Matuto S.A.: o abraço do hip hop com a viola caipira

Cantor, compositor, rapper e instrumentista baseia-se em vivências na sua cidade natal de Franca para promover o encontro entre o movimento de cultura urbana originado nos EUA e a musicalidade do interior de São Paulo. O resultado é o Regional Beat, movimento estético que já influencia até a moda e o comportamento.

Será que dá para combinar o rap com a viola caipira? A obra do cantor, compositor, rapper e instrumentista paulista Matuto S.A. mostra que essa mistura — e outras mais — são não só possíveis, como também uma via para construir um som autoral e original.

Vinícius Comparini Arcolino nasceu em 17 de março de 1991, na cidade de Franca, interior de São Paulo. Cresceu em uma família simples, na qual não havia músicos ou artistas de referência, mas isso não o impediu de entrar em contato com sua veia musical inata.

“Na minha família não tem músicos ou artistas. Minha mãe era professora, mas tocou violão em certa época. Ela frequentava a igreja, tocava em grupo de jovens, participou de uma banda durante uma fase, mas nunca levou isso à frente. Desde os cinco, seis anos, eu já gostava de música. Pegava o violão, queria tocar algumas coisinhas. Ela sempre me incentivou muito. Depois, me entusiasmei pela bateria. Esse foi o instrumento ao qual me dediquei realmente. Sempre gostei de ficar próximo dos bateristas das bandas e observar. Mas não é um instrumento simples, demorei para conseguir uma. Então me virava com o violão”, conta.

Na casa, o pai escutava diversos estilos, incluindo MPB, rock e música caipira. Nas rádios de Franca, sua cidade natal, a programação abria muito espaço para canções de duplas sertanejas. “Desde cedo, tive essa relação de ficar escutando muita música, tocar, mexer com instrumentos, querer montar uma banda. Mais tarde, veio a cultura hip hop e o rap”, diz.

Ele se juntou a uma banda e, aos 15 anos, já tocava em bares à noite e em festas. “Parece que, desde moleque, era uma coisa que eu queria fazer. Talvez não tivesse noção do que era trabalhar com música, mas era algo meu mesmo”, lembra.

No final dos anos 1990 e início dos anos 2000, Vinícius se dedicou a outra paixão, o skate. Chegou a desejar se tornar um atleta profissional. O skate é um esporte muito ligado à música, que é tocada a todo volume durante as competições, com destaque para estilos como punk rock e rap. Foi a partir das pistas que o músico se interessou pela cultura hip hop. “Se não tivesse o skate na minha vida, talvez não me identificasse tanto com a cultura hip hop. Essas duas culturas dialogam muito”, relata.

Mas, quando essa aproximação teve início, ele já estava construindo sua carreira e tocava tanto em bandas de rock, black music e reggae, como também criava algumas músicas autorais. Faltava, porém, um direcionamento. “Minha mãe era professora e pegava no meu pé para que eu me dedicasse aos estudos. Eu não queria fazer faculdade, só viver de música. Já estava no meio do som, inclusive tocando alguns raps, como Sabotage, Marcelo D2, Charlie Brown, entre outros, que me impulsionaram. Mas prestei vestibular, fiz o Enem e passei em Psicologia numa instituição no Mato Grosso.”

“Lá, encontrei irmãos também da música — inclusive um DJ. Criamos um projeto, e comecei a escrever e externalizar minhas ideias na música autoral. Depois de me formar, fui morar em Florianópolis — que é um outro extremo — para tentar viver da música. Esse DJ já estava morando lá e falou: ‘Vem pra cá que a gente toca. É uma cidade turística.’ Fiquei cinco anos, até voltar para Franca e entrar em carreira solo. A banda já não estava fazendo muito sentido para mim. Então me dediquei ao meu trabalho solo. Sempre tinha feito parte de banda, de projeto, sempre algo coletivo. Ali, em 2019, foquei em escrever minhas músicas mesmo e lançar minhas coisas sozinho”, diz.

Surge o Matuto

Foi a partir daí que estruturou a intervenção artística Matuto S.A.: uma viagem sonora que junta a tradição da viola caipira com os ritmos urbanos do rap, hip hop, reggae, funk e jazz.

“A ideia de unir o rap e a cultura hip hop com a viola caipira surgiu do pertencimento à minha terra e da sonoridade que me alimenta. Acho que já vim com essa vontade de falar de Franca. Trago referências de pontos específicos da cidade. Com a pandemia, lancei algumas coisas diferentes, inquietas, que a gente vivencia. Conversei com os amigos que são beatmakers e parceiros sobre fazer um som que nunca tinha ouvido. Foi essa brisa que a gente teve: misturar a viola caipira ali, um rap com viola”, conta.

A ideia o levou a uma pesquisa mais séria e ampla, buscando compreender a história da viola caipira e seus timbres característicos. As pesquisas despertaram uma paixão pela cultura caipira, permitindo-lhe identificar pontos de convergência entre o universo sertanejo raiz e a cultura hip hop.

“Fui fazendo conexões entre esses cenários e mergulhei nessa história até criar minha identidade sonora e artística. Em linhas gerais, esse cenário criou um caldeirão cultural, que intitulei de Regional Beat.”

O resultado é uma sonoridade autêntica e diferenciada. As letras falam de um ambiente no qual a zona rural e a cidade se entrelaçam, celebrando igualmente a cultura caipira e a cultura hip hop, e abordando temas como o poder da arte para promover mudança social, amor, esperança, saúde mental e questões socioambientais. O ouvinte é provocado a pensar sobre o futuro que queremos deixar para o nosso planeta.

O Regional Beat vai além da música

Em 2024, Matuto conquistou o primeiro lugar no Festival Águas de Março de Franca e levou o ouro no concurso de bandas do Festival João Rock, onde tocou no palco de gala ao lado de nomes como Emicida, Marcelo D2, Marina Sena e Os Paralamas do Sucesso.

Atualmente, Matuto trabalha na gravação de seu álbum Terra Vermelha: Do interior para o interior, no qual aprofunda a ponte entre o urbano e o rural. E o movimento também chegou ao audiovisual na forma do filme Regional Beat: Uma Antena Parabólica Fincada na Terra Vermelha. O longa, dividido em três momentos, registra esse trabalho e traz depoimentos de artistas como DJ KL Jay, Criolo, Gaspar Z’Africa Brasil, Carlos de Assumpção, Isa do Rosário e Ivan Vilela, entre outros, que ajudam a compreender a construção de um movimento estético com impacto na moda, comportamento e filosofia.

“Defino a minha obra como o Regional Beat: um pé na rua, outro na roça. O chapéu de palha grafitado é uma metáfora. A palha é o chapéu do trabalhador; o chapéu de couro e outros materiais é o chapéu do dono da fazenda. O grafite já é uma expressão urbana. Você não vê grafite na fazenda. E chapéu de palha nas ruas da cidade também é difícil, né? Só quando um trabalhador passa por ali ou em uma festa junina. O Regional Beat é esse movimento. A gente está passando por esse mundo, por essa vida. A música, a cultura hip hop, tudo aquilo que nos influencia já existia antes da gente nascer e vai continuar existindo depois que a gente morrer. Acho que a nossa cota é contribuir da melhor maneira enquanto a gente está aqui e se movimentar para isso”, diz.

Confira abaixo a entrevista completa no Podcast MPB Unesp.

Crédito da foto: divulgação.