Reprodução de mais de 99% das espécies de árvores amazônicas é dependente da ação de animais

Mapeamento inédito que abarcou mais de 5 mil espécies arbóreas na Amazônia reforça papel de animais para ações de polinização e dispersão de sementes. Resultados evidenciam que tendência de perda de fauna, quer por interferência do homem ou mudanças climáticas, pode colocar futuro do ecossistema em risco.

A importância dos animais polinizadores já é bem conhecida pelos cientistas. Ao transferirem grãos de pólen de uma flor para outra, atuam como um elo essencial na reprodução das plantas e na formação de frutos e sementes. Esse papel se mantém mesmo em atividades que envolvem o manejo humano dos ambientes naturais, como a agricultura. Agora, um novo estudo  está olhando em detalhes a contribuição deles para a manutenção do bioma mais biodiverso do planeta: a floresta amazônica.

A floresta amazônica é a maior floresta tropical do mundo, guardando ainda um dos ecossistemas mais biodiversos do planeta. Ela é considerada um sumidouro de carbono, armazenando cerca de 123 bilhões de toneladas de CO₂ em seu solo e vegetação. No entanto, queimadas, desmatamento e a própria defaunação podem colocar em risco a atuação da Amazônia na regulação climática.

Segundo a nova pesquisa, liderada por um cientista da Universidade de Utrecht, na Holanda, aproximadamente 80% das espécies de árvores amazônicas dependem de animais tanto para a atividades de polinização quanto para a dispersão de sementes. Em contrapartida, em menos de 1% das espécies arbóreas essas etapas cruciais do ciclo de vida não envolvem a participação de animais. Essa relação de dependência torna imprescindível a interrupção da defaunação na floresta.

O pesquisador de pós-doutorado do Instituto de Biociências da Unesp, câmpus de Botucatu, Caio Simões Ballarin, é um dos colaboradores da pesquisa e coautor do artigo. Ballarin explica que o levantamento foi possível graças ao engajamento de cientistas de diversas instituições, o que permitiu cruzar grandes quantidades de dados e alcançar resultados robustos. Além dos dois já citados, a iniciativa reúne especialistas da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da USP, da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri, do Instituto Tecnológico Vale, da Universidad de los Andes (Colômbia), da Universidade de Turku (Finlândia) e do instituto de pesquisa neozelandês Landcare Research.

Estudo abrangeu 94% das espécies que habitam a Amazônia

No total, foram obtidos dados de visitação floral relativos a 5.201 espécies de árvores amazônicas. Esse número correspondente a 50% de todas as espécies de árvores conhecidas, e 94% de todos as espécies que se estima habitarem a Amazônia.

Apesar da dimensão e importância da floresta amazônica, havia ainda poucos dados sobre polinização na região em comparação a outros biomas como o Cerrado e a Mata Atlântica. Uma das dificuldades, explica Ballarin, é a altura das árvores na Amazônia. “As flores e frutos das árvores da Amazônia encontram-se, normalmente, no topo, quase no céu”, diz ele, “enquanto o Cerrado, por exemplo, é um sistema campestre e savânico, facilitando a observação das espécies.

A Mata Atlântica também se caracteriza por florestas fechadas e grandes árvores. Porém, avalia o pesquisador da Unesp, o fato de que o bioma se situa em estados onde há grande concentração de universidades, como Bahia, Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro e Santa Catarina, pode ser outro fator facilitador que explica a grande quantidade de estudos que já tematizaram a Mata Atlântica.

Inferindo o comportamento dos animais

Na primeira etapa da pesquisa, os cientistas coletaram via literatura certos dados essenciais,  como os nomes das espécies vegetais e dos animais que costumam visitá-las. No caso das espécies para as quais não havia informações documentadas foram realizadas inferências. Isso significa que os pesquisadores observaram quais recursos eram produzidos a fim de estimar quais espécies animais seriam capazes de polinizar ou fazer a dispersão de sementes daquele espécime vegetal.

Ballarin exemplifica: “se encontrássemos uma espécie de planta que só produzia pólen, inferíamos que o visitante floral seria, majoritariamente, a abelha, porque ela é um dos únicos animais que consome pólen com frequência. Se o fruto fosse carnoso, inferíamos que mamíferos ou aves consumiam esse fruto, porque o fruto carnoso é um atrativo para esses dispersores”.

Ao final, os cientistas concluíram que as abelhas atuam como os principais agentes polinizadores das espécies da floresta amazônica (59,1%). Em seguida vem os chamados visitantes florais generalistas (39,1%) – animais que visitam diversas espécies de plantas para obter néctar e pólen, sem depender de uma única fonte. Borboletas, morcegos, besouros, entre outros, completam essa lista.

Poucos gêneros são extremamente importantes

O estudo concluiu que apenas 16 dos mais de 750 gêneros de árvores analisados respondem por metade das interações bióticas. Isso torna a defesa destes gêneros algo imprescindível para assegurar a manutenção do ciclo de vida das plantas, e também dos animais. “Dezesseis é um número baixo. Se um destes gêneros se extinguir por completo, seja por ações humanas ou eplas mudanças climáticas, o impacto vai ser enorme”, alerta Ballarin.

Cada gênero engloba diversas espécies. O gênero Inga, por exemplo, têm entre 300 e 400 espécies, enquanto o gênero Miconia soma mais de 2 mil espécies. Segundo o artigo, quando se analisa os gêneros mais envolvidos em interações, o Inga e o Miconia se destacam, chegando a responder por mais de 2% de todas as interações.

Quando se avalia sob o prisma das populações de árvores na Amazônia envolvidas nas interações, os destaques ficam por conta dos gêneros Protium, Eschweilera, Pouteria, Ocotea, Virola e novamente o Inga. Eles estão envolvidos em mais de 2% de todas as interações.

Em contrapartida, menos de 1% das espécies arbóreas amazônicas não dependem de animais para garantir a polinização e dispersão de sementes. Nestes casos, os grãos de pólen e sementes aladas se espalham com auxílio do vento, que sopra nas árvores e carrega o material para longe da planta mãe.

Estudo é ponto de partida

O pesquisador reforça que o estudo foi feito em escala ampla, o que pode interferir na resolução dos resultados. Embora o estudo se baseie em evidências científicas e resultados já publicados anteriormente, a pesquisa inovou ao possibilitar inferências sobre o trabalho dos animais polinizadores e dispersores em espécies da floresta tropical. O estudo representa uma espécie de pontapé inicial, diz Balladin. “São necessários estudos na Amazônia que olhem a escala local”, diz.