Embora a exploração humana do espaço tenha se iniciado há mais de seis décadas, apenas cerca de 660 pessoas já tiveram a oportunidade de contemplar nosso planeta desde o espaço. No último dia 5 de novembro, estudantes, professores e membros da comunidade universitária do campus de Guaratinguetá puderam conhecer um desses raros: Jerome “Jay” Apt, astronauta norte-americano que, ao longo dos anos 1990, participou de quatro missões espaciais a bordo dos ônibus espaciais Atlantis e Endeavour, realizando duas caminhadas espaciais e somando um total de quase mil horas no espaço.
Apt ministrou uma palestra para quase 300 pessoas, que ocuparam todos os assentos do auditório da Faculdade de Engenharia e Ciências (FEG) e também encheram um salão anexo, que transmitia o evento em tempo real.
Aos 76 anos de idade, Apt narrou, com carisma e entusiasmo, as particularidades do cotidiano e da convivência com colegas dentro de naves e estações espaciais. Descreveu a experiência de acostumar o corpo e os movimentos à gravidade zero; e relatou as maiores dificuldades que enfrentou em suas viagens ao espaço.
Diferentemente do que muitos pensam, as missões espaciais são pautadas por uma programação bastante rígida, explicou, que inclui tarefas de controle das aeronaves, demandas de manutenção da sua estrutura e execução de dezenas de experimentos científicos. “Não estava previsto nenhum tempo para apenas parar e olhar pela janela”, afirmou o norte-americano. “O que eu fazia, então, era tirar duas horas das sete horas que eu tinha reservado para dormir, e ficava apenas observando o planeta Terra”.
Apt se referiu ao encantamento que experimentou ao sobrevoar pela primeira vez a América do Sul, e observar um destacado tapete esverdeado e repleto de nuvens, formado pela Amazônia, e um imenso risco longitudinal em relevo, formando a Cordilheira dos Andes.

Este deslumbramento com o planeta acabou despertando no astronauta uma nova carreira, a de fotógrafo. Tornou-se autor de livros premiados com imagens espaciais da Terra. “Eu sempre encarei a ida ao espaço como uma viagem de trabalho, mas com uma vista muito melhor que a do quarto do hotel”, brincou. A íntegra da palestra está disponível no canal da FEG, no YouTube.
A presença do astronauta norte-americano no campus de Guaratinguetá integrou a programação do 36º Encontro Internacional de Astronautas, que foi realizado entre os dias 3 e 7 de novembro pela Association of Space Explorers (ASE), e cuja abertura e trabalhos técnicos ocorreram na cidade de Mogi das Cruzes.
O evento é anual e costuma reunir dezenas de astronautas de todo o mundo para uma semana de conteúdos técnicos, networking com profissionais ligados ao setor aeroespacial e atividades culturais e educacionais. A programação na Unesp faz parte das atividades do Community Day, em que os astronautas interagem com jovens cientistas, pesquisadores e comunidade universitária em geral.
Para o professor Edson Botelho, Pró-Reitor de Pesquisa, a presença de uma personalidade como Jay Apt reforça a posição da Unesp como uma universidade de classe mundial e pode servir de inspiração aos alunos. “Este é um momento que resgata o brilho no olhar dos estudantes e pode acabar motivando esses jovens na carreira acadêmica e científica”, afirmou.
Após a palestra, um grupo de 12 alunos integrantes do projeto UNESP Asteroid Hunters recebeu medalhas das mãos do astronauta em reconhecimento à detecção preliminar de mais de 20 possíveis novos asteroides no Sistema Solar. O projeto, desenvolvido em parceria com o programa Caça-Asteroides, do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), envolve estudantes do Ensino Médio e da graduação dos campi de Guaratinguetá, Rio Claro e Bauru, além de discentes e docentes da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e do Instituto Federal de Alagoas (IFAL).

Na perspectiva do professor Othon Winter, que é pesquisador da área de astronomia e docente da FEG, a comunidade teve uma oportunidade ímpar de ouvir um astronauta que, depois de aposentado, se tornou professor universitário e pesquisador respeitado, com centenas de artigos publicados.
“O Jay tem essa preocupação de transmitir paixão pelo seu trabalho, e acho que isso pode inspirar os alunos. Nós demos muita sorte por ele ser, além de astronauta, também um físico e um acadêmico. Falas como essa transmitem a ideia de que é possível fazer coisas grandes”, afirma o docente, que no campus de Guaratinguetá lidera um grupo dedicado a pesquisas sobre dinâmica orbital.
A inspiração que uma palestra como essa pode ter para alunos das engenharias, física e matemática — alguns dos cursos oferecidos na FEG — foi um ponto destacado também pelo professor Herman Voorwald, ex-reitor da Unesp e ex-secretário da Educação do Estado de São Paulo, que também acompanhou a palestra ao lado de centenas de estudantes no auditório da unidade. Voorwald lembrou que, em 1969, assistiu pela televisão à chegada do homem à Lua e escreveu uma carta para a NASA dizendo que estava entusiasmado e que queria ser um astronauta. “A NASA respondeu à minha carta dizendo que eu deveria me dedicar aos estudos para alcançar meus objetivos”, lembrou o ex-reitor da Unesp. “Ou seja, o fato de o homem ter pousado na Lua fez com que um adolescente de 14 anos olhasse um pouco para frente. Acho que é essa mensagem que essa palestra deixa para esses alunos: a educação é o passo para se buscar algo além”, afirma.
Após a palestra, Jay Apt concedeu uma entrevista ao Jornal da Unesp. Na conversa, o astronauta falou um pouco sobre sua trajetória acadêmica após deixar a NASA e destacou os legados da exploração espacial e como essa herança pode ajudar a humanidade a enfrentar alguns dos seus principais desafios.
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Após encerrar sua carreira como astronauta, o senhor se tornou um professor e pesquisador renomado na Carnegie Mellon University, na Pensilvânia. Essa é uma trajetória comum entre os ex-astronautas?
Jerome Apt: Existem alguns astronautas que posteriormente se tornaram cientistas. No meu caso, eu era um cientista que depois se tornou um astronauta. Eu fiz meu PhD em Física, em 1976, e passei a trabalhar na área de Astronomia Planetária até 1982. Primeiro na Universidade de Harvard e depois no California Institute of Technology (Caltech) Jet Propulsion Lab.
Em 1982, fui para o Johnson Space Center (JSC), da NASA, onde trabalhei no centro de controle de motores. Fui selecionado como astronauta em 1985 e voei em 1991, 1992, 1994 e 1996. No ano seguinte, em 1997, me aposentei e me tornei o diretor de um grande museu de pesquisa, o Carnegie Museum of Natural History em Pittsburgh, na Pensilvânia. Depois disso, eu me mudei para a Carnegie Mellon University, onde me tornei professor e me dediquei por 20 anos à pesquisa na indústria de energia elétrica.
No ano passado, o senhor publicou um artigo na revista Science intitulado “Stop arguing and cut emissions” [“Parem de discutir e cortem as emissões”, em tradução livre]. O título sugere um chamado para que se tomem atitudes imediatas para a redução da emissão. Curiosamente, o Brasil está recebendo neste momento a COP30, que tem sido criticada pelas longas negociações e pela pouca entrega de resultados práticos. Como o senhor vê o enfrentamento global às mudanças climáticas?
Jerome Apt: Minha pesquisa nos últimos 20 anos foi na indústria de energia elétrica, que é uma grande contribuinte para a emissão de gases do efeito estufa. Aproximadamente 75% do meu trabalho nesses anos abordou energia elétrica de baixo carbono. Embora o Brasil esteja recebendo a COP30 em Belém, na Amazônia, minha perspectiva é que é uma perda de tempo tentar fazer com que 120 países concordem em algo. Você precisa de quatro países concordando, e uma vez que você consegue isso, deixa-se de gastar tanto tempo com outros 120 países. Se você encontra soluções que funcionam para cinco países, então você estará resolvendo o problema.
Então o senhor acha que funcionaria melhor um acordo entre os principais emissores, por exemplo?
Jerome Apt: Sim. Ou alguns dos maiores emissores. Alguns deles vão fazer algo durante dez anos, e depois virá um outro governo que começará a tomar outras medidas. Mas se você convencer países suficientes a adotar tecnologias de baixo carbono, você vai conseguir desenvolver e impulsionar essa tecnologia.
A China é a maior produtora de eletricidade de baixo carbono, mas também é o maior produtor de energia de alto carbono. Muito do seu crescimento tem sido em energia eólica, nuclear e um pouco de solar. Ao mesmo tempo, é o maior produtor de painéis solares para outros países. Acho que isso mostra que é preciso estimular o desenvolvimento das tecnologias. Não me preocupo muito com o que todos os países do mundo estão fazendo. Preocupo-me com o que alguns estão fazendo.
Muitas pessoas ainda criticam a exploração do espaço por ser muito cara, argumentando que, nos dias de hoje, ela poderia ser realizada por robôs, por exemplo. Quais benefícios a exploração espacial humana nos legou?
Jerome Apt: Essa é uma falsa dicotomia. Os robôs são excelentes para algumas coisas. Eu jamais colocaria meus pés em Vênus, por exemplo. É um lugar infernal. Jamais chegaria perto de Júpiter. Existe muita radiação lá. Mas podemos mandar um robô a qualquer momento para esses lugares.
Nossos robôs são um recurso incrível, mas levaram dez anos para fazer o que um geólogo experiente provavelmente faz em um mês, porque se movem lentamente. Mas existem outras coisas que nós, humanos, podemos fazer além de sermos rápidos e flexíveis. Nós inspiramos outros humanos. Claro que eu me inspiro nos robôs também, mas me inspiro muito mais vendo outros humanos no espaço. Eu digo que, provavelmente, não existe exploração sem robôs e não existe exploração sem pessoas. Nós precisamos de ambos.
Existem planos para o homem voltar à Lua em alguns anos. Por que precisamos retornar à Lua depois de tanto tempo?
Jerome Apt: Por que as pessoas continuam voltando para a Antártica? É a mesma coisa: querem fazer pesquisas. Cientistas já foram para o Pólo Sul, mas acabam voltando para fazer pesquisas. Além disso, o Pólo Sul é um dos lugares mais incríveis para fazer pesquisas que temos no planeta. Lá existe o IceCube, um observatório para detecção de neutrinos, também temos detectores de matéria escura e o Telescópio Pólo Sul, uma estrutura para observação de vários tipos de ondas. Lá também é possível observar ambientes extremos perfurando lagos milhares de metros abaixo da superfície de gelo. É um lugar fantástico.
Atualmente, a humanidade enfrenta uma série de desafios nas mais diversas áreas, desde as mudanças climáticas, doenças emergentes e mesmo conflitos geopolíticos. Como a exploração espacial pode ajudar a humanidade a superar esses problemas?
Jerome Apt: Bom, deixe-me começar com a identificação do efeito estufa. Foi por causa do entendimento de Vênus a partir de uma nave espacial que nós desenvolvemos bons modelos do CO2 e outros gases de efeito estufa presentes na atmosfera da Terra.
A atmosfera em Vênus é 85 vezes mais densa que a da Terra. Essa atmosfera é formada praticamente por CO2 e um pouco de dióxido de enxofre. Durante o modelamento da atmosfera de Vênus, foi possível fazer o modelamento de concentrações muito menores de CO2 na atmosfera terrestre. Isso nos deu um claro entendimento dos efeitos do CO2. O programa espacial contribuiu diretamente para o modelamento aqui na Terra.
E existem outras coisas que eu poderia apontar. Painéis solares foram desenvolvidos em tempos modernos. Os avanços em painéis solares, que inicialmente eram caríssimos nas naves espaciais, ajudaram a barateá-los na Terra e hoje são um recurso comum para geração de energia.
Como foi a experiência de fazer essa palestra na Unesp, em um auditório lotado de jovens estudantes brasileiros?
Jerome Apt: Eu acho que falar com esses jovens, estudantes brilhantes que estão estudando engenharias e ciência, é algo fabuloso. As soluções tecnológicas são uma parte importante do nosso futuro. Se a humanidade abandonar a tecnologia, então voltaremos ao caos. Precisamos confiar nesses estudantes e na boa educação que recebem para formatar o futuro do Brasil e do mundo.
