O furacão criativo André Abujamra sopra um novo capítulo para o Karnak

Multi-instrumentista, compositor e ator fala sobre sua trajetória à frente de uma das bandas mais criativas da música brasileira. Novo álbum “Mesozóico” oferece um reinício para a obra do grupo, sem abrir mão do humor nonsense e das letras inteligentes.

A trajetória artística de André Abujamra é uma das mais interessantes, originais e caóticas da música popular brasileira recente. Cantor, compositor e multi-instrumentista, conquistou público e crítica a partir dos anos 1980 com as duas bandas que liderou, Os Mulheres Negras e Karnak. Também toca uma carreira solo e integra formações experimentais, e somando todas estas frentes musicais, já deixou sua marca em dezenas de registros, entre Lps, EPs, faixas nas redes e até um documentário.

Em paralelo, firmou-se como um dos mais prolíficos e reconhecidos autores de trilha sonora para o audiovisual brasileiro, tendo colaborado em mais de 80 produções. E, sabe-se lá como, ainda arranja tempo para uma carreira de ator, participando de filmes como Sábado, Durval Discos,  É Proibido Fumar e Os 7 Prisioneiros.

Desde 2025 o Karnak vem experimentando um novo período de evidência, graças ao lançamento de Mesozóico. O trabalho se destaca pela criatividade e musicalidade, e trouxe o grupo de volta aos palcos.

Músico desde a barriga da mãe

André é filho do célebre ator e diretor de teatro Antônio Abujamra. O pai era conhecido pelo apelido Abu, que o filho herdou. Por conta do pai, nasceu e cresceu em um ambiente de efervescência artística.

“Minha história com a música é muito maluca. Nasci e não falei até os quatro anos de idade, mas com um ano já tocava piano. E não era tocar piano para fazer barulhinho não, eu já compunha. Se fosse hoje em dia, o pessoal ia falar que é uma espécie de autismo. Ou iam dar algum remédio para a criança”, conta.

Mais do que um talento ou uma vocação artística, André relata uma profunda identificação com o universo sonoro, que inclui as notas, mas também os barulhos e os ruídos. “Meu pai me colocou numa escolinha de música aos quatro. Daí, comecei a falar. Mas a minha primeira história com o som, com a música, vem antes de nascer, praticamente. Eu já vim com o som. Eu sou um barulho”, relata Abu.

A descoberta da guitarra

Embora sua formação musical seja ampla, abrangendo do erudito ao pop, Abu foi picado pela mosca do Rock aos 17 anos. À época, foi morar em Oklahoma, EUA, para cursar o terceiro colegial num programa de intercâmbio.

“Eu tinha um amigo, Carlos, que queria ser agrônomo, biólogo. Ele se inscreveu, e eu também. Eu queria ser músico, me escrevi para ir para Minneapolis porque queria conhecer o Prince”, conta, divertido.  Mas tudo saiu ao contrário. O amigo Carlos foi para Minneapolis e André teve que se mudar para o estado agrícola do Oklahoma.

“Fiquei numa família em uma fazenda. Cortava grama com um carrinho de cortar grama do meu pai americano, Bud. Cortava a grama das fazendas, colhia amoras e ganhava US$ 10 por dia”, conta. Na escola, começou a tocar numa big band de jazz . Com o dinheiro que ganhou cortando grama, conseguiu juntar US$ 700 e adquirir uma guitarra Gibson. “Nessa banda de jazz e comecei a estudar guitarra. Escutava muito jazz, Duke Ellington, Benny Goodman. Mas também  ZZ Top, que era daquela região, além de Beatles e outros artistas”, diz.

Em 1981, foi assistir a um show do Rush em Kansas, num campo de futebol americano. A experiência o marcou. “Escutei aquele som, com aqueles caras tocando. Era uma época maravilhosa deles. Quando retornei ao Brasil decidi montar uma banda”, diz.

Ao retornar dos EUA, Abu adentrou a faculdade de música e montou uma banda bem esquisita, uma espécie de pré-Karnak, na qual já misturava diversas sonoridades. Nessa época, adquiriu um pedal de distorção para guitarra e começou a escutar bastante rock´n roll. Ao mesclar os gêneros musicais, começou a criar um estilo de tocar diferenciado, marcado por solos de guitarra “estranhos”.

Os Mulheres Negras

Nos anos 1980, ao lado do saxofonista Maurício Pereira, Abu fundou a emblemática dupla Os Mulheres Negras, que se apresentava carinhosamente como “a menor big band do mundo”.

Com os históricos álbuns Música e Ciência (1988) e Música Serve pra Isso (1990), a dupla marcou época na Vanguarda Paulista. Antenados com a tecnologia, anteciparam tendências da música eletrônica ao vivo, utilizando samplers e colagens sonoras, que davam roupagem musical para letras repletas de um humor ácido e inteligente.

“Eu montei Os Mulheres Negras em 1988 junto com o Maurício Pereira. Então, não podia tocar uma guitarra muito pesada. Eu gravava as guitarras e ele o saxofone, e ficava essa loucura de parecer que havia mais do que dois soando. O Maurício é um gênio, ele inventou essa brincadeira que a gente era “a terceira menor big band do mundo”, pois a primeira era a banda da Sinfônica da Marinha da Bolívia e a segunda era o grupo Menudo. Falávamos que fazíamos um “tecno pobre”, pois não tínhamos os recursos de ponta. Utilizávamos a nossa precária tecnologia para preencher a sonoridade, sem pretensões de inovar nessas questões. Foi isso que o Mulheres Negras fez um trabalho muito bonito”, diz.

Egito, Brasil e Karnak

Após o fim do duo em 1991, Abujamra deu vida ao seu projeto mais ambicioso e duradouro: o grupo Karnak, fundado em 1992. O nome veio de uma viagem de Abujamra ao Egito, onde ficou fascinado pelo complexo de templos de Karnak.

“Fui conhecer o Templo de Karnak, uma das coisas mais lindas do mundo. Foi tipo uma luz que caiu sobre a minha cabeça. Voltei para o Brasil e falei: vou fazer uma banda gigantesca. Cada um vai tocar músicas de tudo que é estilo: músico de jazz, músico de samba… E tinha até o nosso cachorro, o Jeton. Aliás, somos  a única banda do mundo que tem oficialmente um cachorro como membro. Montei uma banda gigantesca misturando tudo, o tempo inteiro, com tudo que eu quisesse. Assim nasceu o Karnak”, relata.

A proposta da banda elevou a mistura de referências e estilos para outro patamar. Incorporando ritmos brasileiros, etno-pop africano, rock experimental e influências árabes e asiáticas. Seu disco de estreia homônimo, Karnak (1995), foi considerado pela revista americana Rolling Stone como um dos melhores lançamentos da década de 1990. Em seguida, gravaram o aclamado Universo Umbigo (1997), que consolidou sua identidade singular.

A crítica frequentemente classificava o Karnak como World Music, mas a banda rejeitava o termo. As apresentações ao vivo se assemelhavam a peças de teatro caóticas, com figurinos extravagantes (como túnicas e chapéus gigantes), esquetes de improviso e muita comicidade. O terceiro álbum, Estamos Adorando Tóquio (2000), consolidou a fama do grupo no circuito alternativo e universitário.

Um Karnak Mesozóico

Para promover o registro, o mentor da banda utilizou sua habitual verve teatral para criar uma narrativa de autoficção. Segundo a lenda inventada por Abujamra, as faixas teriam sido retiradas de uma fita demo perdida nos anos 1980, supostamente encontrada em escombros na Alemanha.

Inspirado na lógica temporal invertida da franquia Star Wars (onde o Episódio IV saiu antes do Episódio I), o álbum funciona conceitualmente como um “episódio zero” da banda. Entre as faixas que se destacam no novo trabalho estão Eu Só Nasci, single de abertura que discute a desigualdade social por meio do acaso do nascimento; e Só Tenho Bip, uma divertida e nostálgica alusão tecnológica aos tempos em que a banda começou e as maneiras de paquerar uma pessoa nos anos que antecedem a internet.

Com produção assinada pelo próprio Abujamra, o disco prova que, mesmo após três décadas de estrada, a capacidade da banda de chocar, divertir e unir as diferenças por meio do som continua perfeitamente intacta, assim como o humor e o nonsense que são característicos da trupe.

Música e amor

“Hoje, aos 61 anos, eu tenho a seguinte visão sobre a minha obra: para começar, 99,35% das pessoas que conheço querem se aposentar. Eu, além de não querer, não vou me aposentar. Posso estar numa cadeira de rodas, sem falar, ouvindo um pouquinho com uma caneta, vou morrer tocando guitarra em cima do palco ou compondo uma sinfonia. A minha vida é criar”, diz.

Ele relata que há muitos anos é adepto do candomblé. A religião, no entanto, não impede que enxergue um mundo passando por um momento difícil, com relações humanas arcadas pela falta de empatia e de amor. Seu objetivo pessoal, no entanto, é ir contra essa corrente. “O que pretendo mesmo, e tenho feito isso há muito tempo, é passar amor para as pessoas, sem vergonha de ser feliz”, diz.

Ele conta que o pai, o célebre diretor de teatro Abu, tinha uma visão pessimista da vida. “Meu pai falava: ‘Andrezinho, tudo piora.’ Ele tem um pouco de razão, as coisas pioram. Mas eu sou otimista. Acredito muito nas coisas boas”, diz. “O mundo é invisível para quem não é da sua família, e mesmo dentro da família é invisível. O artista torna visível o invisível. Quero passar para as pessoas o máximo de amor que puder com a minha música. Não tenho vergonha de falar isso.”

Confira abaixo a entrevista completa no Podcast MPB Unesp.