Da universidade à startup de alta tecnologia: a trajetória de Natália Naddeo

Egressa da pós-graduação da Unesp conta como a formação multidisciplinar embasou uma carreira que conecta pesquisa acadêmica, empreendedorismo e inovação no agro.

A trajetória de Natália Noronha Ferreira Naddeo é um exemplo de como pesquisadores que se destacam em suas áreas conseguem superar os limites dos laboratórios e impactar setores vitais da economia.

Graduada em Ciências Farmacêuticas, Natália consolidou sua base científica na Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Unesp em Araraquara, onde cursou mestrado e doutorado. Nesse período, dedicou-se intensamente ao desenvolvimento e ao controle de qualidade de fármacos, acumulando também experiência na indústria farmacêutica. Hoje, ela é diretora científica da empresa Small Nanotechnology, especializada em oferecer soluções inovadoras para o agronegócio.

Sonho de ser docente

Natália aproximou-se do Instituto de Química (IQ) da Unesp em Araraquara ainda na época da graduação, embora cursasse Farmácia em outra instituição. No IQ realizou sua iniciação científica sob a orientação da professora Maria Lúcia Ribeiro. A experiência a motivou a seguir uma carreira acadêmica. “Ela abriu as portas para que eu adentrasse o universo acadêmico. Quando me formei, meu grande sonho era ser professora universitária”, conta.

Após a graduação, ela viveu uma experiência profissional na indústria, mas optou por retornar a Araraquara. Nessa volta, procurou o Programa de Pós-graduação em Ciências Farmacêuticas para cursar o mestrado, já com a perspectiva de seguir para o doutorado.

Mesmo tendo retornado à academia, a experiência como estudante de mestrado só ampliou seus contatos com a iniciativa privada.

“O grupo de pesquisa a que estava associada durante o mestrado e o doutorado tocava projetos associados à indústria farmacêutica. Isso me permitiu atuar bastante na interface entre a academia e vários projetos industriais. Essa experiência ampliou minha formação e mostrou que a minha trajetória profissional poderia ser um pouco diferente. Não precisava se limitar somente ao caminho de mestrado, doutorado, pós-doutorado e, eventualmente, de professor acadêmico. Eu poderia trabalhar também nessa interface, ou ainda no setor privado em associação a uma instituição”, diz ela.

Diferenciais da pós-graduação na Unesp

Natália destaca como um diferencial em sua carreira o caráter multidisciplinar da formação que recebeu na pós-graduação da Faculdade de Ciências Farmacêutica. “A partir dessa formação multidisciplinar, consegui desenvolver também a parte de docência, atuando junto aos alunos. Ou seja, ministrei aulas enquanto estava na pós, mas também tive contato com o pessoal da indústria”, conta.

Nesse período, pode conviver com colegas que construíam carreiras na iniciativa privada e que vinham à Unesp para desenvolver pesquisas de mestrado e doutorado. “Esses contatos me abriram portas, pois são pessoas com quem até hoje sigo conversando, tirando dúvidas e eventualmente desenvolvendo trabalhos em conjunto”, diz. “Tudo isso foi muito importante para que hoje eu possa atuar da maneira como atuo.”

A sólida bagagem que obteve durante sua formação, com foco em aplicações da nanotecnologia nas áreas de saúde humana e animal, permitiu que fizesse um pós-doutorado no Grupo de Nanomedicina e Nanotoxicologia (GNano) do Instituto de Física de São Carlos (IFC), ligado à USP. Lá, ela direcionou seu olhar técnico para um novo horizonte: a agricultura.

O nascimento da Small Nanotechnology

A transição de seu foco da saúde para o campo consolidou-se com a fundação da Small Nanotechnology, uma spin-off de alta tecnologia nascida no ambiente do IFSC. Ao lado do executivo e agrônomo Renato Seraphim, Natália idealizou uma startup capaz de suprir uma demanda latente do mercado: otimizar a eficiência de insumos agrícolas e reduzir custos operacionais por meio de soluções nanotecnológicas inteligentes e sustentáveis.

A empresa busca solucionar desafios históricos enfrentados pelo produtor rural por meio de atividades de Pesquisa, Desenvolvimento & Inovação (PD&I). Como diretora executiva e científica, cabe a ela liderar o desenvolvimento de formulações que utilizam matérias-primas biodegradáveis para potencializar o desempenho de moléculas químicas e biológicas no campo.

A spin-off oferece soluções para diferentes áreas ligadas ao agro. No campo da fertilização inteligente, seus sistemas de liberação controlada podem evitar desperdícios no manejo de nutrientes do solo. Defensivos agrícolas nanoestruturados, com maior aderência e menor impacto ambiental, representam uma nova fronteira para o controle de pragas. Já soluções em engenharia química e biológica capazes de assegurar a estabilidade de misturas complexas contribuem para atender às demandas relacionadas à compatibilidade de formulações.

Natália ao receber o primeiro lugar na categoria Inovação Tecnológica do XVII Prêmio Octavio Frias de Oliveira, em 2026

“A Small Nanotechnology nasceu como uma spin-off do Instituto de Física de São Carlos. Foi nesse período que nos unimos, e foi lá que a gente idealizou uma forma de trazer o conhecimento acadêmico para o mercado. E, naquela época, tivemos contato com pessoas experientes do mercado do agronegócio. Elas conseguiram trazer, de forma muito clara, as suas demandas e necessidades”, conta.

Um elemento estratégico, conta ela, foi o fato de que essa aproximação envolveu profissionais com sólida formação técnica e pessoas com experiência de mercado. “Essa união ampliou as nossas visões e resultou em um projeto promissor”, conta Natália.

Inicialmente, o propósito era posicionar o grupo como um braço de PD&I de grandes empresas. Isso permitiria que as companhias reduzissem os investimentos necessários à aquisição de maquinário para a produção de formulações e nanomateriais, além de facilitar o acesso a recursos humanos.

“Isso foi avançando. Tem sido uma experiência muito bacana. Percebo que, hoje, há um mercado muito interessante para os farmacêuticos dentro do agro”, avalia.

Durante sua carreira, Natalia recebeu diversos reconhecimentos e premiações, entre os quais o Prêmio USP Mães Pesquisadoras, em 2022, e o primeiro lugar na categoria Inovação Tecnológica do XVII Prêmio Octavio Frias de Oliveira, em 2026. Frequentemente, ela compartilha suas vivências como mulher em posição de liderança em fóruns e eventos do setor, como o Bioprocess Summit. Natália pontua que o empreendedorismo científico é um caminho para que o conhecimento gerado nas universidades brasileiras produza impactos para além do ambiente acadêmico.

Sua trajetória reflete uma ampliação do horizonte de atuação do pesquisador, que hoje não se limita necessariamente à publicação de artigos de impacto e pode envolver também a geração de conhecimento capaz de produzir benefícios em áreas como produtividade e sustentabilidade.

“Minha trajetória profissional nunca foi linear. Sempre seguiu uma estratégia interativa. Hoje, quando a gente fala da necessidade de uma metodologia ágil para atuar com inovação, eu acho que a minha carreira sempre foi um pouco disso. De uma situação surge uma interação, e dela vai surgindo outra. Essa dinâmica me ajudou muito a chegar aqui, e a trazer isso para a empresa também. Isso é muito importante. Acho que funciona muito bem”.

Confira abaixo a entrevista completa no podcast Universo Profissional.