Jacque Falcheti: nômade, mutante e autêntica

Com mais de uma década de carreira, a cantautora paulista costura virtuosismo instrumental ao violão com a sensibilidade da canção popular para compor obras inspiradas em um estilo de vida itinerante e original

Por que esperar o tempo perfeito para fazer algo se ele não existe e o processo se faz tão bonito com suas imperfeições?

A frase acima é uma reflexão que permeia a obra da cantora, compositora e violonista Jacque Falcheti. Depois de concluir sua formação musical na UFSCar (Universidade Federal de São Carlos) e no Conservatório de Tatuí, Jacque se tornou uma multiartista e decidiu cair na estrada –  aliás, no mundo –, e aos 38 anos se autointitula uma artista nômade e multifacetada.

“Eu comecei essa história nômade três anos atrás, porque comecei a viajar muito para tocar, para fazer os shows, e começou a não fazer muito sentido para mim ter uma casa num lugar só. Então, quando eu vou fazer os shows, eu gosto muito de viver a cidade, as pessoas, fazer o contato com outros artistas”, explica Jaque, que desde então adotou uma rotina não muito comum no meio artístico, que consiste em “esticar” as estadias nos locais onde toca. “Eu achei que seria legal se eu vivesse na estrada sempre”, diz. 

Este novo estilo de vida fez com que a artista vendesse todas as suas coisas, inclusive livros e discos, e vivesse na pele a realidade do bordão “cair na estrada”, uma atitude da qual ela se orgulha e que dialoga diretamente com sua produção artística. “Acho que a minha arte sempre foi atravessada por esse movimento, por esse descobrir e por ser atravessada pelas coisas. Então, quando eu comecei a entender o que era esse papo do nomadismo, do minimalismo, uma coisa criativa de toda hora você ter que fazer planos ou mudar de planos e se adaptar às realidades, eu fui gostando e inserindo isso também no meu jeito de compor, meu jeito de escrever, meu jeito de me comunicar com as pessoas”, afirma a cantora, que ao longo de sua trajetória sempre incluiu em seu repertório canções de compositores e compositoras de diferentes partes do mundo. “Eu fui percebendo que esses elementos já faziam parte também da minha história. Acabei adotando essa ideia de uma artista nômade, que é uma artista que fica cruzando os espaços e as histórias, sendo atravessada por eles”, conta Falchetti.

A carreira da artista inclui seis álbuns e diversos EPs gravados, premiações e turnês por cerca de 20 países de continentes diferentes como Europa, África e América Latina. Nas plataformas digitais, Jacque registra uma expressiva marca de mais de 200 mil plays. O momento agora, entretanto, é de celebrar seu último álbum, lançado em 2025 e que já acumula prêmio importantes. “Já gravei diversos trabalhos, desde homenagens a grandes nomes como Noel Rosa, outros em parcerias com diferentes músicos e cantautoras. Entretanto, “Crua” é o meu primeiro álbum solo, onde foquei meu trabalho autoral e explorei ainda mais esse formato mais minimalista de voz e violão”, explica. 

O álbum foi premiado pelo Programa de Ação do Estado de São Paulo (ProAc) e projetou ainda mais o trabalho da artista, não apenas na cidade de São Paulo e no interior do estado, mas fora do Brasil. “Acabei de finalizar uma turnê internacional extensa me apresentando em inúmeros países como Portugal, Alemanha, Bélgica, Inglaterra, entre outros. Agora, estou pensando no meu novo álbum que irá abordar justamente essa minha vivência nômade, inclusive, algumas dessas canções que vão estar no próximo trabalho, eu compus justamente durante essas minhas viagens, terá canções que fiz no nordeste brasileiro, outra na Itália e por aí vai”, relata.

Nascida em Ribeirão Preto, interior de São Paulo, Jacque Falcheti teve sua formação artística na UFSCar e no Conservatório de Tatuí (Crédito: Divulgação)

Obra e estilo

No Brasil, o violão é mais do que um instrumento; é uma extensão da voz e da alma. Nesse sentido, Jacque Falcheti se ancora na tradição da música brasileira, mas traz uma roupagem inovadora em suas canções. Com mais de uma década de carreira, Jacque consolidou-se como uma das figuras mais versáteis de sua geração, costurando com maestria o virtuosismo instrumental e a sensibilidade da canção popular. Seja como autora ou intérprete. Com inúmeras referências, ela não demorou a encontrar sua própria assinatura. Sua trajetória é marcada pela exploração rítmica: do choro ao samba, passando pela música caipira, pela bossa nova dentre outros gêneros e estilos.

Entre acordes delicadamente escolhidos a dedo, voz ao pé do ouvido e silêncios nas texturas dos arranjos, suas canções se tornam um convite para uma pausa no dia e uma reflexão ao íntimo. Diferente de músicos que se prendem apenas à técnica, Falchetti utiliza o violão como um narrador. Em seus projetos, o instrumento não apenas acompanha; ele dialoga, questiona e emociona. “Eu tenho essa liberdade em cantar, tocar, compor, escrever, acho que tudo isso agrega. A gente estuda, conquista técnicas, mas culmina numa situação de liberdade para poder brincar com a música e a arte. Antes de vir para o Vietnã, eu estava na Tailândia, então eu tenho feito muitas coisas assim. Descobrindo como é essa cultura oriental. Eu comecei a escrever uma série de haikais, eu nunca tinha escrito haikais e comecei a escrever. Eu vou ser influenciada por essas culturas e isso é que movimenta e que deixa vivo essas inspirações dentro de mim. Na verdade, eu preciso estar nesses lugares para continuar fazendo música, para continuar fazendo poesia. É o meu ar que eu tenho que respirar. Então, a minha música é um reflexo das estradas que percorri buscando espaços de liberdade. Eu sou artista. Gosto de me expressar por meio de algumas linguagens artísticas. Dentro disso, vou passando pela música, pelo violão, pela composição, pela escrita. Vou me arriscando, me permitindo e foi a história que escrevi. Sou cantautora, nômade e mutante”.

Valorização da música brasileira

Durante suas apresentações internacionais, a artista brasileira destaca o feedback que recebe do público sobre a música brasileira. “É muito lindo. Em relação à música brasileira, eu acho que às vezes a gente não sabe o tamanho que a gente tem fora do Brasil. Porque eu acho que é muito bem recebida e as pessoas geralmente, podem até não conhecer as músicas, mas elas têm respeito e um carinho. Independente de estar entendendo o que eu estou falando ou não. Porque é isso: eu consigo tocar em lugares que não falam a minha língua, e eu sempre tento me comunicar no meio das músicas, contar histórias, tentar me comunicar naquela língua ou em inglês, ou em espanhol, para tentar dar um contexto sobre as músicas. A música é uma língua universal e as pessoas respeitam e têm um carinho pela música brasileira”, afirma.

Já sobre as influências culturais das regiões onde visita para criar as suas próprias canções, Jacque diz que não usa tantos elementos como instrumentos e melodias, mas inspirações de vivências para compor. “Eu acho que as minhas músicas têm uma coisa bem existencialista. Vou querer falar que eu vi uma baleia não sei aonde e ela me lembrou de me encantar pela vida todos os dias. Ela me lembrou de coisas que eu não consigo explicar. Então eu sou um pouco assim: me inspiro em temas. Eu estava na Tailândia, por exemplo, e estava pensando nessa coisa do silêncio, lá você entra nos templos e é um silêncio absoluto. Eu estava muito mexida com a coisa do silêncio, pensei no silêncio, e aí comecei a escrever uma música que falava sobre o silêncio. Sou muito assim. Eu acho que os temas me pegam mais do que talvez a sonoridade em si. Sou muito mais influenciada pelos temas que aparecem para mim”.

Origens

Filha de pais contadores, Jacque explica que sempre ouvia muita música dentro de casa. Mas o seu primeiro grande interesse foi pelo esporte, o tênis. “Durante uns quatro anos da minha vida eu fui jogadora de tênis, de treinar, de ir para competição. Só que em certo momento, um violão caiu na minha mão e eu fiquei muito apaixonada. Não ia mais treinar tênis, fiquei querendo aprender violão, querendo aprender música. E aí depois fui estudar mesmo, fiz faculdade de música, fiz conservatório de música, e aí fiquei na música. Hoje não jogo mais tênis, só de brincadeira mesmo”.

Confira abaixo a entrevista completa no Podcast MPB Unesp:

Imagem acima: Artista Jacque Falcheti (Crédito: Divulgação)