Duas teses desenvolvidas nos programas de pós-graduação (PPGs) da Unesp, ambas com propostas inovadoras na área da saúde, venceram a 20ª edição do Prêmio Capes de Tese. Outras duas teses produzidas na Universidade receberam menções honrosas na premiação. O resultado final foi divulgado nesta sexta-feira, 29 de agosto, pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), com a relação de 49 trabalhos vencedores, um por área de avaliação da Capes. No total, foram 1.543 trabalhos inscritos.
As pesquisadoras Claudia Carolina Braga, do PPG de Enfermagem (doutorado profissional) sediado na Faculdade de Medicina (FMB) do câmpus de Botucatu, e Larissa Sposito, do programa de Ciências Farmacêuticas (doutorado acadêmico) com sede na Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCF) do câmpus de Araraquara, venceram com as teses “Tecnologia digital para gerenciamento de imunobiológicos especiais na atenção primária à saúde: Plataforma ConectAPS – CRIE” e “Micropartículas contendo nanopartículas de trans-resveratrol aplicadas ao tratamento de infecções por Helicobacter pylori”, respectivamente.
Os demais trabalhos da Unesp reconhecidos na premiação, com menções honrosas, foram as teses de Rafael Antonio de Oliveira Ribeiro (“Desenvolvimento de estratégias inovadoras para clareamento dental de consultório: eficácia estética e biocompatibilidade associadas à redução do tempo clínico”), defendida no PPG de Odontologia da Faculdade de Odontologia do câmpus de Araraquara e orientada pelo professor Carlos Alberto de Souza Costa, e de Isabella Cristina de Castro Lippi (“Efeito de dose letal e subletal do imidaclopride no transcriptoma de abelhas Apis mellifera africanizadas”), defendida no PPG de Zootecnia da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia do câmpus de Botucatu e co-orientada pelos professores Ricardo de Oliveira Orsi e Samir Moura Kadri.
Sob a perspectiva do conceito de “saúde única”, todos os quatro trabalhos reconhecidos na premiação destacam-se por contribuições na área da saúde. “A pesquisa de ponta que tem sido desenvolvida em nossa Universidade tem sido reconhecida e isto é motivo de muito orgulho para nós, unespianos”, afirma o docente Marlus Chorilli, da Faculdade de Ciências Farmacêuticas e orientador da pesquisadora Larissa Sposito.
Tecnologia como aliada
No âmbito do programa de pós-graduação profissional de Enfermagem, voltado a pesquisas aplicáveis, Claudia Carolina Braga utilizou-se da tecnologia como aliada e criou um aplicativo que melhora o gerenciamento de imunobiológicos especiais na Atenção Primária à Saúde, principal porta de entrada do SUS.
Na prática, a plataforma ConecntAPS-CRIE facilita a comunicação entre a atenção primária (APS) com os Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais (CRIE), voltando-se para a cobertura vacinal do grupo de pessoas que possuem condições clínicas específicas, tais como doenças crônicas, câncer, transplantados e pessoas com o vírus HIV. “Construímos uma plataforma digital voltada a melhorar o gerenciamento e a organização do fluxo de pedidos, liberações e aplicações dos imunobiológicos”, diz a docente orientadora da tese, Cristina Maria Parada, da FMB.
A plataforma ainda possibilita o armazenamento e a transmissão de informações para outros serviços envolvidos, como a Vigilância Epidemiológica e o próprio CRIE. Segunda a docente, a pesquisa tem grande potencial para promover mais qualidade de vida aos grupos de pessoas que poderiam ser beneficiadas pela plataforma. Por serem mais vulneráveis a infecções, esses grupos de pessoas necessitam de vacinas, muitas vezes, não ofertadas de forma ampla e que precisam da aprovação do CRIE –e a agilidade nesse processo pode ser vital aos envolvidos.
Abordagem inovadora
No caso do trabalho produzido por Larissa Sposito, a tese buscou uma nova abordagem em tratamentos de infecções por Helicobacter pylori (H.pylori). Esta bactéria é comumente ligada a doenças gástricas, sendo bastante resistente aos antibióticos. A pesquisa voltou-se para o desenvolvimento de sistema nano-em-micro –ou seja, micropartículas compostas por ácido hialurônico e alginato de sódio que encapsulam nanopartículas– de quitosana contendo trans-resveratrol. O trans-resveratrol (RESV) é um polifenol natural, encontrado na casca das uvas, com reconhecida atividade antimicrobiana contra H. pylori, porém sua aplicação clínica é limitada pela baixa absorção pelo organismo decorrente do breve tempo de permanência no trato gastrointestinal.
Os resultados demonstraram que as nanopartículas de quitosana com trans-resveratrol tiveram eficiência de encapsulamento mínima de 72% e perfil de liberação do fármaco mais prolongada, em comparação com o fármaco livre. As formulações indicaram maior tempo de contato com o estômago, com resultados positivos, como a demonstração de um efeito gastroprotetor. O sistema nano-em-micro desenvolvido, segundo os pesquisadores envolvidos, representa uma alternativa promissora para o tratamento de infecções por H.pylori, abrindo caminho para novas estratégias terapêuticas baseadas em nanotecnologia farmacêutica voltada para infecções gástricas.
Para chegar aos resultados, o trabalho contou com a colaboração de diversos pesquisadores, como de suas co-orientadoras Andréia Bagliotti Meneguin e a Taís Maria Bauab, ambas da FCF-Unesp, e da professora Maria Cristina Lopes, da Universidade do Porto, em Portugal –Larissa Sposito contou com o apoio de uma Bolsa Estágio de Pesquisa no Exterior (Bepe), da Fapesp.
Desafios comuns
Durante o desenvolvimento das duas teses da Unesp vencedoras do prêmio, um dos maiores desafios foi trabalhar sob a pandemia da Covid-19. Claudia Carolina Braga trabalhava na linha de frente do combate à emergência de saúde pública, em hospitais, e Larissa Sposito, enquanto pesquisava, teve de realizar rodízio para utilização do laboratório, com o objetivo de manter sua produção e concluir o trabalho.
As teses vencedoras ainda estão disputando o Grande Prêmio Capes de Tese, que seleciona os destaques nas seguintes categorias: Ciências da Vida, Humanidades, Exatas, Tecnológicas e Multidisciplinar. “Foi o primeiro ano que nosso programa profissional [em enfermagem] encaminhou uma tese para concorrer ao prêmio”, afirma a professora Cristina Maria Parada. “Por vezes, não acreditamos ou simplesmente não submetemos (os trabalhos) à avaliação. Acho que temos potencial para mais, muito mais”, diz.
Prêmio Capes de Tese
O Prêmio Capes de Tese, desde 2006, reconhece e prestigia pesquisas científicas inovadoras, originais e socialmente relevantes, com o objetivo de incentivar os estudos e aumentar a visibilidade das ações positivas desenvolvidas na pós-graduação brasileira.
Os critérios de avaliação utilizados foram atualizados pelo Conselho Técnico-Científico da Educação Superior e estão descritos no Edital nº 6/2025 da Capes. Na seleção, foram levados em conta a originalidade da tese, relevância para o desenvolvimento científico, tecnológico, cultural, social, político, ambiental, da saúde e do bem- estar, além de metodologia, rigor na redação, organização do texto, grau de inovação e/ou interdisciplinaridade e impacto de produtos derivados do trabalho.
Imagem: Marcelo Casall/Agência Brasil.
Sob supervisão de Fabio Mazzitelli
