Em comemoração ao quinquagésimo aniversário da Universidade, o Jornal da Unesp publica, a partir de hoje, a série de reportagens “Unesp: 50 anos, 50 histórias”. A proposta é apresentar ao leitor a trajetória da Unesp a partir da perspectiva de quem a viveu, em 50 crônicas que resgatam personagens, conquistas e momentos marcantes de nossa história.
Em 30 de janeiro de 1976, a Assembleia Legislativa de São Paulo promulgava a Lei nº 952, que criava a Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho. A nova instituição surgia da união de 12 Institutos Isolados de Ensino Superior do Estado de São Paulo e da Faculdade de Música “Maestro Julião”, além da criação do câmpus de Ilha Solteira. Apenas seis meses depois, a jovem universidade deu um passo decisivo para a sua consolidação com a inauguração de seu primeiro curso de pós-graduação, no Instituto de Biociências de Rio Claro.
Naquele mesmo ano, Osmar Malaspina, então um professor da rede pública de Araraquara, decidiu se inscrever no curso recém-inaugurado. Começava, sem saber, a trajetória que o levaria a ser o primeiro pós-graduado formado pela Unesp e, nas décadas seguintes, uma das principais referências brasileiras nos estudos sobre abelhas.
Osmar Malaspina cresceu na roça, perto de Tabatinga. Durante a infância, estudava à luz de uma lamparina de querosene. Durante o curso ginasial, tinha como objetivo se tornar bancário. Mas pegou gosto pelos estudos e se encaminhou para o curso normal decidido a ser professor. Tornou-se professor da rede pública, onde atuou por sete anos. Mas seus anseios o empurravam para ir mais longe. “Meu sonho era fazer oceanografia, e durante todo esse período eu mantive um olho na pós-graduação”, lembra. Para quem vivia no interior do Estado, porém, essa possibilidade parecia remota; apenas na capital do Estado havia a oferta de cursos de pós-graduação.
A criação da Unesp e, logo depois, da pós-graduação em Ciências Biológicas do Instituto de Biociências de Rio Claro mudaram esse cenário. Incentivado por Antonio Carlos Stort, um importante pesquisador na área de abelhas com quem havia estagiado, Malaspina prestou a seleção e passou. Assim, em julho de 1976, ele se juntou à primeira turma do mestrado em Ciências Biológicas da Unesp, sob orientação de Stort, compartilhando a sala de aula com cerca de 20 alunos.

O docente lembra que, na época, o ambiente de estudo ainda era improvisado. Os novos laboratórios foram instalados em casas no Horto Florestal de Rio Claro, que antes haviam servido como habitação para funcionários do Instituto. “Não eram as melhores condições para pesquisa, mas era um começo. Felizmente, um ano depois foi inaugurado o primeiro prédio do câmpus atual, e isso transformou completamente o ritmo de estudo”, diz Malaspina.

O prédio ao qual se refere o biólogo é o mesmo que, em 2022, sofreu um incêndio que durou mais de quatro horas e levou à destruição de laboratórios, material didático, acervos e equipamentos. Foi naquele prédio que Malaspina lembra ter defendido seu mestrado, o primeiro da universidade. Mais tarde, já no doutorado, passou noites em claro acompanhando as medições de experimentos.
Apesar dos desafios do espaço físico inicial, desde o começo a unidade de Rio Claro tinha um grande diferencial: entre os profissionais que atuavam nas Ciências Biológicas estavam alguns dos pesquisadores mais influentes da época. À frente do curso de graduação em Biologia estava o entomologista e geneticista Warwick Estevam Kerr, que foi o primeiro diretor científico da Fapesp e uma das autoridades mundiais em genética de abelhas. Já a pós-graduação teve Carminda da Cruz Landim como uma das pesquisadoras à frente de sua implementação.
“Além de ser uma das maiores pesquisadoras de abelhas que tínhamos, ela também contava com uma visão extraordinária”, conta Malaspina. “Logo depois da criação da Unesp, ela apareceu com o planejamento da pós-graduação todo montado. Isso possibilitou que o mestrado e o doutorado fossem criados apenas seis meses depois da criação da Universidade”, diz Malaspina. Carminda, por três vezes, foi chefe do Departamento de Biologia e diretora do Instituto de Biociências.
Nesse contexto de efervescência intelectual nasceu um dos primeiros trabalhos emblemáticos de Malaspina. No final da década de 1970, um ácaro parasita começou a se espalhar pelo Brasil, ameaçando colônias de abelhas. Na época, o biólogo estava no final do mestrado e recebeu o desafio de desenvolver um método para medir o grau de infestação. “Para fazer essa medição, era preciso coletar abelhas, separar os ácaros que estavam grudados nelas e determinar quantas estavam realmente infestadas. Mas não havia nenhum equipamento que permitisse essa separação de forma fácil”, recorda.
O então mestrando chegou a uma solução usando, como ele diz, a “criatividade brasileira”: adaptou um frasco de álcool, colocando uma tela no bocal. Isso permitia depositar as abelhas dentro do frasco, que era preenchido com álcool. Os ácaros mortos, então, passavam pela tela e ficavam depositados na tampa do frasco, permitindo sua separação das abelhas e a contagem. O método tornou-se referência entre apicultores e pesquisadores, espalhou-se pelo país e pelo mundo, mas nunca foi patenteado.

Décadas depois, em um congresso nos Estados Unidos, Malaspina assistiu a uma palestra em que o dispositivo era apresentado como uma das ferramentas utilizadas em um trabalho de pesquisa. A autoria do método, porém, era desconhecida. Ao se identificar como o inventor e mostrar imagens do modelo original, foi reconhecido tardiamente por uma contribuição criada quando a Unesp ainda dava seus primeiros passos.
Um ano após desenvolver a versão inicial do método, Malaspina defendeu sua pesquisa, na qual avaliou a transmissão genética da resistência ao inseticida DDT em abelhas da espécie Apis mellifera. No dia da primeira defesa de mestrado da universidade, a sala estava lotada. Para marcar o evento, coube ao Reitor da Unesp, Armando Octávio Ramos, proceder à abertura da mesa. Esse detalhe, porém, passou despercebido por Malaspina. “Na época, achei que era a primeira defesa daquele instituto. Não imaginava que fosse a primeira em toda a Unesp”, diz.

O biólogo repetiria o pioneirismo três anos depois, ao se tornar o primeiro doutor formado pela Unesp. “Quando descobri que eu era o primeiro doutor formado pela Unesp, nem dormi naquela noite. Fiquei muito feliz. É uma honra muito grande para mim”, relata
Malaspina diz que, à época, não era possível antecipar a dimensão que a Universidade iria alcançar ao longo dos anos. “Achávamos que os institutos continuariam trabalhando isoladamente. Não se imaginava que haveria essa união entre as unidades e que, hoje, a Unesp estaria entre as melhores universidades do Brasil”, comenta.
Ao longo da carreira, as pesquisas de Malaspina sobre abelhas resultaram em diversos desdobramentos, embasando, inclusive, políticas públicas. Ele tornou-se referência nos estudos que avaliaram impactos do uso de agrotóxicos sobre esses insetos, participou da elaboração de manuais que hoje integram a legislação ambiental brasileira e acompanhou a mudança gradual do modelo agrícola, que passou gradualmente a investir mais em bioinsumos. Esse retorno da universidade à sociedade, diz o biólogo, é uma das maiores conquistas da ciência.

Hoje, ao olhar para trás, Malaspina fala com orgulho da Unesp e da ciência que ajudou a construir. Confessa, porém, que esse orgulho vem acompanhado da saudade de um tempo em que tudo parecia estar sendo inventado e em que cada avanço representava um grande passo no desenvolvimento científico e tecnológico. Ainda assim, esse sentimento é paradoxal: ao mesmo tempo em que sente falta do que foi, o biólogo admite que gostaria de estar começando agora.
“Cada inovação dentro da universidade resultava em um novo artigo, uma nova produção, novas descobertas. Sinto muita saudade de todo aquele entusiasmo. Mas, ao mesmo tempo, fico pensando: ‘Puxa, eu devia estar começando agora. Quanta coisa nova poderia fazer’”, confessa.

