Visita de Bolsonaro à Rússia é benéfica para Putin, diz especialista em relações internacionais da Unesp.

Líder russo ambiciona mostrar que país não está isolado internacionalmente em meio à crise na Ucrânia. Professor do câmpus de Marília explica que aproximação entre Rússia e China, anunciada no começo do mês, é reação a iniciativas dos EUA para conter ambos os países, como a expansão da OTAN para o Leste europeu e a venda de armas para Taiwan.

Nesta terça-feira, o presidente Jair Bolsonaro pousa em Moscou e inicia uma das mais signficativas viagens internacionais de seus três anos de mandato. Não tanto pelos possíveis acordos que poderão advir das reuniões entre Bolsonaro e o líder russo, Vladimir Putin: o consenso entre os analistas internacionais, e mesmo entre a diplomacia brasileira, é que, do ponto de vista prático, muito pouco deve resultar dessa jornada ao maior país do mundo. O elemento de destaque vem da elevadíssima tensão que paira sobre a fronteira entre Rússia e Ucrânia neste momento.

Desde 2014 a Ucrânia vive em guerra civil, com a Rússia apoiando as tropas separatistas rebeldes. A partir de meados de novembro, a Rússia começou a concentrar tropas na fronteira com a Ucrânia, sinalizando uma possível invasão. Atualmente, estima-se que o total de tropas russas ultrapasse os cem mil homens mobilizados, além de tanques, aviões, armamentos etc. Neste período, os EUA têm adotado uma postura de pagar para ver, alertando os russos de que qualquer ação militar terá consequências. E seus aliados europeus da OTAN vêm se mostrando solidários, embora se movimentem sem cessar para baixar a temperatura da crise.

E o esbarrar de ombros entre EUA e Rússia nesta crise da Ucrânia pode ser o ponto de partida para maiores desdobramentos. Em 4 de fevereiro, em meio à escalada retórica entre as duas superpotências, Vladimir Putin viajou para a China, a fim de assistir à abertura dos Jogos Olímpicos de Inverno. Lá, os dois países divulgaram um comunicado conjunto afirmando o interesse em aprofundar a cooperação nas esferas econômica, política e militar. A declaração repercutiu nas esferas diplomática e econômica, e houve quem anunciasse o início de uma nova Guerra Fria. Para Marcos Cordeiro Pires, professor e pesquisador de relações internacionais da Faculdade de Filosofia e Ciências da Unesp em Marília, falar em guerra fria é incorreto, mas está claro que a aproximação entre os dois países é um sinal claro aos norte-americanos de que a competição será mais dura nos próximos anos. “Eles estão sinalizando que as ações americanas também terão consequências”, explicou. Veja abaixo a íntegra da entrevista que ele deu ao Jornal da Unesp.

                                                  

Detalhe do uniforme de soldados ucranianos em formação. Crédito; Bumble-Dee/Deposit Photos

Estamos vivendo uma grave crise diplomática envolvendo Rússia, Ucrânia, EUA e União Europeia. Por que essa crise irrompeu agora?

Marcos Cordeiro Pires: Eu não daria uma resposta defitiniva, mas posso fazer algumas especulações.

Vamos lembrar que a crise não é de agora. Ela começou em 2014, quando ocorreu o que ficou conhecido como revolução colorida da Ucrânia, na qual grupos com apoio dos americanos e da União Europeia derrubaram o goveno ucraniano de então, que era pró-Moscou. Já se tentou fazer isso na Geórgia, na Moldávia e em diversos países. São as chamadas revoluções coloridas. Naquele momento [da derrubada do governo ucraniano pró-Rússia], o segmento que se mostrou mais efetivo era um grupo neofascista, que esteve por detrás da faceta mais violenta daquele processo de mudança. Diante da forma como as coisas ocorreram, houve uma reação da Rússia. O país tomou militarmente da Ucrânia a Península da Crimeia. É lá que está baseada a sua principal força naval, e por isso a posse da Crimeia era uma questão crucial.

A Ucrânia é um país eslavo. Mas, enquanto parte da população se identifica mais com os habitantes da Polônia, outra se identifica com os russos. E esta parte mais próxima dos russos percebeu para onde as coisas estavam caminhando após a revolução, principalmente por conta da atuação desses grupos fascistas.  Parte desta população organizou um movimento de resistência contra o novo governo pró-Ocidente, que tomou parte da região de Donbas e declarou duas repúblicas independentes, Luhanski e Donetsk. Temos um país que antes já era dividido etnicamente, e hoje está dividido politicamente.

Penso que o que pode ter criado o espaço para que esta crise emergisse agora foi a desmoralização a que o governo norte-americano foi submetido devido ao modo como se retirou de Cabul, a capital do Afeganistão. Este acontecimento evidenciou para o mundo que o poderio americano já não é tão grande. E que talvez nem a população americana nem o sistema político dos EUA estejam dispostos a arcar com grandes aventuras. Talvez o Putin tenha apostado que seria o momento adequado para agir, justamente quando os EUA se enfraquecem, pelo menos do ponto de vista moral.

Outra especulação envolve a recente tentativa de deslanchar uma revolução colorida este ano, dessa vez no Cazaquistão. E o Cazaquistão é um país muito maior do que a Ucrânia. Lá estão os principais centros aeroespaciais da Rússia. Houve uma resposta rápida, e a rebelião foi sufocada. Acho que esses dois fatores talvez tenham criado o timing para que Putin pudesse colocar as cartas na mesa.

Vamos lembrar o que aconteceu quando os russos tentaram colocar armamento nuclear em Cuba, em 1962, a reação dos americanos diante da possibilidade de instalarem-se mísseis a apenas 120 km de Miami. A Rússia é um país grande, que possui suas zonas de interesse e quer evitar que alguém posicione mísseis nas proximidades de suas fronteiras. Essa questão também é importante para entender o porquê de a crise ter eclodido neste momento.

Existe alguma possibilidade real de que a Ucrânia venha a receber armamento nuclear? O país nem é membro da OTAN.

Marcos Cordeiro Pires: Não existe essa chance neste momento. Mas a OTAN está presente nos países bálticos: Lituânia, Estônia e Letônia. Também está na Bulgária, na Romênia, na Turquia… Ou seja, há uma série de possibilidades. Para os russos, a ameaça é grande. Neste momento, enquanto perdura a guerra civil na Ucrânia, a situação está num impasse. Não se sabe como a guerra vai acabar. Se por acaso Kiev conseguisse controlar o território de Dombas com absoluta certeza seria factível imaginar que se colocassem armas estratégicas naquele território. Mas ainda não podemos vislumbrar qual será o desfecho deste impasse.

O presidente Bolsonaro recebe o líder da Rússia, Vladimir Putin, durante visita oficial ao Brasil em 2019. Foto: Marcos Corrêa/PR

Nesta terça-feira, o presidente Jair Bolsonaro inicia uma visita oficial à Rússia em meio à crise, mesmo tendo sido aconselhado a cancelar ou a adiar a viagem. Por que o governo brasileiro está buscando esta aproximação?

Neste momento, Bolsonaro está sendo percebido no cenário internacional como alguém radioativo; ninguém quer ser visto perto dele. Não tem interlocução com a União Europeia, nem com o governo Biden. E está vendo diminuir o espaço da extrema-direita na América do Sul. Essa viagem vai permitir a ele projetar prestígio internacional.

Bolsonaro vai se reunir com um grande líder mundial, que vai estender o tapete vermelho para ele. E por que Putin vai fazer isso? Neste momento em que a Rússia está sendo constrangida pelo Ocidente, nada melhor para o seu governante do que mostrar que o país não está isolado. Pelo contrário, a Rússia tem amigos, tem prestígio, e a visita de Bolsonaro é um exemplo.

Neste contexto, uma fotografia do líder de um grande país em visita oficial à Rússia, mesmo que esse líder seja alguém radioativo, é algo positivo para Putin.  Mostra que o país não é a besta-fera que se pinta pela imprensa internacional. E para Bolsonaro é um meio para projetar grandeza: ele aparece ao lado de um grande dirigente mundial. E isso reforça também que o Putin não é um “comunista”, mas sim um conservador, que reprime os movimentos LGBT, que exerce um controle forte sobre a oposição no seu país e que tem uma relação próxima com a igreja ortodoxa e seus valores. Isso permite a Bolsonaro aparecer ao lado de Putin, tanto quanto poderia posar ao lado do primeiro-ministro Viktor Orban, da Hungria, ou do presidente [Andrjzej] Duda, da Polônia. Teoricamente, reforçaria a associação de Bolsonaro com esse eixo. Mas, olhando friamente, não vejo qual vantagem o Brasil pode obter dessa viagem. Nós não temos interesses na Ucrânia, não há civis brasileiros lá para serem defendidos… O Bolsonaro não vai trazer muita coisa na bagagem, exceto críticas por parte dos americanos.

Vladimir Putin e Xi Jinping em conferência conjunta durante os Jogos Olímpicos de Inverno em Pequim. Crédito: Agência Xinhua

No dia 4/02, houve um encontro em Pequim entre o líder da Rússia, Vladimir Putin e o líder da China, Xi Jinping, no qual as duas nações divulgaram um comunicado conjunto em que se comprometeram em aprofundar a cooperação em termos de economia, de política e segurança. Chegaram a falar em uma aliança “sem limites”. Por que essa promessa de aliança está acontecendo neste momento?

Marcos Cordeiro Pires: Para entender isso, é importante voltar um pouquinho a roda da história.

Neste mês de fevereiro faz cinquenta anos que ocorreu a visita de Richard Nixon à China. Naquela época, havia uma tensão muito grande entre a China e a União Soviética que inclusive chegaram a trocar tiros na enorme fronteira entre os países. Também havia crises entre EUA e a China, envolvendo principalmente Taiwan e a Península da Coreia. A visita de Nixon selou uma parceria entre a China e os Estados Unidos com o objetivo de conter o avanço da União Soviética. Principalmente na região do flanco sul da China. A China chegou a invadir o Vietnã em 1979, para impedir o aumento da influência soviética na Indochina. Aquela visita teve um impacto muito grande e ajudou a definir o fim da Guerra Fria.

Henry Kissinger, o secretário de Estado da época, foi muito hábil em evitar que dois países comunistas se unissem contra os americanos. E, para a China, a lógica era que o melhor era se aliar contra o inimigo de longe para combater o inimigo de perto.

Na reunião do dia 4/02, ocorreu uma sinalização. Não se pode dizer que tenha sido estabelecida, de forma definitiva, uma aliança militar entre Rússia e China. Isso é algo provável, mas está muito longe de ocorrer. E  por que os dois países resolveram transmitir sinais claros para os Estados Unidos? Porque os Estados Unidos estão constrangendo a China e a Rússia simultaneamente.

A Rússia, através da expansão da OTAN no Leste Europeu. A China, através da venda de mais armas a Taiwan e as visitas de autoridades americanas à ilha. Há também o fórum Quad, que articula Japão, Austrália, Índia e Estados Unidos contra a China. E  mais recentemente foi criado o AUKUS, um pacto que associa Estados Unidos, Austrália e Reino Unido também contra a China, envolvendo inclusive a produção de submarinos nucleares. Tudo isso cria uma situação de constrangimento.

Ambos os países estão sendo constrangidos pelos americanos, e compreendem que, em algum momento, precisam indicar que esse tipo de atuação tem implicações, que não vai ficar impune. A Rússia possui um arsenal nuclear do tamanho do arsenal nuclear americano. A China tem um arsenal nuclear menor, mas ainda assim grande o suficiente para destruir o mundo algumas vezes. Por isso, a sinalização é importante.

Mas por que ainda é cedo para se falar em uma aliança de longo prazo entre os dois? Uma primeira razão vem das diferenças históricas entre China e Rússia. Nos séculos 19 e 20, durante o período da Dinastia Quing, na China, a Rússia foi o país que mais retirou territórios do império chinês. Por exemplo, o território da atual República da Mongólia pertencia à China, e os russos fizeram ali um estado-tampão. Então há um passivo histórico a ser considerado na relação entre os dois.

Outro ponto é que para a China não interessa constranger os seus clientes da Europa. Mesmo porque, toda a iniciativa Cinturão e Rota é precisamente para estabelecer uma infraestrutura que sirva de ponte ligando a China até a Europa. Logo, uma aliança entre Rússia e China seria um sinal ruim para o tipo de comprometimento comercial ou financeiro que a China quer estabelecer com a União Europeia.

Do lado russo, há também receio de que venham a ser engolidos pela China. A população da China é dez vezes maior do que a população da Rússia. A capacidade industrial da China, e o seu grau de desenvolvimento tecnológico, deixam a Rússia no chinelo. A disparidade de poder econômico é muito grande. O movimento que eles estão fazendo é para aparentar uma proximidade, para fazer com que o outro lado pondere. Essa demonstração pública de afeto entre o Xi Jinping e o Putin é uma sinalização, mas não é a concretização de uma aliança.

Alguns comentaristas da mídia estão afirmando que estamos assistindo ao início de uma nova Guerra Fria. Esta comparação faz  sentido?

Marcos Cordeiro Pires: Há muitas diferenças entre o que foi a experiência da Guerra Fria entre a União Soviética e os EUA e o que poderia ser uma guerra fria entre Estados Unidos e China.

Por exemplo, não há hoje por parte da China ou da Rússia interesse ideológico em levar para outros países o seu modelo politico. A União Soviética servia como base para um movimento comunista internacional que estava presente em todos os países. Hoje não existe esse movimento comunista, porque nem Rússia nem China têm interesse em vender o próprio modelo político.

Outra grande diferença diz respeito à integração dos países na economia internacional. A União Soviética travava apenas contatos esporádicos com o Ocidente, principalmente quando vendia petróleo. Mas possuía certa autonomia tecnológica, e organizava o seu comércio internacional dentro do COMECON, o órgão que articulava a ajuda mútua entre os países socialistas. À época, EUA e a URSS eram sistemas econômicos diferentes e apartados.

Hoje, os sistemas econômicos são muito integrados. A China é a maior economia do mundo em termos de paridade de compra. Ela detém US$ 3 trilhões em reservas. US$ 1 trilhão da dívida pública dos Estados Unidos é carreado pelos chineses. Existe uma integração produtiva internacional que coloca todos os países basicamente no mesmo barco.

Mesmo durante o auge da guerra comercial entre Trump e o governo chinês, o volume de investimento financeiro dos Estados Unidos na China cresceu cinco vezes. Então, por um lado existe a briga envolvendo a tecnologia 5 G, ou a fabricação de microchips. Mas por outro, o capital financeiro americano entrou em larga escala no mercado chinês. Dentro desse cenário de interdependência, imagine o que implicaria a desacoplagem dessas economias de uma hora para outra.

Mas, dizer que não seja uma guerra fria não nos impede de falar que pode haver uma intensificação de competições. Claro que, nessa competição, as empresas e o governo norte-americano vão tentar atacar para diminuir a força da China. Da mesma forma, os chineses vão se organizar para fazer uma política de substituição de importações em setores cruciais para não dependerem ou ficarem à mercê de sanções do governo dos Estados Unidos. Eu acredito que, se olharmos a questão da Guerra Fria, foi algo muito mais complexo do que a competição que se coloca hoje.

Comenta-se que, durante a visita, Putin vai sugerir que o Brasil considere a admissão da Argentina ao bloco dos BRICs. No início deste mês, a Argentina também anunciou ter aderido à iniciativa Cinturão e Rota, o programa internacional de empréstimos para construção de infraestrutura capitaneado pela China. Por que esses dois países estão demonstrando interesse pela América do Sul?

Marcos Cordeiro Pires: Não é exclusivamente pela América do Sul. Com a Argentina, são agora 20 países que assinaram o memorando de entendimento com relação aos investimentos em infraestrutura por meio da iniciativa Cinturão e Rota.

Em 2016, já se cogitava ampliar o BRICs e abrir espaço para outras potências médias, como Indonésia, México, Nigéria, Egito, Argentina ou Colômbia. Recentemente, o Novo Banco de Desenvolvimento dos BRICs, que é a esfera mais efetiva do bloco, admitiu Bangladesh, Emirados Árabes Unidos e o Uruguai.

Quando alguém é pobre e faz parte de um clube juntamente com outros integrantes mais ricos, a conveniência é que este clube se mantenha fechado. Até para que o elemento mais pobre possa ser visto como dotado de maior importância. Então, teoricamente, para o Brasil não seria interessante que os BRICs incorporassem outros países em desenvolvimento, porque o poder e o prestígio do Brasil diminuiríam na mesma proporção em que ingressassem novos membros no clube.

O presidente da Argentina, Alberto Fernandez, junto ao líder da China, durante visita em fevereiro. Crédito: Xinhua.

Porém, de 2014 para cá os BRICs tiveram perdas em um aspecto importante, que é o estratégico. A chegada de Bolsonaro ao poder no Brasil e de Narendra Modi na Índia esvaziou politicamente o bloco. Eles perderam a voz unificada que tiveram antes, quando estavam no poder o Partido do Congresso, na Índia, e o Partido dos Trabalhadores aqui, época em que havia mais ou menos um alinhamento internacional em prol de um mundo multipolar. Com o esvaziamento dessa parte política, os BRICs não conseguiram mais chegar a um acordo sobre nada, praticamente. O único elemento que dá coesão ao bloco é o banco.

Do ponto de vista da China, o ingresso da Argentina seria um modo de ampliar o tamanho do bloco e diluir o peso de um país que é avesso à China e à multipolaridade, como é o Brasil do Bolsonaro.

Mas por que será a Rússia, aparentemente, quem vai fazer essa interlocução com o Bolsonaro sobre a Argentina? Para os russos, a adesão da Argentina seria como criar um constrangimento para os americanos no próprio “quintal” deles. Um constrangimento para a diplomacia norte-americana, que continua seguindo a mesma orientação de contenção dos russos e dos chineses na América Latina que vem desde o governo Trump. Me parece que é uma resposta política.

Outro aspecto é que, durante o governo Bolsonaro, o Brasil perdeu o posto de maior parceiro comercial da Argentina. Foi suplantado pela China. Por falta de habilidade ou má intenção, o Mercosul foi deixado de lado.

Mas, pelo perfil do presidente da República, e pelas características das lideranças do Itamaraty hoje, duvido que o Brasil ensaiasse qualquer atitude de maior boa vontade com a Argentina. Se houvesse alguma consulta exigindo que todos concordassem quanto ao ingresso de mais um integrante, imagino que o governo brasileiro nesse momento daria bola preta para a  ampliação do bloco.

Foto acima: Foto: Marcos Corrêa/PR