Doze metros a mais de água: foi essa variação extrema de volume que o rio Paraitinga registrou, ao longo de poucas semanas, durante o mês de dezembro de 2009. A subida do nível foi efeito de uma sequência de chuvas sem precedentes. O esperado para o mês era algo entre 150mm e 200mm: a marca real alcançou 605mm. Apenas no dia 31 de dezembro, o índice de precipitação chegou a 200mm. O Paraitinga corta a cidade histórica de São Luiz do Paraitinga, e com a subida do rio o município entrou no ano de 2010 literalmente debaixo d’água. O alagamento do Centro afetou prédios de valor histórico, como a igreja matriz e a prefeitura. Deslizamentos de terra multiplicaram os estragos, e mais de 300 residências e 200 estabelecimentos comerciais foram danificados ou destruídos. Cerca de 90% da população ficou sem moradia.

A destruição causada pela chuva no primeiro dia de 2010 surpreendeu um grupo de docentes da Unesp, que há anos frequentavam a cidade regularmente. Em 2005, um programa do governo do Estado de São Paulo que buscava capacitar gestores públicos de municípios com baixo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) resultou em um convite à Unesp, por parte da prefeitura do município, para a elaboração conjunta do Plano Diretor Participativo.
O convite foi aceito por dois professores: José Xaides de Sampaio Alves, hoje docente aposentado da Faculdade de Arquitetura, Artes, Comunicação e Design em Bauru, e Mauricio Cesar Delamaro, da Faculdade de Engenharia e Ciências do câmpus de Guaratinguetá. Arquiteto com especialização em urbanismo, Alves conta que ficou impressionado com a riqueza cultural do conjunto arquitetônico ao visitar a cidade pela primeira vez.
Fundado em 1769 e elevado à condição de cidade em 1857, o município se tornou um ponto de ligação entre o interior e o litoral paulista. O legado histórico, que remonta ao Brasil Colônia, fez com que a população preservasse não apenas construções, mas também a cultura da época, o que se reflete nas festas tradicionais que a cidade sedia ao longo do ano, como o Carnaval de marchinhas, a Festa do Divino e a Festa da Cozinha Caipira.
“A história de valorização da cultura e do turismo integra a população”, diz Alves. “Desde a produção agrícola até restaurantes e hotéis, todos se unem para realizar trabalhos culturais coletivos”, destaca. Esse contexto contribuiu para que a ação de implementação do Plano Diretor Participativo, que demanda ampla participação popular, fosse bem-sucedida.

“Foram cerca de 50 encontros com a população, realizados principalmente em escolas da zona rural, para a elaboração de um documento que representasse as questões ambientais, culturais, econômicas e sociais de São Luiz do Paraitinga”, lembra o docente.
O plano foi aprovado pela Câmara Municipal no dia 15 de dezembro de 2009. Apenas duas semanas depois, ocorreria a grande chuva que devastou a cidade.
O desafio da reconstrução
Diante do cenário de destruição, Alves e Delamaro retornaram ao município para identificar demandas emergenciais e, em seguida, reuniram-se com o Reitor da Unesp, Herman Voorwald, para solicitar apoio e recursos financeiros a fim de ampliar a atuação no município. A Reitoria compreendeu a dimensão da tragédia ambiental e o papel estratégico que a Universidade poderia desempenhar, tanto no suporte direto à população quanto na produção de conhecimento sobre a recuperação de áreas afetadas por desastres.
Alves realizou uma chamada pública às demais unidades da Unesp solicitando apoio. Ao todo, 11 docentes de diferentes áreas do conhecimento atenderam ao chamado. Professores e estudantes de arquitetura, administração, direito, turismo, medicina, psicologia e das engenharias mecânica, hidráulica, civil e da madeira, dos câmpus de Araraquara, Assis, Bauru, Botucatu, Franca, Itapeva e Rosana, estiveram entre os que prestaram apoio ao município.
Nesse contexto, o Plano Diretor elaborado pela Unesp foi peça-chave para a reconstrução do município. A cidade não precisou de tempo adicional para definir onde seriam construídas novas moradias ou implantados novos espaços de lazer e cultura, uma vez que essas diretrizes já estavam estabelecidas no documento.
“Os professores da Unesp que se mobilizaram tinham uma prática educacional e científica ligada à extensão universitária e ao retorno social que a universidade pública deve oferecer à sociedade”, afirma Alves. O arquiteto recorda que, nesse período, as vans utilizadas nas viagens a São Luiz do Paraitinga e as hospedarias locais se transformaram em salas de aula, onde a comunidade universitária discutia planos de ação e atividades a serem desenvolvidas. Os laboratórios, por sua vez, eram a própria cidade, que permitia aos estudantes aplicar seus conhecimentos em uma situação real.

“Os alunos chegaram a uma cidade que havia perdido suas estruturas e foram acolhidos como profissionais. Era possível ver estudantes de todos os anos realizando atividades junto aos gestores do município, o que proporcionou uma vivência prática muito intensa”, destaca Alves. “Provamos que é possível ter uma universidade aberta à comunidade e que é possível ensinar na prática, ou, pelo menos, por meio da prática.”

Em 2014, a Unesp concluiu sua atuação em São Luiz do Paraitinga. A cidade se reconstruiu e, hoje, a enchente é apenas uma lembrança para seus cerca de 10 mil habitantes. Para a Universidade, o projeto foi transformador, pois possibilitou maior aproximação com as comunidades do entorno e resultou na produção de dezenas, talvez centenas, de artigos, livros e outros materiais científicos que registram a experiência e apontam caminhos para o enfrentamento de tragédias ambientais.

Mas, ressalta Alves, igualmente importante é o vínculo de amizade que se firmou entre a Universidade e a cidade que ajudou a reconstruir. Vínculo que ele vê descrito e celebrado no poema “Mãos Dadas”, obra-prima de Carlos Drummond de Andrade. Em especial no trecho:
“Mas a tarefa presente é tão grande, não nos afastemos. / Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas. […] O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes, a vida presente”.
