início da pandemia, como a própria falta de comida. Ele não esconde que só consegue alimentar os filhos graças às doações. 

“É pelas entidades e os movimentos sociais, que vêm fazer trabalhos na comunidade, que consigo comer”, comenta. 

Apesar da situação, Fernando conhece pessoas em situação de mais vulnerabilidade que a dele. Ele cita moradores necessitados de mais alimentos, crianças sem fraldas ou leite e até pessoas com necessidades psicológicas e jurídicas. “A gente tem a ciência de que tudo é fruto de arrecadação. Ganhamos dos mais ricos para distribuir para os outros mais pobres, entendeu?” 

Perguntado sobre o que deveria ser feito para mudar a situação, diz que “ter muita fé em Deus” é uma delas e que as pessoas tenham consciência da situação social do país e ajudem os mais pobres. 

Risco à saúde

O uso diário da lenha pode causar doenças ou agravar a situação de quem já vive problemas respiratórios como Fernando. 

Um dos exemplos é a DPOC (Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica), sigla usada para descrever doenças pulmonares progressivas, como enfisema, bronquite crônica e asma refratária.

Há dez anos, a OMS (Organização Mundial da Saúde) disse que a queima de madeira e carvão nas casas matava cerca de 2 milhões por ano, naquele período, sendo que a situação era mais comum nos países menos desenvolvidos (na América Latina e África). 

“Diariamente, e durante horas, mulheres e crianças respiram uma quantidade de fumaça equivalente a fumar dois maços de cigarro por dia”, disse a OMS na época.

A entidade apontou a fumaça produzida por essas formas de cozimento primitivas como a causadora de doenças em casas sem ventilação. As maiores vítimas são as pessoas que ficam mais tempo dentro de casa, realidade mais comum com a pandemia.

Com falta de renda, fogão de lenha tem sido utilizado em várias periferias | Magno Borges/Agência Mural

Conta que não fecha 

Este ano, o valor do GLP (gás liquefeito de petróleo), conhecido como gás de cozinha, já foi reajustado quatro vezes. A última mudança anunciada pela Petrobras, válida a partir de 2 de abril, elevou o custo para as distribuidoras em 5%. 

Entretanto, além dos valores praticados nas refinarias da empresa estatal, outros tributos federais e estaduais, somados aos custos das distribuidoras também pesam no valor final do gás.  

Porém, não é apenas o aumento do botijão que tem levado as pessoas a recorrer à lenha. Em fevereiro de 2021, o IPCA acumulado dos últimos 12 meses, principal índice econômico que mede a inflação no Brasil, foi de 5,20%. 

“Os mais pobres estão mais suscetíveis à alta dos preços, em especial de alimentos, pois precisam gastar a maior parte de sua renda com alimentação”, aponta a economista Regiane Vieira Wochler, mestra em economia política pela PUC (Pontifícia Universidade Católica) de São Paulo.

“As mulheres pretas/pardas com filhos perderam mais espaço no mercado de trabalho, ocupam cargos de menor remuneração e são a maioria em lares como chefes de família solo, portanto, são as mais expostas à severidade das condições impostas pela pandemia.”

De acordo com o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), a taxa média de desemprego no país, no ano passado, foi de 13,5%, a maior da série iniciada em 2012. 

Os números da Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua) mostram que o desemprego ficou em 14,2% no trimestre encerrado em janeiro, a maior taxa já registrada para o período – são 14,3 milhões de brasileiros sem trabalho.

Soma-se a esse cenário a demora para aprovação do novo auxílio emergencial que, além de deixar cerca de 22,6 milhões de pessoas de fora da nova rodada, agora tem valores até 70% mais baixos. 

De acordo com o Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), em fevereiro de 2021 o valor da cesta básica no estado de São Paulo era de R$ 639,47. 

Em Jundiapeba, morador cozinha usando lenha | Renan Omura/Agência Mural

“As famílias terão de gastar toda sua renda com a alimentação, e o custo do gás torna-se proibitivo. Cenas como essas ferem o direito à cidadania plena”, analisa Regiane.

Uma pesquisa realizada em fevereiro de 2021 pelo DataFavela, Instituto Locomotiva e a CUFA (Central Única das Favelas), mostra que 58% dos moradores de favelas pediram e receberam o auxílio emergencial. Com o fim do benefício, 67% precisaram cortar despesas básicas.

A pesquisa também mostrou que 9 em cada 10 moradores receberam alguma doação durante a pandemia. Além disso, oito em cada 10 famílias não teriam condições de se alimentar, comprar produtos de higiene, limpeza, e pagar as contas mais básicas caso não tivessem recebido as doações.

Para a economista, além desses fatores, a demora na vacinação em massa da população também atrasa a retomada sustentável das atividades econômicas. 

“Acredito que o primeiro semestre de 2021 será de recessão econômica. Diante do total desamparo aos mais pobres, fatalmente a pobreza e desigualdades sociais e raciais crescerão. No Brasil a pobreza e a fome têm cor, pois 74% dos que estão em extrema pobreza são pretos/pardos segundo IBGE.”

Moradores recebem doações de alimentos na favela Porto de Areia | Léu Britto/Agência Mural

Em busca de comida

Apesar das situações relatadas nesta reportagem, a solidariedade nas periferias é um aspecto que não pode ser ignorado. Coletivos de cultura, ativistas, professores e outros personagens se uniram, desde o começo da pandemia, em mobilizações na busca de comida e recursos mínimos à população, como álcool em gel e máscaras.

Um exemplo foi contado em maio passado. Para combater a fome e acolher mulheres no Capão Redondo, periferia da zona sul de São Paulo, as integrantes da Escola Feminista Aby Ayala criaram uma rede de apoio

Em uma “vaquinha virtual”, o grupo arrecadou cerca de R$ 15 mil, usado para apoiar cem mulheres chefes de família, por no mínimo três meses, com doação de cestas básicas, alimentos orgânicos, água, produtos de limpeza, álcool 70% e máscaras. 

Na zona norte, o MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto), em conjunto com o líder comunitário Quintino José Viana, 74, responsável pelo movimento Ousadia Popular, criaram a Cozinha Solidária na Brasilândia. 

De acordo com o líder comunitário, a distribuição das refeições neste momento da pandemia é essencial, já que muitas famílias não têm o que oferecer aos filhos. Pelo WhatsApp, diariamente, Quintino mobiliza doações aos mais pobres da região.

Ação comunitária em Paraisópolis | Léu Britto/Agência Mural

Em Paraisópolis, segunda maior favela da capital paulista, na manhã da última terça-feira (13), foram entregues cerca de 2.000 cestas básicas, arrecadadas pela campanha #PANELASVAZIAS, promovida pelo G10 Favelas. 

A ação faz parte da campanha nacional para levar comida a mais de 300 comunidades, em 14 estados. “Durante os últimos meses de pandemia, o G10 Favelas promoveu 12 iniciativas que viabilizaram a doação de mais de 1 milhão de cestas básicas e máscaras, além da distribuição de mais de 1,5 milhão de marmitas”, diz Gilson Rodrigues, 36. 

O líder da comunidade também cita a contratação de ambulâncias e a criação de uma casa de acolhimento na comunidade. “Essas iniciativas têm se espalhado no país, colocando os moradores como agentes da sua própria transformação.”

Para obter informações para doações

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