Agência: o recurso escasso que a universidade precisa cultivar

A inteligência artificial generativa democratizou o acesso ao conhecimento e agora cabe à universidade treinar a capacidade do aluno em decidir como aplicá-lo. O sistema robusto de Extensão e Inovação da Unesp pode ser a base para um novo modelo de educação adaptado a esse novo contexto.

Em janeiro de 2025, Andrej Karpathy, ex-diretor de Inteligência Artificial da Tesla, pesquisador fundador da OpenAI e uma das vozes mais influentes no campo da IA, publicou uma reflexão essencial para os nossos dias. Respondendo a um comentário do investidor Garry Tan sobre como a inteligência artificial tornava a “inteligência” um recurso abundante, Karpathy escreveu:

“Eu entendi isso intuitivamente errado por décadas, talvez por causa de uma veneração cultural pervasiva da inteligência presente na mídia, na obsessão com QI, etc. Agência é significativamente mais poderosa e significativamente mais escassa.”

Karpathy fez então três perguntas incômodas: Vocês estão contratando por agência? Estamos educando para a agência? Você está agindo como se tivesse 10 vezes mais agência?

A provocação me obrigou a uma reflexão desconfortável. Passei a vida acadêmica cercado por pessoas brilhantes — e, no entanto, quantas delas efetivamente transformaram essa inteligência em ação? Quantas ideias geniais morreram na sala de café? Quantos alunos nota dez se tornaram profissionais medianos?

O termo agência, como traço de personalidade, refere-se à capacidade de tomar iniciativa, fazer escolhas e exercer controle sobre as próprias ações e sobre o ambiente. É ser proativo em vez de reativo. Uma pessoa com alta agência não deixa a vida simplesmente acontecer — ela a molda.

Isso se manifesta de formas concretas: é quem envia o e-mail primeiro, quem propõe a colaboração, quem assume o risco de errar. É o pós-graduando que não espera o orientador definir o problema, o servidor que identifica uma ineficiência e propõe solução, o estudante que atua em um projeto de extensão que impacta diretamente a sociedade. Agência não é impulsividade nem hiperatividade. É a combinação de iniciativa, persistência e tolerância à incerteza. É conseguir agir mesmo quando o caminho não está claro, mesmo quando não há garantia de sucesso, mesmo quando ninguém mandou.

E aqui está o ponto crucial: a agência é treinável, mas raramente treinada. Nossas instituições são desenhadas para recompensar quem responde bem, não quem pergunta primeiro. Premiamos quem tira boas notas na prova, não quem identifica qual tarefa deveria existir.

O avanço da inteligência artificial generativa tornou triviais tarefas que antes exigiam anos de formação: redigir textos acadêmicos, sintetizar literatura, resolver problemas que demandam raciocínio estruturado. Durante séculos, a universidade foi o repositório privilegiado da inteligência — o lugar onde o conhecimento se concentrava e se transmitia. Esse monopólio ruiu. Hoje, a academia compete com laboratórios corporativos, plataformas digitais e modelos de linguagem que passam em exames de medicina e direito. O prêmio Nobel de Química de 2024 concedido a Demis Hassabis e John Jumper, dois cientistas vinculados ao laboratório Google DeepMind, da Alphabet, é emblemático: a fronteira do conhecimento já não mora exclusivamente na universidade. 

A veneração da inteligência

Não é difícil entender como chegamos aqui. A inteligência é mensurável e comparável. Criamos vestibulares, concursos, índices de impacto, métricas de citação — todo um aparato institucional dedicado a identificar, classificar e premiar os mais inteligentes. Filmes e séries celebram o gênio solitário que resolve tudo com a força do intelecto. A universidade, em particular, se construiu como templo dessa veneração: um lugar onde os mais inteligentes ensinam os potencialmente inteligentes a se tornarem certificadamente inteligentes.

O problema é que a inteligência, sozinha, não faz nada acontecer. A esperança sempre foi a de que as idéias da universidade virariam produtos ou serviços através de outros atores sociais. Ainda que existam iniciativas notáveis como os projetos PIPE (Programa de Apoio à Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas), da Fapesp, e um crescente número de hackathons, a maior parte de nossos esforços sempre foram alocados na produção de textos e produtos intelectuais. O caminho entre a idéia e a execução demanda um ingrediente crítico que é a agência.

Olhe para a estrutura de um curso universitário típico. O professor define o conteúdo, a ementa, as avaliações. O aluno absorve, reproduz, é avaliado. O melhor aluno é aquele que melhor reproduz o que foi ensinado — com algum espaço para “pensamento crítico”, desde que dentro dos parâmetros esperados. A pós-graduação replica o modelo: o orientador define o problema, o orientando executa. Os mais bem-sucedidos são aqueles que executam com excelência o que foi demandado.

Esse modelo fez sentido por séculos. O conhecimento era escasso, estava concentrado em poucos, e transmiti-lo era valioso. A universidade era o lugar onde se acessava o que não estava disponível em outro lugar.

Mas o que acontece quando o conhecimento se torna abundante?

Hoje, qualquer pessoa com acesso à internet pode aprender praticamente qualquer coisa. Um estudante de graduação pode conversar com um sistema de IA que passou em exames de medicina, direito ou engenharia. A barreira de acesso ao conhecimento praticamente desapareceu. Mas para que essa interlocução seja efetiva segue sendo essencial a formação intelectual dos profissionais.  

Se inteligência está “on tap” — disponível na torneira —, qual é o diferencial humano? Um desses diferenciais é a agência. A capacidade de decidir o que fazer com essa inteligência abundante. De identificar problemas que valem ser resolvidos. De agir diante da incerteza. De criar, não apenas consumir.

E é precisamente isso que cada vez mais vamos precisar ensinar.

Educando para a agência

Como seria uma universidade que priorizasse a agência ?

Primeiro, mudaria o que avalia. Em vez de apenas medir a capacidade de responder perguntas, mediria a capacidade de fazer as perguntas certas. Em vez de premiar apenas a execução, premiaria a iniciativa. Trabalhos de conclusão poderiam ser avaliados não só pela qualidade técnica, mas pela originalidade do problema escolhido, pela capacidade de o aluno ter identificado algo relevante por conta própria.

Segundo, mudaria a estrutura das aulas. Menos transmissão, mais criação. Menos “aprenda isso”, mais “descubra o que precisa aprender para resolver aquilo”. Metodologias ativas não são novidade, mas frequentemente são aplicadas de forma cosmética — o professor ainda define o problema, só muda a dinâmica da solução.

Terceiro, normalizaria o fracasso. Agência implica risco. Quem age primeiro erra primeiro. Uma cultura que pune duramente o erro está, na prática, selecionando contra a agência. Precisamos de espaços onde tentar e falhar seja parte explícita do processo.

Quarto, repensaria a relação orientador-orientando. O modelo em que o professor define o problema e o aluno executa forma excelentes técnicos, mas não necessariamente pesquisadores autônomos. E se parte do doutorado fosse explicitamente dedicada a desenvolver a capacidade de identificar problemas, não apenas resolvê-los? E se os pós-graduandos fossem desafiados a discutir como aplicar o resultados de suas pesquisas na prática? 

O desafio que temos pela frente

Não estou propondo abandonar o rigor intelectual nem sugerir que inteligência não importa. Ela importa. Mas ela se tornou uma commodity. O acesso a conhecimento e capacidade analítica nunca foi tão democrático. O que permanece escasso — e cada vez mais valioso — é a disposição e capacidade de agir.

A pergunta de Karpathy ecoa: estamos educando para a agência?

Talvez seja hora de perguntar: e se formássemos pessoas que, diante de um mundo com inteligência artificial abundante, soubessem exatamente o que fazer com ela?

A Unesp possui hoje um robusto sistema de Extensão e Inovação. É um ponto importante que pode servir como base para criar um novo modelo de educação adaptado a esse novo contexto. Por exemplo, seria essencial fortalecer algumas habilidades como gestão de projetos, comunicação, modelos de negócio e  planejamento estratégico em todos os cursos da graduação e pós-graduação. 

Mas não basta ensinar a teoria, o essencial é colocar essas habilidades em aplicação no nosso contexto social. Por isso que os nossos elos com a sociedade são absolutamente críticos para a consolidação de um novo modelo de ensino em que a abundância de recursos cognitivos tenha impacto para resolver os desafios do Brasil.

Imagem acima: Homem sentado sobre pilha de livros. (Crédito: Depositphotos)

Ney Lemke é coordenador da CTInf e professor do Instituto de Biociências de Botucatu.