Autor de série de biografias de personalidades negras, Tom Farias é o convidado da nova edição do Prato do Dia

Em entrevista ao podcast, escritor reconhecido por sua produção crítica e engajada debate as afrobiografias, textos que apresentam sob uma nova perspectiva as lutas e as conquistas de nomes como Cruz e Sousa e Carolina de Jesus.

Poeta expoente do simbolismo no Brasil no fim do século 19, Cruz e Sousa foi retratado por parte da crítica literária como um alienado, que ignorava sua própria origem e as lutas de sua época. Mas estudos contemporâneos, que resgatam documentos sobre o autor, dizem o contrário: ele foi um abolicionista convicto, engajado em causas raciais.

Histórias distorcidas de personalidades negras são comuns. Machado de Assis, no imaginário de muitos, era branco; a imagem de Carolina Maria de Jesus é frequentemente limitada ao epíteto de “escritora da miséria”. É contra essa construção equivocada da história de grandes figuras negras que Tom Farias se debruça em suas produções. “Acho que são pessoas fantásticas demais para serem confinadas a caixinhas tão miseráveis, tão ordinárias, como acontece hoje”, diz ele. Tom Farias é o convidado da nova edição do Prato do Dia, o podcast da Assessoria de Comunicação da Unesp.

Tom Farias é o pseudônimo de Uélinton Farias Alves. Membro da Academia Carioca de Letras, ele é jornalista, escritor e pesquisador, autor de biografias, crítica literária e romances de teor social. Por duas vezes foi finalista do prêmio Jabuti: em 2009, com Cruz e Sousa: o Dante Negro do Brasil, e em 2019 por Carolina: uma biografia.

Sua mais recente produção é Ancestral, lançada na Bienal do Livro de 2026. Apesar de transitar por um novo gênero, a poesia, a obra segue com foco nas suas percepções sobre a questão racial, sobre a escravidão e sobre o racismo no Brasil. “Eu escrevi dois livros para comemorar meus 60 anos. Um deles é o Ancestral. Que eu não chamo um livro de memórias, mas que é, também, um livro de memória”, diz.

O conceito das afrobiografias

A maior parte das suas obras estão incluídas no que denomina de afrobiografias. O conceito foi desenvolvido por ele para combater o silenciamento da cultura negra no Brasil por meio de um resgate de personalidades negras e do reposicionamento de suas narrativas: “A história está lá. Ela não pode ser encoberta, escamoteada. Esse trabalho visava resgatar os valores dessas pessoas, a importância delas para a sociedade brasileira e para a constituição desse país, que muitas vezes estavam mal contadas nos livros”, explica.

Ele atribui o surgimento destas afrobiografias a uma atitude de resistência, mas também a transformações, ainda que lentas, em vieses coloniais. Cita como exemplo a projeção cartográfica “Equal Earth” (Terra Igual), nova representação do mapa-mundi aprovada pela ONU no dia 4 de setembro. A conquista é resultado da campanha “Correct The Map” (Corrijam o Mapa), liderada pela União Africana, que buscou a substituição da projeção de Mercator (1569). A representação do século 16 desfavorece o continente africano, retratando-o com tamanho semelhante ao da Groenlândia, embora a África seja 14 vezes maior.

As mudanças de perspectiva também estão presentes na linguagem, com a reflexão acerca de termos antes popularizados para se referir a pessoas negras. O Samba Enredo de 1982 da Unidos da Tijuca intitulado “Lima Barreto – Mulato, Pobre, Mas Livre”, por exemplo, é uma homenagem ao autor pela sua luta contra a discriminação racial. Apesar disso, Tom Farias lembra que o emprego da palavra “mulato” é questionado nos dias atuais devido à sua história semântica e, apesar de utilizado em um contexto de exaltação de Lima Barreto, dificilmente seria empregado se o samba fosse escrito hoje. “Têm algumas letras de músicas que já não batem mais. Pegam mal e vão, cada vez mais, pegar mais mal, porque estão dentro de uma elaboração mental em que muitas coisas já não são mais adotadas”, completa.

O entrevistado comenta sobre a disparidade entre o alto número de pessoas afrodescendentes no Brasil (55,5% da população, segundo o IBGE) e o seu baixo protagonismo em diversas áreas da sociedade. Para ele, existe uma blindagem que impede a chegada da população negra e de seus discursos a determinados lugares. “Eu acho que a academia é uma porta dessa blindagem, a academia, e os lugares de decisão”, diz.

Farias sustenta a necessidade de reproduzir conversas como a que ocorreu neste episódio do Prato do Dia. Para ele, trocas sobre as questões raciais devem estar presentes no coração das universidades, seja na sala de aula, seja em núcleos de discussão. “É isso que vai fazer alguma modificação para a gente enquanto país”, diz.

Para acompanhar a discussão completa, ouça o novo episódio do Prato do Dia nas principais plataformas de áudio ou no player abaixo.