Natural do Ceará, a cantora, guitarrista e compositora Fernanda Nara Maia Moura, popularmente conhecida como Nanda Moura, consolidou-se como uma das vozes mais autênticas e potentes da cena do blues nacional contemporâneo. Com uma trajetória que remete ao rigor técnico do blues presente entre as décadas de 1920 e 1940, Nanda criou uma sonoridade moderna e visceral.
A relação da artista com a música começou cedo, influenciada por uma família marcada pela musicalidade. Aos 9 anos, ela já se apresentava profissionalmente, interpretando canções complexas como “Bandolins”, de Oswaldo Montenegro. Ao longo dos anos, ela se debruçou sobre o estudo do blues tradicional, especializando-se na vertente do Mississippi e incorporando técnicas de guitarra slide e o uso do violão ressonador.
“Nasci e cresci numa cidade chamada Limoeiro do Norte, que fica na região do Vale do Jaguaribe, a mais ou menos uns 200 quilômetros de Fortaleza. Eu vim de uma família de músicos mesmo, tanto do lado do meu pai quanto do lado da minha mãe. O meu pai é cantor. O meu avô paterno era violeiro. Hoje o meu irmão é baterista também, fruto dessa imersão em música que a gente tem desde novo. Minha mãe é compositora e poetisa. Os meus tios, quase todos, são instrumentistas. Tem percussionista, tem saxofonista, trombonista, clarinetista, tem maestro”, explica a artista. “Eu não lembro da minha vida sem música”.
Segundo a artista, suas influências iniciais eram Zé Ramalho, Geraldo Azevedo, Fagner, Oswaldo Montenegro e artistas regionais do nordeste, ou seja, as canções que tocava com o seu pai. Além disso, escutava também artistas emblemáticos como Chico Buarque, Caetano Veloso e, mais tarde, cantoras como Cássia Eller, Ana Carolina, dentre outras. Entretanto, de forma diferenciada da grande maioria dos músicos, o lado instrumental foi o primeiro a ser lapidado.
“No meu caso, o violão veio antes do canto. Eu comecei realmente estimulada a aprender o instrumento. Tanto que quando eu comecei a me apresentar com meu pai profissionalmente, ele quem cantava e eu que tocava, mesmo ali, pequenininha. Era realmente uma coisa desafiadora para mim, como criança tão nova, e ao mesmo tempo chamava muita atenção, porque na cidade não tinha alguém tão jovem assim se apresentando”, lembra. Conforme a dupla foi emplacando novas apresentações, Nanda foi estimulada pelo pai a também cantar. “Eu já tinha participado de alguns shows de calouros na minha cidade somente cantando, sem tocar. A gente juntou as duas coisas e acabou acontecendo”, lembra.

Nanda Moura se apresenta no palco do Blues Roots Festival (Crédito: Fraçois Colin)
A relação com o blues
Durante a adolescência, Nanda foi morar no Rio de Janeiro. Nessa fase, começou a gostar mais de rock e ouvir bandas como Led Zeppelin e Deep Purple, que têm o blues na sua raiz. Dessa forma, foi inevitável se deparar com os sons de Eric Clapton, Muddy Waters ou Robert Johnson, que acabaram despertando a sua curiosidade e apreço pelo gênero.
“O blues é uma coisa meio visceral. Principalmente esse blues mais antigo, que é o que me encantou quando eu comecei a me aprofundar. O blues mais antigo, tinha um instrumento que me lembrava muito a viola nordestina, que é o violão ressonador”, relembra. Uma espécie de marca registrada do blues, o violão ressonador é de madeira, mas conta com uma peça metálica que ajuda a amplificar o som. Nanda explica que antigamente, quando ainda não havia guitarras amplificadas, esse era o instrumento usado nos bares. “Eu me encantei com isso, me lembrava daquela sonoridade do instrumento da música nordestina”, conta. “Eu falo que os dois estilos de música que eu mais gosto são o blues e a música nordestina. Na realidade, o blues originou muitos outros gêneros musicais que a gente conhece hoje. Então ele tem esse poder de arrebatar a gente mesmo”.
Nanda explica que sua relação com o blues foi ganhando corpo de forma espontânea, e hoje sua carreira fonográfica é marcada por projetos que celebram as raízes do gênero: “Quarentena” (2021), seu primeiro álbum, nasceu durante o isolamento da pandemia e reflete um período de introspecção e incertezas. Já “Bumble Bee” (2023) é um trabalho inteiramente acústico gravado em parceria com o gaitista Rodrigo Eberienos, com participação de Otávio Rocha (da banda Blues Etílicos). “Reverência às Referências” (2024), por sua vez, é um álbum que homenageia os mestres do blues brasileiro que moldaram sua trajetória como Álamo Leal e Greg Wilson.
“No primeiro disco o nome já diz tudo. Elaborei naquele período complicado de pandemia. O lado bom é que como tivemos que ficar muito tempo em casa, tive a oportunidade de escutar, pesquisar, me aperfeiçoar e mergulhar mesmo no universo do blues que acabou culminando na gravação. No segundo, me juntei ao Rodrigo que é um gaitista fera aqui do Rio, que eu considero o Paganini da gaita, um virtuoso e estudioso do instrumento, do blues e do jazz. Juntamos as nossas paixões pelo blues mais antigo e tudo fluiu perfeitamente. Já o terceiro álbum reflete a minha imensa gratidão aos músicos, guitarristas e artistas do blues, principalmente do Rio, que é o lugar onde eu me firmei e que me acolheram com muita generosidade. Maurício Sahady, Álamo Leal, o Greg e o próprio Otávio que se tornou meu grande parceiro de banda”.
Em sua nova fase, Nanda já lançou três singles emblemáticos que mostram uma pegada mais autoral e moderna. “Chega!” (2025), é uma parceria explosiva com Nasi (da banda Ira!) e com o rapper Thaíde, um “blues-protesto” com um toque de hip-hop. Já o álbum “LOUCA” (2025) soa como um manifesto rock-blues que critica o excesso de caretice do mundo atual e foi produzido por Apollo Nove. Por fim, “Sempre Não é Todo Dia”, lançado em março de 2026, é uma releitura da música de Oswaldo Montenegro, mas com um toque de guitarra slide que traz o clássico para dentro do universo do blues.
“Na verdade, essas canções representam o trabalho que venho apresentando nos shows, com uma sonoridade mais contemporânea. Tem faixa com mais peso, um blues com pegada de rock, tem aquela relação com o rap que ficou com uma sonoridade muito interessante e também este trabalho com slide. Tenho gostado muito dos resultados”.
Presença nos grandes palcos e estilo
Nos últimos anos, Nanda Moura tem ocupado espaços de destaque em festivais renomados, dividindo o line-up com ícones mundiais e nacionais. Em 2023, brilhou no Best of Blues and Rock em São Paulo, dividindo o evento com Tom Morello e Buddy Guy. Participou de festivais como o Rio Montreux Jazz Festival, Mississippi Delta Blues Festival e o Bourbon Street Fest. Sua abordagem musical combina elementos de rock, jazz e soul, mas mantém uma forte consciência dos fundamentos históricos do blues, resultando em performances carregadas de emoção e narrativas genuínas.
A artista foge do óbvio e mergulha no Blues de Raiz (Delta e Chicago), utilizando recursos que dão textura e profundidade ao seu som. Frequentemente, ela dispensa a palheta, usando os dedos para criar uma base rítmica e melódica simultânea, técnica clássica dos bluesmen acústicos. Dentre suas marcas está o “slide”, de onde a artista tira notas “choradas” e microtonais, tanto em guitarras elétricas quanto em violão ressonador, o que garante um timbre metálico e volumoso. Geralmente, suas afinações são abertas e o uso do slide cria ressonâncias ricas, típicas do Mississippi. Além disso, ela se destaca com a sua cigar box guitar e seu som elétrico busca a saturação natural de amplificadores valvulados, priorizando o “punch”.
Nanda costuma subir ao palco com a cigar box, a guitarra e o pedal stomp box, instrumentos que, segundo ela, têm uma sonoridade característica do blues tocado há cem anos atrás, típicos da década de 20 e 30, mas que mesmo quando são trazidos para uma linguagem mais contemporânea, eles mantém uma pegada rock’n’roll que faz a cabeça da artista. “Eles mantêm esse sentimento, essa coisa crua, essa sonoridade que remete ao blues daqueles tempos. Eu gosto muito”, celebra Nanda Moura. “Na cigar box, 90% das músicas são tocadas com slide. No ressonador, geralmente usado com afinação aberta, também é tocado com o slide”, explica. Como o próprio nome diz, a cigar box é uma guitarra feita a partir de uma caixa de charuto em que um luthier coloca um braço de guitarra e faz as conexões elétricas para transformá-la em uma guitarra. “Eu gosto muito de tocar um instrumento pequenininho que você não espera muito, mas que quando você liga, ele fala bastante, fala bem alto e tem um som muito bonito”.
Obra de Nanda Moura
Hoje, aos 35 anos, Nanda diz que o blues é o sentido da sua obra e do trabalho que ela desenvolve, ou seja, a base da sua música e da sua vida. Ele permite alcançar seus propósitos, trabalhar com o que gosta, conhecer pessoas interessantes e construir uma vida em cima disso. “Eu ainda estou tentando descobrir a minha obra. Todo dia eu descubro um fato diferente sobre mim e sobre a minha música, sobre a vida, sobre o que eu quero. Eu acho que é uma busca eterna. Eu busco chegar nas pessoas com a minha música, com os meus sentimentos e espero que isso traga benefício para elas, porque no final é isso que importa e é para isso que serve a arte. Porém, a gente anda muito podado, sabe? Tudo muito careta. Precisamos romper essas coisas”, sugere a artista, que compôs a música “Louca” pensando justamente nessas amarras.
“A gente é muito cheio de medos que estão muito dentro da nossa cabeça. É manipulação o tempo inteiro sobre o que comer, sobre como se vestir, sobre o que aceitar, o que ouvir. A gente meio que para de pensar por si próprio. A gente vai no automático. E aí, a música “Louca”, ela realmente faz um chamadinha. É uma loucura mesmo, sabe? Solta um pouco as amarras, dá uma chutada no balde, faz o que você tem vontade, não liga muito do que os outros dizem”.
A sugestão está dada. Portanto, solte as amarras, dê uma chutada no balde e confira abaixo a entrevista completa de Nanda Moura no Podcast MPB Unesp:
Imagem acima: a cantora, compositora e guitarrista Nanda Moura (Crédito: François Colin)
