Felipe Santaella graduou-se em medicina na Faculdade de Medicina de Botucatu (FMB) em 2020, e posteriormente fez sua especialização em psiquiatria na Unicamp, concluída neste ano. Em sua trajetória acadêmica, vem construindo uma carreira multifacetada que combina atendimento clínico, produção de conteúdo sobre saúde mental e atuação como consultor no Ministério da Saúde.
Desde que ingressou na graduação, em 2015, Felipe já demonstrava interesse pela área da psiquiatria. Porém, em vez de buscar uma especialização de forma precoce, ele se permitiu explorar diversos caminhos. Ingressou na liga acadêmica, buscou se aproximar da pesquisa clínica na área da bioquímica e realizou iniciação científica no Instituto de Biociências. Mais tarde, ao se interessar por patologia, fez outra iniciação científica, desta vez na área de hematopatologia.
Felipe diz que o elemento comum que embasou essas experiências foi o apoio que era oferecido no interior do câmpus. “Percebi que, independentemente do caminho que eu escolhesse, havia pessoas que me apoiariam. Depois que me formei e trabalhei na cidade, pensei na psiquiatria. Mas foi importante porque consegui conversar novamente com meus professores e minhas professoras, principalmente das áreas de psicologia médica e de psiquiatria. Acho que o grande diferencial foi justamente essa possibilidade de estar em contato com a cidade, de experimentar essas vivências”, conta.
O médico destaca as oportunidades que surgiram em seu caminho como estudante de uma universidade pública, mas enfatiza que elas vieram em decorrência de seus esforços. “A oportunidade não é algo que simplesmente surge à sua frente, que basta abrir uma porta para encontrar. É preciso ir atrás dela, e existem caminhos para isso”, analisa.

Além de atuar nas iniciações científicas, Felipe colaborou em projetos de extensão. Nesse contexto, teve a oportunidade de dar aulas de filosofia no cursinho comunitário do câmpus. Essa experiência foi importante para que tomasse a decisão de se tornar comunicador e trabalhar com a criação de conteúdo.
Sua atuação na comunicação também ganhou contornos específicos durante o ano final da graduação em medicina. Era o ano de 2020, e a pandemia varria o planeta. Junto com outros colegas, Felipe esteve à frente do projeto de extensão “Alunos Contra o Corona”. A iniciativa produzia conteúdo sobre o coronavírus, realizava entrevistas com professores e oferecia teleatendimento para idosos. O grupo também organizou um congresso acadêmico que arrecadou fundos para a compra de equipamentos de proteção individual para o Hospital das Clínicas da FMB.
A experiência de viver em Botucatu, uma cidade de porte menor, também favoreceu uma sensação de imersão no ambiente universitário, que propiciava tanto a troca acadêmica quanto a construção de relações pessoais. Felipe diz que esse foi um diferencial. “Isso aproxima muito uns dos outros. Tive bastante contato com os alunos, com os veteranos e com os professores”, lembra.
Após concluir a graduação, Felipe ingressou na residência médica em psiquiatria da Unicamp, que concluiu neste ano. A formação em psiquiatria serve de base para que atue em três frentes principais. Uma delas é o atendimento clínico como psiquiatra. Para um público mais amplo, ele produz conteúdo em plataformas como o Instagram e o YouTube sobre psiquiatria e saúde mental, com foco em comportamentos digitais. Por fim, é consultor externo do Ministério da Saúde no DESMAD (Departamento de Saúde Mental, Álcool e Drogas), trabalhando na interface entre comunicação e saúde mental. Nessa função, participou da organização de um congresso e desenvolveu linhas de trabalho sobre o tema.
Ao analisar os desafios da saúde mental ligados ao mercado de trabalho, Felipe observa que, para o universitário que ingressa na vida profissional, o contato com colegas e pessoas próximas é uma referência para pensar a inserção. Ele aponta mudanças estruturais, como a menor porcentagem de trabalhos com carteira assinada e o aumento do trabalho autônomo ou por MEI, que podem dificultar a delimitação entre tempo de trabalho e descanso. “Quando a gente entra no mercado de trabalho, fica perdido: poxa, será que é certo eu responder ao meu chefe depois do expediente? Como funciona isso?”, exemplifica.
Outro ponto que o psiquiatra destaca é a necessidade de cursar formações complementares a fim de poder atuar em áreas distintas daquelas abordadas na graduação, além da importância de que se reconheça a pós-graduação efetivamente como um trabalho, com as devidas implicações de reconhecimento e remuneração.
Aos estudantes e recém-formados, Felipe pondera que a opção por uma carreira não implica uma escolha absoluta e definitiva. “É importante ter em mente, após conseguir um trabalho, que aquele não precisa ser o único caminho que se pode seguir. Existem outros caminhos possíveis também, e você pode redirecionar a rota”, diz.
O egresso sugere que os jovens busquem conversar com colegas, professores e veteranos para trocar informações e alcançar uma visão mais ampla do que se alcança recorrendo apenas a redes sociais como o LinkedIn. Muitas vezes, no ambiente universitário, as trocas interpessoais são deixadas de lado em função de outros elementos da carreira e da vivência acadêmica.
“Não estamos na universidade pública só para fazer pesquisa séria e produzir conhecimento, mas também porque construímos relações humanas. E essas relações vão assegurar caminhos profissionais e pessoais que façam sentido”, afirma.
Confira abaixo a entrevista completa no Podcast Universo Profissional.
